Após 4 horas de reunião, Conselho da UFSC adia decisão sobre mudança do nome do campus Trindade

Comissão da Verdade da UFSC apontou, em relatório, que o ex-reitor João David Ferreira Lima teria colaborado com a ditadura militar na década de 1960; ele dá nome ao campus em Florianópolis

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Geovani Martins Florianópolis

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Campus Trindade, o principal da UFSC, leva o nome de João David Ferreira Lima, ex-reitor acusado de colaborar com a ditadura militar - Foto: Reprodução/NDCampus Trindade, o principal da UFSC, leva o nome de João David Ferreira Lima, ex-reitor acusado de colaborar com a ditadura militar – Foto: Reprodução/ND

Na tarde desta terça-feira (29), o auditório da reitoria da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) foi palco de mais de quatro horas de longas discussões sobre o nome do campus Trindade, em Florianópolis, que homenageia o ex-reitor João David Ferreira Lima. Na reunião do Conselho Universitário, não houve consenso entre os que apoiam a mudança de nome e os que defendem a manutenção.

A reunião iniciou por volta das 14h e, às 18h33, o reitor Irineu Manoel de Souza declarou a sessão encerrada, seguindo pedidos de conselheiros. O assunto continuará a ser debatido e deve ser votado na próxima terça-feira (6), também às 14h, em sessão extraordinária.

Três pessoas ainda estavam inscritas, entre elas um familiar do ex-reitor, que farão suas falas na próxima sessão.

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Mudança no nome do campus Trindade começou a ser discutida em 2018 após relatório da Comissão da Verdade

As discussões sobre o assunto começaram após a Comissão da Memória e Verdade da UFSC apontar, em 2018, que João David Ferreira Lima – primeiro reitor da universidade, cujo mandato foi de 1962 e 1972 – teria colaborado com a ditadura militar, denunciando e perseguindo estudantes, professores e servidores que se opunham ao governo da época.

Após apresentar do relatório, a Comissão sugeriu que o nome do ex-reitor fosse retirado de quaisquer homenagens feitas pela UFSC, incluindo o nome do campus Trindade e a estátua presente na Praça da Cidadania, em frente à reitoria.

Em 2022, a advogada da família do ex-reitor, Heloisa Blasi Rodrigues, entrou com um pedido de contestação das medidas sugeridas e, em 2023, foi criada uma comissão dentro do CUn (Conselho Universitário) responsável por avaliar os encaminhamentos.

Nesta quinta, o resultado do trabalho desta comissão foi colocado em discussão, a partir do parecer elaborado pelo professor da UFSC e relator do processo, Ubirajara Franco Moreno.

João David Ferreira Lima, que dá nome ao Campus Trindade, foi reitor da UFSC por dez anos - Foto: UFSC/Reprodução/NDJoão David Ferreira Lima, que dá nome ao campus Trindade, foi reitor da UFSC por dez anos – Foto: UFSC/Reprodução/ND

Reunião do Conselho Universitário durou mais de quatro horas, mas terminou sem definição sobre o nome do campus Trindade

A sessão teve seu início atrasado por conta de uma manifestação de estudantes, que pediam que a reunião fosse aberta. Inicialmente, ela seria feita apenas entre os conselheiros, dentro da sala do CUn (Conselho Universitário).

Auditório da reitoria da UFSC, no campus Trindade, esteve lotado para presenciar a sessão – Foto: Stefani Ceolla/NDAuditório da reitoria da UFSC, no campus Trindade, esteve lotado para presenciar a sessão – Foto: Stefani Ceolla/ND

Após a manifestação, os conselheiros votaram para abrir a sessão, transferindo os trabalhos para o auditório da reitoria, que ficou lotado, incluindo estudantes com placas contendo fotos de pessoas perseguidas durante a ditadura militar.

Em seu parecer, Moreno se manifestou contrário ao pedido de impugnação do relatório, feito por Rodrigues, considerando que o material possui caráter histórico e memorialístico, e não há embasamento quanto ao mérito da solicitação.

O relator considerou, porém, que o CUn não possui uma legislação específica para mudança de nome de campi e se crie um dispositivo jurídico para realizar a revogação do nome atual do campus Trindade.

A advogada da família Ferreira Lima se pronunciou durante a sessão e questionou a legalidade dos processos que, segundo ela, aconteceram sem respeitar princípios da defesa ampla. Ela repetiu os argumentos apresentados no pedido de impugnação feito em 2022, questionando a composição da comissão contar com integrantes que não são conselheiros e a participação de membros que também fizeram parte da Comissão Memória e Verdade.

Rodrigues também ressaltou que o trabalho realizado pela Comissão Memória e Verdade apresentou uma visão enviesada e unilateral dos fatos, privilegiando determinados relatos e ignorando outros. A família do ex-reitor entende que o objetivo seria apagar a memória do ex-reitor no processo de criação da UFSC.

Sessão irá continuar na próxima semana

Com as discussões durando a tarde inteira, os conselheiros entenderam que não haveria uma decisão a ser tomada nesta sessão. Ainda, apontaram para trechos do parecer de Moreno a serem revisados.

O relator afirmou que fará alterações no parecer, que serão discutidas na próxima reunião, que também ocorrerá no campus Trindade. O local específico ainda não foi confirmado.