Se aproximar da sociedade, proteção ao patrimônio público, preocupação com a reformulação de currículos e novos projetos políticos pedagógicos de cada curso da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), diminuir a evasão de alunos e ocupar as vagas ociosas e discutir as festas dentro do campus em Florianópolis.
Irineu Manoel de Souza foi entrevistado no programa Conexão, apresentado pelo jornalista Moacir Pereira – Foto: Leo Munhoz/NDEstes foram alguns dos assuntos discutidos pelo novo reitor da instituição, Irineu Manoel de Souza, em entrevista ao jornalista Moacir Pereira, no programa Conexão ND, exibido nesta segunda-feira (11) na Record News. Irineu foi empossado na sexta-feira (08), ao lado da vice-reitora Joana Célia dos Passos.
A posse do professor Irineu Manoel de Souza é continuidade da gestão anterior ou o senhor venceu em projeto de renovação?
SeguirÉ um projeto de uma visão diferente da gestão de uma universidade. A universidade precisa ter uma gestão muito especial considerando as suas diversas áreas de conhecimento, pode ser uma gestão padronizada, digamos assim.
E também precisa ser uma gestão participativa, que considere as dimensões humanas, as dimensões acadêmicas, as dimensões política e social. Essas dimensões, na verdade, são necessárias para a gestão de uma universidade.
A nossa proposta é exatamente aproximar um pouco mais a universidade da sociedade, ela está muito distante da sociedade. Também a preocupação, naturalmente, com a proteção do patrimônio público, com uma reformulação de currículos, os projetos políticos pedagógicos de cada curso, precisam ser discutidos.
A reitoria precisa dar um apoio para os cursos, os cursos precisam sentir da reitoria esse apoio no sentido de rediscutir, de trazer também os órgãos de classe a universidade, a comunidade.
O senhor tem consciência plena de que a universidade estava exageradamente isolada durante os últimos anos?
Irineu Manoel de Souza, novo reitor da UFSC falou sobre metas de sua gestão – Foto: Leo Munhoz/NDA universidade ficou bastante isolada da comunidade. Isso foi ruim para a universidade, na medida em que ela fica isolada, a comunidade desconhece a universidade e esse desconhecimento gera problemas e, naturalmente, dificulta até o próprio desenvolvimento e a própria gestão da universidade.
Quais seriam os projetos prioritários da sua gestão?
Além do projeto, que é muito importante, da aproximação com a sociedade, nós temos uma preocupação grande também com a evasão. Por exemplo, tivemos um vestibular no domingo, porque esse vestibular de inverno da Universidade Federal de Santa Catarina não tinha.
Mas por que teria agora? Em função de vagas sobrando, muitas vagas sobrando do vestibular. É comum ter vagas de transferência no decorrer do curso, isso era comum acontecer. Mas agora nós temos vagas sobrando no vestibular, em torno de 700 vagas.
Então, foi feito o vestibular especial exatamente para preencher essas vagas. A universidade também divulgou na semana passada o número de vagas que estão sobrando de maneira geral para transferências externas e qualquer interessado, seja de universidade pública ou privada e retorno de graduados ou pessoas que abandonaram, e estão querendo voltar.
São 5,3 mil vagas. E nós temos quase certeza que essas vagas não serão preenchidas. Essas vagas também não foram muito divulgadas, então nós pretendemos pegar essa quantidade de vagas e divulgar nas escolas, nas universidades, toda a sociedade catarinense e até nacionalmente para que as vagas sejam preenchidas.
Uma das nossas preocupações é exatamente ocupar as vagas ociosas na universidade.
O ND publicou, inclusive, a relação de vagas e de candidatos e há inúmeros cursos na UFSC que têm muito mais vagas do que candidatos. Esses cursos não estão inviabilizados economicamente?
Durante a pandemia, os estudantes foram para a casa dos pais, para suas residências em outros municípios, outros Estados, e muitos deles não voltaram porque conseguiram um emprego, também conseguiram fazer outros cursos em outros Estados, outros municípios.
Reitor da UFSC, Irineu Manoel de Souza, no programa Conexão – Foto: Leo Munhoz/NDA pandemia é um fenômeno que merece um estudo mais aprofundado exatamente para verificar porque temos tantas desistências e como reduziu também a procura pelas universidades.
Então a universidade precisa fazer um esforço, inclusive estamos criando uma secretaria de comunicação da universidade para fazer essa comunicação com os órgãos de imprensa, com os setores da sociedade pra divulgar melhor a universidade. Divulgar o potencial da universidade.
Por exemplo, hoje nós temos vagas sobrando lá em todas as áreas. Mesmo não falando de curso, mas vagas em disciplinas e, por exemplo, alguém que trabalha num posto de saúde pode ir lá cursar uma disciplina de saúde pública gratuitamente. Alguém que não tenha estudado, por exemplo, não precisa ter uma determinada graduação.
Como a UFSC se fechou, a comunidade não sabe disso.
Novo reitor da UFSC concedeu entrevista ao jornalista Moacir Pereira – Foto: Leo Munhoz/NDEsse é um trabalho que daria para fazer também. É um trabalho de formação e de capacitação praticamente gratuito para toda a sociedade.
Olha, poderia ter algumas orientações de quais matérias fazer, vou estudar uma disciplina de direito, uma disciplina de gestão ambiental, de gestão de saúde pública, isso a universidade tem disponível.
Nesse contexto, nós temos muitas vagas sobrando. São vagas isoladas em disciplinas que também é possível, só que a sociedade não sabe.
Alguns cursos também estão precisando de uma atualização dos currículos para exatamente formarem melhores profissionais?
Tem currículos ali de 10, 20 anos que não foram alterados. Nós pretendemos dar um apoio aos cursos que querem iniciar já rapidamente essas modificações, essas reestruturações. E agora nós temos uma nova política nacional, que é curricularização da extensão.
Significa que todos os cursos precisam ter pelo menos 10% da carga horária de extensão. Então faz um projeto com a comunidade e aquilo vale como carga horária.
Quando o senhor iniciou a carreira, a UFSC tinha uma ativíssima presença em área de arte e cultura, isso tudo desapareceu nos últimos anos. Não está na hora de voltar?
Novo reitor da UFSC, Irineu Manoel de Souza, foi entrevistado no programa Conexão da Record News – Foto: Leo Munhoz/NDSim, nós estamos reforçando, fortalecendo a nossa secretaria de cultura e arte, inclusive incluindo, o esporte, para exatamente usar de uma maneira mais saudável em todo canto da universidade e ter mais eventos esportivos, culturais.
Já tivemos aqui grandes eventos e ultimamente nós ficamos muito limitados a congressos (muitas vezes internamente). Então tem uma disposição nossa de abrir a questão cultural para valorizar exatamente esse patrimônio da Universidade Federal de Santa Catarina para a sociedade poder utilizar.
Nos últimos anos tem sido muito criticado o uso do ambiente universitário para festas dos diretórios acadêmicos, inclusive com consequências até desastrosas para a própria UFSC, com a deterioração de suas instalações. Vai haver alguma mudança nesse processo?
Esse é o maior desafio nosso. Esse foi o motivo pelo qual nós estamos mantendo toda a segurança do campus. Pretendemos envolver os estudantes com o pessoal da segurança. Já estamos convidando o DCE (Diretório Central dos Estudantes), as lideranças estudantis para discutir com a segurança do campus.
Ter uma discussão importante mostrando a necessidade de mantermos esse patrimônio público que nós temos, valorizar e cuidar. Precisamos envolver os estudantes nesse grande desafio. As festas que ocorrem não são estudantes da universidade que fazem, a maioria são de pessoas de fora.
Então também existe uma preocupação nossa de conversar com a prefeitura, com o governo do Estado para que a cidade tenha mais espaço de cultura e lazer. Hoje nós não temos esse espaço que foi saindo do acesso dos jovens, então a juventude não tem muitos espaços para fazerem suas festas.
O Hospital Universitário está precisando de limpeza, de humanização, de pintura. Quais são as prioridades?
Nós estamos preocupados também com a demissão de médicos. Temos muitos médicos pedindo demissão em função das condições de trabalho.
Irineu Manoel de Souza foi empossado na sexta-feira (08) – Foto: Leo Munhoz/NDTemos médicos que são servidores públicos federais e temos médicos contratados pela EBSERH (Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares) – responsável pela gestão do hospital – então as condições de trabalho, a situação da própria conjuntura da gestão atual, não tem sido atrativa para as pessoas estarem ali salvando vidas.
Precisamos de um apoio, pretendemos fazer um trabalho também em parceria com a EBSERH, pretendemos criar essa abertura para conversas e para pensar numa gestão diferenciada. Uma convergência dessas ações para melhorar a gestão do Hospital Universitário.
Os cortes orçamentários são de muita preocupação ou o valor é pequeno?
A universidade, ao longo dos anos, vem sofrendo esses cortes. É um motivo de preocupação porque se perdurar esse corte a universidade não consegue ficar até dezembro funcionando com toda a estrutura, restaurante universitário, segurança.
Nós estamos fazendo duas frentes de trabalho. Uma é com o Congresso Nacional, a partir da bancada catarinense, que temos uma boa conversa já.
Depois temos que levar essa discussão para Brasília, para os deputados federais, senadores, porque o que precisa existir é uma alteração do Orçamento da União para incluir esse recurso que foi cortado.
Esse recurso que foi cortado realmente atingiria toda essa questão da permanência na universidade, bolsas, restaurante e é uma situação bem grave.
No primeiro momento nós vamos tentar fazer uma adequação enquanto estamos discutindo em Brasília, uma adequação cortando outras questões não tão essenciais.
O senhor conhece bem a composição do núcleo acadêmico, a gente observa que tem muita gente rica, não está na hora de mudar um pouco esse critério, quer dizer, quem tiver condições paga?
Reitor da UFSC, Irineu Manoel de Souza – Foto: Leo Munhoz/NDSó que atualmente esse quadro mudou bastante. Então, por exemplo, o restaurante universitário hoje as filas são enormes, cada vez mais tem estudantes com baixa renda na universidade.
Cobrar sempre vem essa discussão. Já tem estudo mostrando que não resolveria o problema da universidade, que a universidade teria que realmente como instituição pública, teria que ser valorizada para produzir ciência, tecnologia, atender a sociedade, o que nós precisamos é utilizar melhor o potencial da universidade.
Nós temos que utilizar melhor esse potencial pra trazer a sociedade para a universidade, para dar uma resposta para sociedade, mais curso, mais vagas, mais projetos de extensão, de pesquisa, a sociedade tem entender o que a universidade faz.
A universidade também não tem sido muito competente de mostrar o que faz.