ChatGPT: o que esperar dos chatbots na educação?

Responsável por criar textos e respostas complexas, saiba como o ChatGPT pode impactar no ensino e aprendizagem

Ana Caroline Arjonas e Letícia Martendal Florianópolis

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Pensar nos próximos anos sem levar em consideração as evoluções que devem surgir é quase impossível. Diante de uma sociedade que está acostumada a trocar ferramentas, aparelhos e informações, o futuro é conectado, seja no mundo real ou nos tantos outros que estão sendo criados, como o multiverso. Prova disso é o ChatGPT – mecanismo que promete modificar a produção e construção de textos.

O ChatGPT é uma ferramenta que usa a interação com o usuário para ampliar o banco de informaçõesO ChatGPT é uma ferramenta que usa a interação com o usuário para ampliar o banco de informações – Foto: iStock/Divulgação/ND

Por mais que a solução tenha sido criada em novembro de 2022, os debates e discussões sobre o assunto estão surtindo efeito em 2023. Seja pelo medo da transformação no mercado de trabalho ou nos impactados na educação, a verdade é que a inteligência artificial já está entre nós há muito tempo — agora é preciso conciliar o real e o virtual!

O que é ChatGPT?

Você já pensou como seria criar uma redação em poucos minutos ou ter uma resposta completa sobre determinado assunto apenas com uma pergunta?

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Feito a partir da inteligência artificial, o ChatGPT foi criado para facilitar as tarefas, sendo capaz de criar uma conversa com o usuário. A formulação das frases é feita com o auxílio de um banco de linguagens e dados, construindo e entregando algo que ainda não é ofertado por outras plataformas: uma resposta extensa e explicativa, com interações diferentes para cada internauta.

O fato de manter a comunicação com o usuário avaliando a questão que está sendo feita é o diferencial. Enquanto os outros chatbots são programados para responder automaticamente,  o ChatGPT armazena a intensão de busca, oferecendo mais do que a resposta objetiva.

“Isso faz com que o ChatGPT entenda perguntas complexas e gere respostas em uma linguagem muito fluida e natural para nós. O que é diferente das ferramentas de busca atuais, que geram listas de links e pequenos resumos. Mesmo os assistentes atuais, como a Alexa e a Siri, tem modelos de linguagem ainda muito limitados”, opina o professor da CESAR School, João Magalhães.

ChatGPT e o futuro da educação

Se a inovação será capaz de mudar o mercado de trabalho e outras tarefas da rotina, a educação seguirá o mesmo caminho. Isso porque agora os alunos conseguem obter resultados quase que completos para os temas debatidos em sala de aula. Mas como o uso do ChatGPT pode contribuir com o aprendizado?

É fato que professores e estudantes estão acostumados a buscar na internet a solução para alguns dilemas, mas contar com feedbacks mais complexos precisa acender um alerta: os plágios e cópias indiscriminadas.

“Estamos engatinhando no que diz respeito ao uso das tecnologias digitais. Quando pensamos no papel da escola enquanto formadora de cidadãos aptos para inteligar com o mundo no qual estão inseridos, temos que falar também em formá-los para utilizarem as ferramentas digitais”, opina a professora integradora de mídias e metodologias (PIMM) da rede municipal de Joinville, Monica Asquino.

A educadora trabalha com ferramentas digitais no ensino, incluindo um trabalho sobre chatbots que desenvolveu em 2017 com a terceira série do Ensino Médio. O foco era ensinar sobre programação. E mesmo que a inovação tenha chegado para mudar o aprendizado e a comunicação, a profissional enxerga a importância de avaliar as informações.

“Mesmo o ChatGPT prometendo ter ‘todas as respostas’, precisamos ser críticos em relação ao que recebemos. Por isso que eu acho que hoje só o conhecimento não é suficiente. É necessário saber o que fazer com ele, ou seja, devemos sair da posição de consumidores para a posição de ‘prossumidores’: aprender, produzir e divulgar.”

A professora integradora de mídias e metodologias (PIM) Katia Monica Verdim Eggert, da Rede Municipal de Joinville, também trás para dentro da escola as novas tecnologias. Com o sexto ano do Ensino Fundamental, o chatbot foi uma forma de trabalhar o pensamento computacional. Para ela, o foco é o mesmo de Monica: checagem dos dados.

“Pensando que a ferramenta pode dar respostas aos alunos e que muitas vezes essas respostas podem estar erradas, até pela falta de alguém para verificar a veracidade das informações inseridas nela, penso que pode ser mais um problema que uma solução”, declara Katia.

É fato que o uso ainda deve ser avaliado, levando em consideração alguns limites e qual será a política adotada nas escolas. O primeiro passo está na relação com o digital, possibilitando que a turma aprenda com a ferramenta sem ser refém da tecnologia. O pensar precisa ser exercitado.

“A ferramenta pode fazer parte do letramento digital do estudante. Compreender como funciona, aprender a utilizar e entender que nem sempre ela será a ferramenta mais viável faz parte do processo”, afirma a professora Katia.

Se o cenário atual apresenta opções digitais, talvez o futuro amplie as possibilidades, com alternativas que podem incluir assistentes digitais de ensino e de estudo, pelo menos para o professor João Magalhães.

“Ferramentas como o ChatGPT exigem uma elevação no nível de ensino para um pensamento crítico mais apurado, visto que, virtualmente, todas as respostas de conhecimento existentes vão estar ao alcance dos alunos. Torna-se muito mais importante fazer as perguntas que levam ao descobrimento de novas informações e o olhar crítico de avaliação dessas respostas”, expõe o docente.

Chatbots: a ascensão da inteligência artificial

Quando pensamos na definição de chatbot, logo vem à mente aquele robô que é capaz de conversar com humanos. Criados para atender clientes e facilitar a comunicação na hora das compras pela internet, por exemplo, o retorno instantâneo é o resultado da inteligência artificial.

Mas desde quando a humanidade começou a pensar nessa tecnologia? Os primeiros estudos surgiram na década de 40, mas o mecanismo foi aprimorado nos últimos anos, com soluções específicas e algumas opções de chatbots. Confira:

Baseado em regras

O modelo costuma ser usado na triagem de atendimentos, já que as respostas são programadas e a ferramenta é capaz de atender determinadas demandas ou perguntas. Sem um vocabulário extenso, a programação pode ser focada em questionamentos simples, com feedbacks pautados em números.

Criado com a inteligência artificial

A opção conta com um diferencial: esse modelo permite que o chatbot possa aprender por meio da interação com os usuários, ampliando a coleta de referências e a performance — é como se o usuário fosse capaz de aprender com o robô e vice-versa.

Vantagens x desvantagens dos chatbots

É preciso estar atento, afinal, as novas ferramentas não possuem apenas pontos positivos. Assim como tudo na vida, o uso incorreto pode trazer malefícios.

Alguns dos aspectos positivos são que esse tipo de programa facilita atividades e melhora a comunicação entre empresas e clientes, identificando dúvidas. Entretanto, como o software é baseado em um banco de dados, oferece uma comunicação limitada e não é capaz de substituir um funcionário humano.

No caso do ChatGPT, como se trata de uma inteligência artificial com funções específicas e não de atendimento aos consumidores, possui benefícios e pontos negativos diferentes.

Apesar de ser uma automação de tarefas e ter uma maior produtividade — como na tradução de idiomas e na criação de longos textos —, as informações fornecidas pelo chatbot podem conter dados incorretos e tendenciosos.

Além disso, precisam de constante revisão para manter as pesquisas atualizadas, já que não possuem acesso às referências em tempo real.

ChatGTP pelo mundo: quais são as proibições e liberações em outros países?

Justamente pelos danos causados na educação, algumas instituições pelo mundo já vem proibindo o uso do chatbot. Estudantes e funcionários vinham usando a ferramenta para trapacear nos estudos e no trabalho.

Universidades na América do Norte e na Europa já se moveram para buscar soluções para combater o uso do software tal qual rever os métodos de ensino em sala de aula. A universidade francesa Sciences Po, uma das melhores do país, proibiu o uso dos chatbots baseados em inteligência artificial, evitando cópias e fraudes.

Já nos Estados Unidos, um professor da Universidade de Northern Michigan descobriu o uso da plataforma na construção de uma redação.

Ao analisar o ChatGTP, o docente mudou a abordagem, com mais trabalhos feitos em sala de aula e browsers que restringem o acesso ao chatbot. Outras instituições também estão priorizando atividades feitas à mão, reduzindo trabalhos em casa, além dos testes orais.

Fora das unidades de ensino, a Amazon alertou seus funcionários sobre a inteligência artificial, mas agora por outro motivo: o compartilhamento de informações confidenciais da empresa.

O que esperar dos chatbots no futuro?

Segundo artigo publicado pelo Centro de Pesquisa e Consultoria de Mercado Juniper Research, o número de aplicativos com o software saltará de 3.5 bilhões para 9.5 bilhões, de 2022 a 2026. A tendência é que mais empresas adotem o método e otimizem a comunicação com os clientes para marcar presença no mercado atual.

Muitos softwares são recentes e ainda estão em suas versões iniciais. As principais perspectivas das mudanças futuras são a personalização das interações — para diminuir a robotização e ampliar a humanização —; adotar o Processamento de Linguagem Natural (PLN) para aperfeiçoar a adaptação das respostas; expandir as funcionalidades e aumentar a precisão e rapidez das soluções.

O processo de atualização do ChatGPT já está em andamento. Em um anúncio divulgado no dia 30 de janeiro deste ano, a desenvolvedora do programa, OpenAI, assegurou que a nova versão deve cometer menos erros e analisar melhor questões matemáticas, além de identificar textos escritos por inteligências artificiais.

E já existem outras empresas que estão de olho na evolução do mercado. “É o caso do Google, com o lançamento do Bard, uma ferramenta similar ao ChatGPT com a promessa de consumir menos recursos computacionais. Quanto mais empresas de renome fizerem parte dessa corrida, mais rápido poderemos ver a evolução da chamada inteligência artificial generativa”, salienta o desenvolvedor de software e head do Lab 365 do Senai, Henrique Blanck.

Por mais que seja um desafio decretar qual será o futuro, uma coisa é certa: homens e máquinas estarão cada vez mais conectados. “Sempre que nós, humanos, consideramos o futuro da IA, essa pergunta aparece: os robôs vão roubar nosso emprego? A maioria dos especialistas concorda que os humanos ainda serão uma parte necessária da força de trabalho, pelo menos por muito tempo”, completa Henrique.

Presença garantida nas redes sociais

As inovações do ChatGPT também foram debatidas por influenciadoresAs inovações do ChatGPT também foram debatidas por influenciadores – Foto: divulgação/Instagram

A ferramenta também está causando discussões nas redes sociais. A influencer Camila Coutinho utilizou o Instagram para fazer uma reflexão das últimas notícias e conteúdos que despertaram a atenção dos internautas.

Temas como a série Black Mirror, a farofa da Gkay, o ChatGPT e as demissões em massa foram questionados pela famosa. O foco foi a evolução da tecnologia e como as ferramentas poderão mudar a vida em sociedade nos próximos anos, seja no relacionamento ou no mercado de trabalho.

Com a possibilidade de ver o trabalho humano sendo substituído por robôs, como ficará a saúde mental? Qual será a fonte de renda da maioria? É possível imaginar um futuro sem profissão? A provocação também instigou alguns internautas que aproveitaram o espaço para debater sobre o limite entre o online e o offline.