Semblante forte, sorriso doce e cativante. Foram essas características que, à primeira vista, me fisgaram quando encontrei a primeira vice-reitora negra da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).
Joana dos Passos é fruto da resistência desde o nascimento. É uma das sete mulheres dos nove filhos que resistiram aos 14 partos da mãe, dona Maria Ivete dos Passos.
Confesso que ao olhar para a minha entrevistada fiquei emocionada – Foto: Divulgação/NDDe família simples, ela, que iniciou as atividades escolares já alfabetizada, me contou que a educação sempre foi a única alternativa para melhorar a situação financeira dos que viriam no futuro. E o futuro chegou!
SeguirProva disso é que no extenso currículo da vice-reitora está o prêmio “Mulheres Brasileiras que Fazem a Diferença”. O reconhecimento foi entregue pela Embaixada e Consulados dos Estados Unidos no Brasil a apenas sete mulheres do país este ano.
A láurea homenageia mulheres de todas as origens que provocam impacto positivo em suas comunidades e são fonte de inspiração. Por motivo semelhante, Joana também já ganhou o prêmio Antonieta de Barros. Eu poderia ficar aqui falando por horas sobre o currículo impecável de Joana durante toda a coluna.
Entre os compromissos de Joana na UFSC estão a condução de ações de acolhimento a mulheres vítimas de violência, a população LGBTQIA+, negros, quilombolas e indígenas vitimas de violência – Foto: Divulgação/NDEla também é mãe de Nyame, de 20 anos, que cursa Psicologia, e casada com João Carlos Nogueira, um intelectual que também coleciona especificidades na área da educação, da promoção da igualdade e no combate ao racismo a nível internacional.
Para manter vida pessoal, acadêmica e profissional em alinhamento, Joana diz que cumplicidade, parceria e compartilhamento de responsabilidade são as palavras de ordem. Até porque, segundo ela, uma feminista que luta por igualdade tem que viver o discurso dentro de casa.
No trabalho, sua trajetória de vida e ancestralidade a fazem reafirmar o compromisso de lutar por uma gestão mais participativa com justiça social e paridade de gêneros entre professores, alunos e funcionários.
Outra missão prometida a si própria é a de lutar pela permanecia dos estudantes na Universidade, uma vez que o formato integral da UFSC muitas vezes dificulta a rotina dos alunos que precisam conciliar trabalho e estudo.
“Nós temos como foco a permanência como um ponto indiscutível para assegurar que os estudantes concluam seus cursos e tenham saúde mental para se concentrar nos estudos”, ressaltou.
As políticas de ações afirmativas formam a bandeira defendida por Joana em sua trajetória educativa. Ela pesquisa sobre o tema há mais de 12 anos e defende que a promoção de meios para a entrada dos estudantes deve ser foco constante.
De família simples, a educação sempre foi a única alternativa para melhorar a situação financeira dos que viriam no futuro. – Foto: Divulgação/NDA luta contra as desigualdades e o racismo correm em suas nas veias desde sempre. A professora afirma que está onde está justamente por atuar contra as desigualdades de gênero, classe e raça. E suas especialidades acadêmicas confirmam isso.
Ela comandou o Centro de Ciências da Educação da Universidade e foi umas das responsáveis pela criação da Secretaria de Ações Afirmativas e Diversidades (SAAD), que deve ser transformada em pró-reitoria. Esse movimento pode ampliar as políticas e atendimentos nos 5 campus da UFSC.
Dentro deste contexto, o que se quer além da garantia dos alunos até o fim do curso, é que a pró-reitoria conduza ações de acolhimento a mulheres vítimas de violência, a população LGBTQIAP+, negros, quilombolas e indígenas vitimas de violência. Um trabalho árduo que só poderia ser feito de forma resiliente por quem já sofreu algum tipo de discriminação na pele.
Confesso que ao olhar para a minha entrevistada fiquei emocionada. Afinal, vim da mesma realidade que ela, onde cargos de poder eram inexistentes para negros e praticamente impossíveis para mulheres negras. Foi no quase que Joana dos Passos me mostrou representatividade.
No futuro que imaginou, ser vice-reitora é uma realidade. A voz meiga, porém firme, traz histórias que fazem parte do cotidiano de muitas de nós. As mãos são macias, mas transmitem uma energia e uma de empoderamento que arrepiam.
O lema de Joana? “Uma sobe e puxa a outra”.
Saí da entrevista achando que sou capaz de tudo. Acho que estamos bem representadas. E Você? O que me diz?