Há pouco mais de um ano, alunos, professores e militares convivem na Escola Estadual Ângelo Cascaes Tancredo, localizada em Palhoça, uma das primeiras no Estado a implantar o Pecim (Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares). Neste sistema, militares da reserva, entre suboficiais e sargentos, atuam como monitores, sobretudo nas questões disciplinares. Na sala de aula, o protagonismo é dos professores.
Santa Catarina tem sete escolas cívico-militares e alta demanda por parte dos pais – Foto: Leo Munhoz/ND“Gosto muito do ensino da escola, inclusive essa parte dos militares. Tive medo antes, mas vi que estava errada e que é algo bom. O que mais gosto é da disciplina e do carinho que os monitores têm conosco”, disse a aluna Alexsandra Vitória Mendes, de 15 anos, estudante do 1º ano do ensino médio e que sonha em ser juíza.
Brayan Lima Borges também vive a primeira experiência em uma escola cívico-militar. Ele fez questão de entrar em uma instituição com o modelo. “Estou gostando bastante, principalmente da ordem. Eles ensinam bastante a gente. Eu me adaptei bem”, destacou o estudante que deseja ser psicólogo ou perito criminal.
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Brayan fez questão de ser matriculado em uma escola com a disciplina militar – Foto: Leo Munhoz/NDAo todo, 14 militares ajudam os professores. A escola tem militares da reserva das três Forças Armadas. Entre eles, o professor Ednei, suboficial da Marinha. Ele foi para a reserva em 2016 e explicou que a função é transmitir disciplina e valores. Na avaliação dele, a implementação do modelo na escola está funcionando bem.
“Mesmo com algumas cobranças mais firmes com relação à disciplina, eles sentem que isso é bom para eles. É difícil agradar 100%, mas 90% aceitam”, disse Ednei. Sobre a experiência particular que o colégio está trazendo a ele, comentou que o sentimento maior é de gratidão. “Ajudar a construir cidadãos melhores para o futuro, não tem preço”, declarou.
O suboficial Ednei, da Marinha, é um dos 14 monitores da escola – Foto: Leo Munhoz/NDA escola foi inaugurada em outubro do ano passado e recebeu investimento de R$ 8,9 milhões. Possui laboratórios de biologia, física e informática, ginásios e auditório. Aos fins de semana, cerca de 200 estudantes vão à escola e participam dos projetos de futsal, RPG e coral.
Apoio na disciplina
A professora Monica Bombilio ensina química e disse que, inicialmente, tinha receios. Ela é professora em caráter temporário há 18 anos e conhece bem as escolas estaduais. “Venho e dou minha aula, como há muito tempo eu não conseguia fazer lá fora”, pontuou.
A professora Monica esperava uma realidade e encontrou outra – Foto: Leo Munhoz/NDAntes de entrar na escola, ela era contrária ao modelo, pois achava que os militares influenciaram no planejamento e nas aulas. “Quando vim para cá, desmontei o meu conceito. Os militares são nosso apoio na disciplina. A gente não se incomoda com aluno, como em outras escolas”, reforçou Monica.
Militares são coadjuvantes
O coronel Marcelo, da reserva da Aeronáutica, é o gestor da escola. Segundo ele, não é em toda unidade que a relação de professores e militares é boa, diferentemente do que ocorre na Ângelo Cascaes Tancredo.
Cel. Marcelo é o gestor da escola – Foto: Leo Munhoz/ND“Os militares são coadjuvantes. Trabalhamos em parceria com o MEC para elevar as escolas civis a um nível de excelência. A finalidade básica é que os professores consigam dar aula e os alunos aprendam melhor”, afirmou o coronel, que está se acostumando a ouvir dos professores a seguinte frase: “Aqui é um colégio onde a gente consegue dar aula”.
Na avaliação dele, o nível de disciplina dos alunos é muito bom e eles estão começando a se destacar em competições intelectuais. “Participamos da Olimpíada Brasileira de Matemática e Astronáutica. Nossos alunos estão se destacando em nível nacional, premiados entre os primeiros colocados”, enfatizou o coronel.
“Não são soldados. São alunos da rede pública”
Para o capitão Miks, gestor educacional, o modelo está funcionando, com aprovação de 99% dos pais e responsáveis e de 90% entre os alunos. “Nosso foco são esses 10% que não se sentem tão felizes. Em alguns casos são alunos inteligentes, com notas muito boas, mas acabam prejudicando alunos não tão privilegiados”, ressaltou Miks.
Capitão Miks é o gestor educacional da escola – Foto: Leo Munhoz/NDO capitão ressalta que a escola não funciona como uma unidade militar. Para exemplificar, conta que os alunos pediram para ir fantasiados para a escola em alusão ao halloween e foram atendidos.
“Desde o nosso menorzinho de 12 anos, até os maiores de 17, são crianças e também precisam brincar, se divertir e respirar. Isso aqui não é um quartel. Eles não são militares, não são soldados. São alunos da rede pública”, ponderou o capitão Miks.
A liberação para as fantasias veio de Luciana Raulino, que dirige a escola desde quando ainda estava em processo de implantação e ficará no cargo até 2023. Ela foi eleita por 900 votos de 1.026 votantes.
A diretora Luciana, querida entre alunos e a comunidade escolar – Foto: Leo Munhoz/ND“Essa escola foi praticamente montada comigo e a comunidade, que participa de forma efetiva. A comunidade solicitou que fosse uma escola cívico-militar. Pode ser uma escola com um projeto diferente, mas não deixamos de ser uma escola”, comentou Luciana.
Em Santa Catarina, sete unidades aderiram ao modelo cívico-militar. Ainda nos primeiros anos e formando os primeiros alunos, a Ângelo Cascaes Tancredo é, de acordo com o coronel Marcelo, um exemplo da implementação do Pecim no Brasil.