É bem verdade que o acesso à educação pública de qualidade é um direito de todos e deveria ser facilitado. Mas é sabendo das dificuldades que existem para vários jovens que a conquista de Ayla Marinho, de 17 anos, se torna ainda mais importante. Aluna de um cursinho popular de Joinville, no Norte de Santa Catarina, ela ficou em terceiro lugar em Gestão Hospitalar no vestibular do IFSC (Instituto Federal de Santa Catarina).
Ayla foi aprovada em terceiro lugar no tecnólogo de Gestão Hospitalar do IFSC – Foto: Ayla Marinho/Arquivo pessoalNão foi fácil chegar a esse resultado. Vinda de Belém, no Pará, a família de Ayla é mais uma das centenas que migrou do Norte para o Sul do país em busca de oportunidades de emprego e qualidade de vida. Foi para isso que pai, mãe e os três filhos vieram para Joinville.
A chegada à cidade no meio do ano letivo em 2021, porém, acabou sendo desafiadora para os estudos de Ayla no segundo ano do ensino médio, assim como a própria adaptação à nova rotina. “Quando conseguimos nos estabilizar em uma casa alugada, com as coisas mais básicas dentro de casa, a gente conseguiu um emprego”, conta.
SeguirA primeira empresa em que trabalhou, contudo, declarou falência e fechou as portas sem pagar os direitos da adolescente. Já na segunda experiência, ela conquistou um trabalho como jovem aprendiz em meio período, o que permitia conciliar trabalho e estudos.
O único problema é que ela mora no extremo Sul da cidade, enquanto o emprego fica na zona Norte. Assim, precisava pegar três ônibus para ir e quatro para voltar, uma rotina comum a muitos trabalhadores de Joinville, que fazem o mesmo caminho todos os dias.
“Era muito cansativo, mas muito gratificante ajudar em casa e começar a minha vida profissional”, destaca. Conversando com a mãe, uma grande incentivadora dos estudos de Ayla, ela decidiu prestar o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) para entrar na universidade. E diante da dificuldade em organizar uma rotina de estudos no pouco tempo livre, queria entrar em um cursinho para se preparar para as provas.
Ayla e o cursinho popular
Ayla achou perfeito quando descobriu o Cursinho Inserção pela internet. A iniciativa de cursinho preparatório para o Enem em Joinville oferece aulas aos sábados, gratuitamente, o que não demandaria investimento, como em cursos particulares, e ainda se encaixaria na rotina da adolescente.
O problema é que o cursinho era restrito aos alunos da Escola de Educação Básica Doutor Paulo Medeiros, que fica no bairro Adhemar Garcia, na zona Sul da cidade. Mas como o não todo mundo já tem, Ayla insistiu tanto para entrar que acabou sendo aceita – e ninguém se arrependeria dessa insistência.
“Fiquei esperando até que um dia me comunicaram que eu poderia entrar e fiquei muito feliz, até chorei”, relembra. Ayla começou as aulas e, segundo ela, “estava tudo dando certo” quando precisou sair do trabalho como jovem aprendiz para não largar os estudos.
“Meu contrato acabou e a empresa queria me contratar, mas das 8 às 18h, e eu não conseguiria chegar no colégio. Conversei com minha mãe e ela disse ‘não quero que você abra mão do estudo porque é o estudo que vai levar você para frente'”, diz Ayla. Muito unidas, ela aceitou o conselho da mãe e não entrou para a grave estatística da evasão escolar.
O problema é que, sem emprego e sem renda, o dinheiro apertou. “Senti um baque porque o passe de ônibus eu ganhava do meu trabalho”, conta. Sem dinheiro para a tarifa, que atualmente custa R$ 5,25, ela deixou o cursinho. “A gente não estava bem de situação financeira, então parei”.
Depois de algum tempo sem ir ao projeto, Ayla encontrou uma das coordenadoras da iniciativa na escola em que estudava. “Eu expliquei que estava encontrando dificuldade para pagar o passe. Ela compreendeu e na mesma hora falou para eu não deixar de ir, que se o problema era passe eles iriam resolver”. E resolveram.
Cursinho Popular Inserção oferece aulas na zona Sul de Joinville – Foto: Cursinho Inserção/DivulgaçãoCom a ajuda financeira, Ayla voltou às aulas e se preparava para o Enem quando descobriu que não conseguiria prestar a prova por um problema no cadastro. “Fiquei triste porque senti que estava decepcionando todo mundo que me ajudou”, lamenta.
Mas se essa porta se fechou, outra se abriu quando ela soube que as inscrições para o vestibular do IFSC estavam abertas. Ela se inscreveu e, depois de muito estudo e superação, conquistou o resultado que deixou família e professores orgulhosos.
“Fiquei numa felicidade que não cabia em mim, com tanta gratidão a Deus, ao pessoal do cursinho, aos meus pais que são incríveis. Se cada pessoa tivesse pais como os meus, o mundo seria um lugar melhor. Toda a minha família sempre me ajudando muito, foi assim que consegui passar”, comemora. Um vídeo mostra o momento da aprovação:
Risos e lágrimas se misturaram quando Ayla soube da aprovação – Vídeo: Ayla Marinho/Arquivo pessoal
A importância do cursinho para Ayla e outros jovens
A coordenadora do cursinho que encontrou Ayla na escola e possibilitou a volta da estudante ao projeto é a advogada e professora Cássia Sant’Anna. Ela conta que a ideia da iniciativa surgiu ainda em 2017, com o publicitário Felipe Cardoso e o professor Guilherme Moraes. Contudo, foi viabilizada de fato em 2021, com o início das aulas em março deste ano.
O cursinho, que é totalmente gratuito, funciona em uma escola no Adhemar Garcia, mas que recebe alunos de diversos bairros da região Sul de Joinville. Hoje, são oito pessoas na coordenação e 25 professores, todos voluntários nas aulas que acontecem aos sábados pela manhã para cerca de 40 alunos.
A proposta do cursinho é funcionar como uma revisão de conteúdo do que já é estudado na escola regular como forma de preparação para o Enem. No entanto, muitos alunos acessaram alguns temas de estudo pela primeira vez na iniciativa.
“A gente encontrou muitas dificuldades, como o primeiro contato do aluno com a matéria. Acredito que isso também seja decorrente da pandemia do coronavírus, mas havia muita matéria com a qual o aluno teve o primeiro contato no cursinho”, explica Cássia.
Equipe conta com 25 professores voluntários – Foto: Cursinho Inserção/DivulgaçãoAs dificuldades financeiras das famílias dos alunos, que moram na região periférica, foi outro desafio e exigiu um olhar voltado não só à sala de aula, mas também para fora dela, com doação de cestas básicas às famílias e outros apoios. O objetivo era evitar a evasão escolar, que por pouco não atingiu Ayla.
A jovem, aliás, foi a primeira aprovada no cursinho, já que os outros alunos ainda aguardam os resultados do Enem. “Ela sempre foi muito dedicada. Mora muito longe do local do cursinho, sofre uma série de dificuldades, mas a gente sabia o quanto isso era importante para ela, determinante para a família, e ficamos muito felizes”, celebra Cássia.
Para ela, conquistas como a de Ayla dão sentido à iniciativa. “Saber que o nosso cursinho popular possibilita que alunos da escola pública marginalizados e periféricos ocupem esses lugares nos deixa muito felizes. O cursinho deu a oportunidade e Ayla agarrou com unhas e dentes”, fala a coordenadora.
Iniciativa gratuita prepara alunos para o Enem – Foto: Cursinho Inserção/DivulgaçãoO objetivo é fazer com que outros jovens tenham a mesma oportunidade. “Muitos não sabiam o que significava o Enem no início. Então, são novos horizontes para a emancipação de todo mundo, para chegar ao mínimo de dignidade, mostrar que aquele lugar também é deles”, enfatiza.
Ayla sabe disso na prática. “Através da educação a gente consegue mudar o mundo e o pessoal do cursinho mudou o meu”, agradece. E não pense que o curso no IFSC é o fim dos estudos. Após terminar o tecnólogo, ela planeja começar o curso de Medicina na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Se depender da própria força de vontade, ninguém duvida que se tornará médica.