Voto secreto, aumento maior e acordos: os bastidores da votação do pacotaço em SC

Em sessões extraordinárias, fechando o ano Legislativo, parlamentares aprovaram propostas com impacto bilionário para o Estado; orçamento do governo para 2022 também foi aprovado

Nícolas Horácio Florianópolis

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Os deputados estaduais aprovaram 22 projetos do chamado pacotaço, em Plenário, nesta terça-feira, 21, na Alesc (Assembleia Legislativa de Santa Catarina). Os 40 deputados compareceram à votação de matérias de autoria principalmente do Governo do Estado. A primeira sessão começou às 14h15, a última acabou às 21h05. Na imensa maioria, os PLCs (Projetos de Lei Complementar) do “pacotaço” foram aprovados com mais de 30 votos favoráveis.

painel de uma das votações do pacotaçoPLC 33.5 foi um dos poucos que não recebeu 30 votos, mas foi aprovado com maioria confortável e cria Secretaria-Geral de Governo – Foto: Rodolfo Espínola/Agência AL/ND

Estavam previstas votações em primeiro e segundo turno, mas o deputado Kennedy Nunes (PTB), antes do início da votação em segundo turno, sugeriu que esta votação fosse idêntica à primeira. A proposta foi aprovada, encerrando a votação mais cedo.

Os PLCs precisavam de maioria absoluta – 21 dos 40 deputados – para aprovação. Os PLs (Projetos de Lei) necessitavam de maioria simples – metade mais um dos presentes.

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A votação dos PLCs foi nominal, conforme regimento da Alesc. Os PLs, por sua vez, foram aprovados em votação simbólica, sendo aprovados por maioria sem a exposição de voto por deputado.

Votação secreta

No início da sessão, a primeira polêmica: o deputado Marcos Vieira (PSDB) requereu que a votação não fosse realizada pelo painel e para que os votos fossem colhidos com sinalização manual. A iniciativa foi rechaçada pelos deputados Bruno Souza (Novo) e Sargento Lima (PL). Eles entenderam como uma tentativa de tornar a votação secreta.

Ao ND, Vieira negou isso e explicou: “Existem duas modalidades de voto, no painel, ou o deputado dizendo que vota sim, ou contra. O objetivo era dar rapidez, mas o presidente não aceitou”, afirmou Vieira.

Marcos Vieira queria votar pacotaço sinalizando com as mãosVieira protagonizou a primeira polêmica do dia de votações – Foto: Jeferson Baldo/Agência AL/ND

Sobre seu voto favorável nas matérias, Vieira transferiu a responsabilidade para a Secretaria da Fazenda: “Se o secretário Paulo Eli assinou um documento determinando que as finanças do Estado estão aptas a receber essa carga de aumento, sou obrigado a acreditar”, declarou Vieira.

Governo apresentou planilha a comissão de sete deputados

O deputado Milton Hobus (PSD) disse que, embora discorde dos aumentos, votaria favorável às propostas. Ele criticou o fato de cada categoria ter um projeto específico e que o funcionalismo deveria ser visto no todo.

“A bancada do PSD queria que fosse dado o repasse da inflação para todos, o que já seria um grande aumento. O governo errou a mão”, defendeu Hobus. O parlamentar também disse que não é papel dos deputados definir, ou tirar aumento do funcionalismo.

Segundo Hobus, o Governo apresentou uma planilha para um grupo de sete deputados, cumprindo os quesitos da Lei de Responsabilidade Fiscal, e mostrando que os aumentos não comprometem o Estado. “Na minha opinião, teremos problema daqui dois, ou três anos, em função dos aumentos diferenciados para todos os setores e o aumento de ganho real, que não é momento”.

Hobus tentou tirar a responsabilidade do Pacotaço dos deputados. “Assumimos o compromisso de não tirar aumento que o governo dá aos funcionários, mas o governo é responsável por isso. Estamos homologando algo que é responsabilidade exclusiva do Executivo”, pontuou.

Hobus votou com o governo, mas acredita em problemas nos próximos dois, ou três anos por causa dos aumentos diferenciados – Foto: Jeferson Baldo/Agência AL/NDHobus votou com o governo, mas acredita em problemas nos próximos dois, ou três anos por causa dos aumentos diferenciados – Foto: Jeferson Baldo/Agência AL/ND

Ainda conforme Hobus, o governo queria que algumas matérias fossem votadas em junho, mas os deputados preferiram votar somente quando todos os projetos chegassem e o impacto financeiro fosse apresentado.

Sete parlamentares formaram uma comissão e ouviram, dos secretários de governo, área por área, o impacto financeiro do pacotaço. Foi quando os parlamentares souberam que o impacto financeiro dos projetos totaliza R$ 2,7 bi por ano.

Galerias cheias e manifestações dos não contemplados

Representantes de diversas categorias do funcionalismo público compareceram à votação, alguns pressionando os parlamentares a apresentar emendas. Segundo André Crema, da FCC (Fundação Catarinense de Cultura), o grupo dele estava insatisfeito principalmente com o PL 460.3, que cria a gratificação de atividade técnica, porém, sem abranger, por exemplo, servidores da FCC, Fesporte e Educação Especial.

“Os que foram mais privilegiados já tinham salário acima de outros servidores do Executivo com a mesma formação. A proposta em vez de aproximar essa diferença, aumentou”, disse. Ainda segundo Crema, servidores de nível básico de áreas, como Secretaria de Administração, Iprev e IMA-SC, ganham muito mais do que servidores com nível superior lotados na FCC.

Ministério Público

Os três projetos de autoria do MPSC (Ministério Público de Santa Catarina) foram aprovados. O presidente da Associação Catarinense do Ministério Público, Marcelo Gomes Silva, disse que o PLC 22.2, por exemplo, foi uma adequação nas comarcas. “Tínhamos comarcas com promotorias a mais e outras a menos. Um dos projetos foi o ajuste para atender a comunidade naquilo que precisamos”, argumentou Silva.

Questionado sobre a elevação dos gastos públicos em benefício de carreiras valorizadas, como a dos membros do MP, Silva disse que é preciso preencher promotorias vagas.

“Se não incentivarmos um promotor a responder por mais de uma promotoria, ela ficaria vaga e haveria um prejuízo gigantesco para a comunidade daquela comarca. Essa reformulação foi para isso incentivar os colegas a trabalharem o dobro”, ponderou Silva.

Criação da Secretaria-Geral de governo

Um dos projetos mais debatidos durante a votação e um dos mais criticados pelos deputados independentes é o PLC 33.5. Entre diversas mudanças, ele cria a Secretaria-Geral de governo.

Questionado sobre a necessidade dessa nova secretaria, o deputado Volnei Weber (MDB) disse que é favorável. Segundo ele, no início do governo, houve uma grande reforma administrativa eliminando cargos.

“Nesse momento, ele [o governo] está pedindo uma nova secretaria e 90 cargos comissionados e ele tem liberdade de fazer as nomeações”, ressaltou Weber.

“Nessa empresa gigante que é o Estado de Santa Catarina, se o governador não tem liberdade de ter 90 cargos à sua disposição, acho que não merece nem estar conduzindo essa grande empresa”, defendeu Weber.

Questionado se era contrário a algum projeto, o parlamentar disse que não necessariamente: “Alguns [deputados] estão dizendo que foi no afogadilho, mas são projetos em discussão há oito meses. Como está acabando o ano, ou faz agora ou não tem mais”, argumentou o emedebista.

Carminatti propôs aumento maior para servidores da Udesc

A servidora da Udesc Heloise Guesser, coordenadora do Sintudesc (Sindicato dos Técnicos da Udesc), disse que o PLC 29.9, que concede reajuste aos servidores da universidade, não se trata de um aumento.

“A Udesc tem orçamento próprio, tem duodécimo e o projeto não representa impacto para o Estado. Queremos a aprovação do que foi aprovado no Conselho Universitário, a recomposição salarial de 23,76%” disse a servidora. Segundo ela, a classe está desde 2016 sem receber reajuste e os 23% seriam até 2020, não incluindo a recomposição de 2021.

A deputada Luciane Carminatti (PT) tentou atender às demandas dos servidores da Udesc por meio de emenda, mas a proposta foi rejeitada. No PLC 29.9, a proposta de reajuste do governo é de 19%. Este foi o valor aprovado pela Alesc.

Votação da LOA foi antecipada

Depois de um acordo de líderes, os deputados resolveram antecipar a votação da LOA (Lei Orçamentária Anual). A votação estava prevista para a manhã de quarta-feira, 22.

Acompanhando a votação do pacotaço, o secretário da Casa Civil, Eron Giordani informou que o governo apresentou em torno de 32 bi de receita corrente líquida e orçamento total de R$ 40 bi.

Votação do pacotaço acabou as 21h05Plenário realizou em sete horas, a votação que aprovou pacotaço; foi o último dia de atividades do ano Legislativo em 2021 – Foto: Rodolfo Espínola/Agência AL/ND

“Houveram ajustes de valores internos, de projetos que estão sendo priorizados pela comissão que analisou, com destaque para as emendas que vão garantir cirurgias eletivas, que o estado quer fazer um mutirão em 2022; a manutenção dos programas de combate a estiagem na agricultura e uma garantia de somar o que não foi executado em 2021 ao que está disponibilizado para 2022 em investimento na infraestrutura“, informou Giordani.

De acordo com o secretário, os investimentos em infra devem chegar a R$ 1.8 bi em 2022. Antes da votação, o secretário já estava confiante sobre a aprovação da LOA, em função do acordo entre bancadas.

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