‘Pacto de sangue’ e ‘velha atropelada’; entenda suspensão de livro de Ziraldo em escolas de MG

A obra do cartunista Ziraldo aborda racismo, diversidade e amizade por meio de uma linguagem poética e infantil

Foto de Beatriz Rohde

Beatriz Rohde Florianópolis

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Após pressão dos pais, um livro infantil do escritor e cartunista Ziraldo foi suspenso nas escolas de Conselheiro Lafaiete, em Minas Gerais, pela Secretaria Municipal de Educação. As famílias dos alunos consideraram o conteúdo agressivo.

Escritor e cartunista brasileiro ZiraldoNatural de Minas Gerais, o desenhista Ziraldo morreu em abril deste ano – Foto: Divulgação

O livro “O menino marrom”, lançado por Ziraldo, em 1986, narra a amizade entre um garoto negro e um branco. Os dois investigam o mistério das cores e aprendem sobre a diversidade racial e o respeito.

Dois pontos da obra revoltaram os pais dos alunos em Conselheiro Lafaiete, que alegaram que o livro induziria as crianças a “fazer maldade”.

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Em um trecho, o “menino marrom” se oferece para ajudar uma senhora a atravessar a rua, mas é rejeitado por ela com rispidez.

Trecho do livro "O menino marrom" de Ziraldo, mostrando velha atropeladaTrechos da obra “O menino marrom” foram criticadas por pais de alunos em Minas Gerais – Foto: Editora Melhoramentos

As crianças então assistem à idosa passar e o “menino cor-de-rosa” pergunta: “Por que você vem todo dia ver a velhinha atravessar a rua?”, ao que o “menino marrom” responde: “Eu quero ver ela ser atropelada”.

Em outra passagem do livro de Ziraldo, os garotos decidem fazer um pacto de sangue para selar sua amizade. No entanto, eles não têm coragem de se ferir e acabam firmando o pacto com tinta azul em um papel.

Trecho do livro "O menino marrom" de Ziraldo, mostrando pacto de sangueA Secretaria Municipal de Educação de Conselheiro Lafaiete lamentou as interpretações dúbias – Foto: Editora Melhoramentos

A Secretaria Municipal de Educação suspendeu temporariamente as atividades sobre “O menino marrom” nas escolas na quarta-feira (19). Em nota nas redes sociais, a pasta lamentou as interpretações dúbias e defendeu a relevância da obra.

“O livro é um recurso valioso na educação, pois promove discussões importantes sobre respeito às diferenças e igualdade. Utilizando uma linguagem simples e ilustrações atraentes, Ziraldo consegue envolver as crianças e facilitar a compreensão de conceitos complexos como racismo e empatia”, esclarece o órgão.

Ziraldo morreu em abril, aos 91 anos

Escritor e chargista brasileiro ZiraldoO jornalista foi preso três vezes durante a ditadura militar- Foto: Fernando Frazão/ Agência Brasil

Ziraldo Alves Pinto moldou uma geração com histórias infantis dotadas de sensibilidade e consciência social. Ele foi o criador do “Menino Maluquinho”, famoso personagem da literatura brasileira, em 1980.

O chargista mineiro foi um dos fundadores do jornal “O Pasquim”, ao fim da década de 1960, que se caracterizou pela oposição ao regime militar. Ele chegou a ser preso três vezes após a publicação do AI-5.

Menino Maluquinho, personagem de ZiraldoZiraldo é pai do Menino Maluquinho, ícone da literatura infantil – Foto: Divulgação/Ziraldo

Em 2008, Ziraldo e outros jornalistas perseguidos pela ditadura tiveram sua anistia aprovada pelo Ministério da Justiça. O escritor foi indenizado pelo Estado em R$ 1 milhão e recebeu pensão vitalícia de R$ 4 mil.

Ziraldo morreu em 6 de abril, aos 91 anos. A família informou que o desenhista faleceu em casa enquanto dormia, em um apartamento da Zona Sul do Rio de Janeiro.

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