Cor e grafite: projeto dá vida às escolas de Florianópolis

Com as artes do grafite pensadas de acordo com cada unidade, o objetivo é transformar o ambiente educacional, proporcionando o acesso à arte

Ana Caroline Arjonas Florianópolis

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Estar inserido em um ambiente colorido, com obras e artes que remetem aos costumes e cultura da região, é um incentivo para o desenvolvimento das crianças e estudantes. Os Núcleos de Educação Infantil Municipal (Neims) e as escolas da Capital são prova disso. Ao todo, 73 unidades já foram transformadas por meio do grafite, colocando diante dos estudantes outras formas de expressão.

Cor e grafite: projeto dá vida às escolas de Florianópolis O grafite é feito pensado em cada unidade para representar características únicas do ambiente – Foto: Marcos Campos/Divulgação/its Teens

O processo até o resultado é cooperativo e conta com a participação dos diretores, artistas e grafiteiros. Tudo começa com uma conversa junto à direção, responsável por elencar alguns itens que representam a rotina das crianças.

Depois, artistas e grafiteiros ficam com a responsabilidade de dar vida à ideia, pintando os muros e paredes. Em alguns casos, as crianças sugerem desenhos.

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Na Escola Básica Municipal (EBM) Osmar Cunha, em Canasvieiras, a arte surgiu da junção entre Luciano Martins e Rodrigo Gambin. Com muita cor e elementos característicos, a produção foi pautada na Capital.

“O pedido foi para trabalhar mais a parte da cultura local, resgatar os valores de Florianópolis, do manezinho. Então tem o Mercado Público, tem tainha”, conta Luciano.

Antes o projeto era feito de forma independente, mas o cenário foi modificado quando a Secretaria Municipal de Educação de Florianópolis decidiu transformar a iniciativa em algo acessível e disponível para todas as unidades. Com licitação que teve início em 2021 e deve seguir até 2023, 34 artistas trabalham para atender a rede municipal.

Mais do que modificar o cenário padrão, o convite é para encarar o espaço sob uma nova perspectiva. “Essas obras são para as crianças, para elevar a autoestima delas, aumentar a sensação de pertencimento, até do próprio cuidado e zelo pelo ambiente”, destaca o coordenador do projeto, Victor Moraes Heyde.

Entretanto, se engana quem pensa que o colorido e a representatividade estão presos ao ambiente escolar. Ao expor ideias e traços próprios, como aqueles que são autênticos do grafite, a comunidade acaba ganhando.

“Isso toma uma dimensão muito grande, porque amplia a acessibilidade da obra para todo mundo, essa coisa de fazer parte do mobiliário urbano da cidade é diferente de um quadro”, acrescenta Luciano, que afirma que as crianças são uma fonte de inspiração.

A democratização da arte coloca à disposição novas influências, inserindo nos espaços públicos aquilo que antes não era visto — ou que só era acessado nas galerias de arte.

“Ter o grafite aqui significa que a escola quer proporcionar para o estudante um enriquecimento cultural para além de uma prática, porque para a gente ser criativo, para o estudante fazer parte desse desenvolvimento da criatividade, não basta só ele desenhar, fazer escultura, ele precisa ter também boas referências”, explica o professor de arte Leonardo José Roch Viriciano.

Para o público-alvo, a mensagem foi transmitida com sucesso. “Eu acho uma obra muito bonita, é muito significativa na escola e ajuda muito na criatividade dos estudantes, às vezes”, declara Layssa Julia do Santos Nascimento, 12, que está na turma do 6º ano.

Além de despertar as novas ideias, a modificação também despertou um sentimento. “O meu coração ficou muito quente com a escola reformada, não era tão vivo assim. Agora está bem mais vivo, muito linda”, finaliza a jovem, que tem como ícone preferido a margarida.

Colorindo Floripa

Seja por meio de um desenho, um quadro ou uma escultura, a arte é capaz de despertar sentimentos, extraindo de cada um o olhar único e representativo diante das situações.

No Neim Nagib Jacor, localizado no Estreito, a notícia sobre a pintura dos muros foi dada em 2021, iniciando a conversa com a comunidade para escolher os desenhos — famílias, funcionários e crianças participaram.

“Pensamos na diversidade, na brincadeira, na alegria e no amor, tão presentes em nossos dias nesse lugar especial. Não podia faltar a Ponte Hercílio Luz, que é visível aqui do nosso Neim e tão representativa em nosso município”, contam Grasiele Aline da Rocha e Carla Adriana Ferrari Bolonha, respectivamente diretora e supervisora da unidade.

Com o trabalho exposto, a palavra que resume a experiência é alegria. “As crianças ficaram tão felizes que pediam para as famílias virem até aqui nos fins de semana para bater foto em frente às imagens”’, relatam as educadoras. O grafite é tão significativo que algumas pessoas acabam ligando apenas para elogiar o trabalho, provando que as intervenções modificam a rotina da comunidade.

No Neim Paulo Michels o sentimento foi parecido. Com sugestões que partiram dos educadores e dos pequenos, o retorno ao modelo presencial foi marcado pela novidade.

“As crianças tiveram grande surpresa ao verem seus desenhos estampados nos muros. Foram muitas as expressões de felicidade, alegria, entusiasmo; momento no qual presenciamos o sentimento de pertencimento por estarem voltando ao espaço que sempre foi deles”, relatam Rosana Réus, diretora, e Eliana Pires, professora auxiliar de educação especial readaptada.

Para João Vitor Emanuel Martins, uma das crianças da turma, a conexão foi instantânea. “Eu achei ele bonito. Quando vi, já imaginei ele se mexendo e fui correndo dar um abraço nele. Parecia que ele também estava me abraçando”, lembra o garoto.

Mais do que a estética, o ganho também é na educação. “O espaço ficou mais acolhedor e rico em possibilidades de interações e de ampliação das experiências estéticas. Digo isso pois seguidamente observamos uma ou outra criança parada, contemplando os detalhes de cada desenho”, finaliza a professora Lissandra Zanon.

O surgimento do grafite

Quem se depara com os muros repletos de grafite pode não conhecer a importância e o significado desta arte. Ainda que o ato de pintar seja antigo, as primeiras manifestações de destaque surgiram nos anos 1970, em Nova York. Para expor a criminalidade e a ausência de planejamento urbano, os desenhos se transformaram em linguagem.

As diferenças de classes e a disparidade na sociedade também ganharam os muros, despertando a atenção daqueles que passavam pelos locais. Ao lado do rap, por muitos anos, ambos foram as vozes da periferia.

No Brasil, as primeiras manifestações também surgiram na mesma época, junto com a Tropicália. Por aqui, o intuito era manifestar a insatisfação com o modelo de poder daquele período.

Diferentemente da pichação, que quase sempre é feita em locais sem autorização, o grafite foi e continua sendo a principal forma de comunicação de muitos grupos, que transmitem por meio da arte alguns ideais. Com diversos estilos e categorias, este modelo passou a ser valorizado nos últimos anos, sendo visto e respeitado por muitos.

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