A temporada de verão de 2022/2023 está positiva para a maioria dos empresários que atua nos segmentos hotelaria, bares e restaurantes na Capital. Depois das temporadas de 2020/2021 e 2021/2022 prejudicadas pela pandemia de Covid-19, as empresas, finalmente, trabalharam num ambiente de normalidade.
Pousada com 22 quartos em Canasvieiras chegou a ter 20 ocupados por argentinos – Foto: Leo Munhoz/NDEntre os principais impulsionadores do bom faturamento dessas empresas estão velhos conhecidos: os argentinos. Mesmo com problemas no câmbio, eles vieram em massa para Florianópolis a fim de bem aproveitar aquela que consideram a sua segunda casa.
Conforme o coordenador do núcleo Norte da Ilha da CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas) de Florianópolis, Eduardo Thomaz, nesta temporada, o grande movimento começou na última semana de dezembro de 2022.
“Janeiro também foi muito movimentado e com público de vários lugares do país e da América Latina. Percebemos, falando com alguns comerciantes da região, diversos segmentos muito otimistas pelo grande fluxo de pessoas”, aponta.
Liria Osório, 31 anos, é supervisora comercial de uma pousada na praia de Canasvieiras, Norte da Ilha, o balneário predileto dos hermanos. O empreendimento tem 22 quartos, capacidade para 68 hóspedes e funciona o ano todo, mas é na temporada que o faturamento sobe.
“Nessa temporada tivemos um fluxo muito grande de argentinos. Na primeira quinzena de janeiro, praticamente 90% (dos hóspedes) eram argentinos. Pelo menos 20 quartos eram deles. Salvaram nosso janeiro. Também tivemos uruguaios, paraguaios, colombianos, mas a grande massa era de argentinos”, ressalta.
A vez dos uruguaios
Embora tenham vindo em peso, os argentinos não tinham muito para gastar. “Eles consumiram pouco nos restaurantes e na praia. Aqui na pousada tínhamos almoço e jantar à parte, mas eles utilizaram pouco”, conta Liria.
Ela relata que o movimento de argentinos já caiu e a ocupação baixou consideravelmente. A expectativa é que os uruguaios venham para a cidade no próximo mês. “Pelo menos dez quartos já estão reservados para uruguaios, para ficar oito, dez, 15 dias em março”, complementa.
Ela acrescenta que a empresa alcançou o faturamento dos anos pré-pandemia. “No comparativo com o verão de 2020, antes da pandemia, a pousada cobrava cerca de R$ 250 a diária. Na pandemia, teve período que chegou a R$ 120 e nesta temporada passou de R$ 400.”
Beleza e preço são os atrativos que os viajantes mais valorizam
Mas nem só dos argentinos é feito o turismo da Capital. No restante da temporada, os uruguaios também devem visitar a cidade. De Montevidéu, a turista Nicole Rotela, 25 anos, está conhecendo Florianópolis nesta temporada. Ela veio ao Brasil numa excursão com 40 conterrâneos, que chegou domingo (19).
Nicole Rotela, Vivi Perez, Mar Avondet e Valeria Dotta, turistas do Uruguai – Foto: Leo Munhoz/ND“Viemos porque a distância é relativamente curta (1.200 km) e porque é um lugar econômico”, disse Nicole. “Também porque é perto de outros lugares, como Bombinhas, e porque o mar no Brasil é muito lindo, não precisamos ir para países mais distantes. Temos tudo aqui”, completa a também uruguaia, Vivi Perez.
Falando das praias, Vivi disse que gostou de todas, em especial da Joaquina, pela água cristalina. Para Nicole, a Joaquina é o Caribe brasileiro. As turistas elogiaram a atenção e simpatia dos brasileiros e a variada gastronomia de Florianópolis.
Filho de pai israelense e mãe argentina, Itamar Sofil, 23 anos, nascido e habitante de Israel, no Oriente Médio, também está conhecendo a Capital nesta temporada.
Itamar Sofil tem dupla nacionalidade: israelense e argentino – Foto: Leo Munhoz/ND“Estou gostando, muito linda a cidade. Muita chuva, mas muito lindo”, disse o turista. Hospedado em Canasvieiras, ele conseguiu aproveitar somente o Carnaval, já as praias nem tanto. O turista se despede do Brasil neste fim de semana, mas antes quer ir mais à praia para jogar bola.
Bares e restaurantes retomaram o fôlego
Presidente da Abrasel-SC (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes de Santa Catarina), Juliana Mota disse que ambos os segmentos vivem uma boa temporada.
“Estamos voltando aos números pré-pandemia, mas é importante lembrar que houve aumento no preço dos produtos e isso reflete no faturamento. Estamos numa temporada melhor, mas boa parte dos restaurantes não repassou o valor do aumento dos insumos, então, nem sempre há faturamento. A margem está bem apertada.
No final de 2022, a Abrasel aplicou um questionário em 123 empresas (71,5% restaurantes). Conforme a pesquisa, em relação ao mesmo período na temporada passada (23/12 a 8/1), 33% observaram aumento de até 15% no número de clientes e outros 23% aumento superior a 15%.
“Com certeza a vinda dos argentinos beneficia o movimento, faz toda a diferença e é bem importante esse retorno deles”, afirmou Juliana.
Robson Ribeiro, 33 anos, é formado em administração e gestão de pessoas e trabalhava numa grande indústria, quando resolveu largar tudo e empreender.
Robson deixou um emprego na indústria e resolveu empreender – Foto: Leo Munhoz/NDEm junho de 2022, virou sócio do irmão e começou a tocar um gastrobar em Canasvieiras. Segundo ele, a melhor mudança que poderia ter feito.
No verão de 2022, em fevereiro, o proprietário anterior do estabelecimento que Robson e o irmão compraram faturou cerca de R$ 30 mil.
Sob nova direção, o faturamento deste mês já passou dos R$ 200 mil e eles ainda têm mais uma semana para ampliar a margem. Segundo ele, se na largada da empresa os moradores locais ajudaram na arrancada, no momento, os turistas é que estão puxando o faturamento para cima.
Faltou imóvel para a demanda no Norte da Ilha
A família de Simoney do Nascimento, 50 anos, tem uma imobiliária há mais de quatro décadas em Canasvieiras. Segundo ele, a temporada deste ano foi melhor que a anterior e inclusive faltou imóvel para suprir a demanda, porém, ainda não foi a melhor da história.
“Perdemos muita locação por causa das enxurradas de dezembro de 2022, o que deixou as praias impróprias por muito tempo”, aponta.
Além dos problemas de balneabilidade, o empresário reclamou da falta de segurança, da organização do comércio na região Norte e da falta de incentivo do governo para o turismo local, mesmo no caso de Canasvieiras, em que o turista argentino é que costuma fazer a diferença.
A família de Simoney tem empresa desde a década de 80 na Capital – Foto: Leo Munhoz/ND“Não fossem esses aspectos, seria uma das melhores da história. Mas foi um ano bom, sim. Melhor que o normal. Igualou à última temporada antes da pandemia”, afirma.
Ainda conforme Nascimento, no verão a empresa chegou a ter vários dias com lotação máxima, especialmente em janeiro. No Carnaval, a região também encheu, mas com um público que vem para uma estadia menor – cerca de quatro dias – o que não é uma locação boa para imobiliárias.
Mesmo com lotação máxima em diversos dias, ele conta que a margem de lucro não acompanhou o crescimento no movimento. “O preço é o mesmo de quatro anos atrás, não tivemos ganância, então, deu uma renda, movimentou o mercado, mas não foi o esperado em termos de lucro”, revela.
Na visão de Nascimento, o engordamento da praia de Canasvieiras fez bastante diferença, “Tivemos mais estrutura para atender o pessoal”, declara o empresário.
Mesmo fazendo diversas ponderações com relação à boa temporada de 2023, Nascimento é um otimista para a próxima temporada: “Muitos argentinos disseram que pretendem voltar. Não tem jeito, eles têm um amor pela nossa praia”.
Ocupação na rede hoteleira passa de 85%
Segundo o presidente do Sindicato de Hotéis, Restaurantes e Similares de Florianópolis, Luciano Pereira e Oliveira, a temporada de 2022/2023 foi ótima para a hotelaria.
A entidade que ele preside fez um balanço, por exemplo, da ocupação hoteleira no período de Carnaval e tem ótimos índices. No comparativo com o Carnaval de 2022, a ocupação subiu 4,2 pontos percentuais saindo de 72,7% para 76,9%. Já nas praias, a rede hoteleira registrou uma ocupação de 85,9% no Carnaval.
Levando em conta somente o primeiro mês do ano, 2023 teve a maior ocupação geral na rede hoteleira dos últimos sete anos, com 83,1% de ocupação.
“Consideramos a melhor dos últimos. Certamente melhor que o ano pré-pandemia, devido ao Mercosul, mas principalmente aos argentinos. O brasileiro vem muito na primeira quinzena de janeiro, Natal e Réveillon, quando o estrangeiro não vem tanto, mas, a partir da segunda quinzena de janeiro e fevereiro, se depender apenas dos brasileiros, há uma queda expressiva no movimento e o público do Mercosul viaja bastante nesse período e mantém uma ocupação mais constante”, comenta Oliveira.
Ainda conforme Oliveira, dono de hotéis em Ponta das Canas e Ingleses, Norte da Ilha, janeiro e fevereiro foram muito bons em termos de ocupação e a expectativa para março também é boa, por causa dos estrangeiros, incluindo argentinos, uruguaios e até paraguaios.
“Tem a semana dos uruguaios, na Páscoa, que eles chamam de semana do turismo, e é uma semana inteira de férias. Diferentemente do brasileiro, que viaja só perto do feriado, o uruguaio sai no final de semana anterior, a partir de 1º de abril e fica até o dia 9. Para nós é bom, porque vendemos uma semana inteira para eles”, frisa.
Para ele, os números não foram ainda melhores por causa do clima em dezembro de 2022, que atrapalhou as vendas e impactou Natal e Réveillon. De qualquer forma, a temporada atual está tão boa que Oliveira não acredita em crescimento para o ano que vem.