Há quem pense em educação e imagine aquele cenário conhecido por todos, com mesa, cadeiras e uma lousa. Por mais que a tecnologia e as inovações tenham mudado a forma de ensinar e aprender, o imaginário costuma recriar aquele ambiente que já conhecemos.
Entretanto, entre as recordações, existe uma que fica gravada na memória e que dificilmente se apaga: a presença de um professor.
Da esquerda para direita: Lilian, Johnny, Ana Flávia, Eriberto, Ana Cristina, Ariane, Tamily e Ronaldo – Foto: Matheus Nunes/Divulgação/its TeensSeja na Educação Infantil ou no Ensino Fundamental, sempre encontramos alguém que é inspiração e que deixa um legado — pelo comportamento, abordagem, práticas ou pelo relacionamento que foi desenvolvido ao longo dos anos.
SeguirEm Navegantes, oito professores foram convidados para compartilhar sobre suas práticas pedagógicas, mostrando que o ensinar pode ser envolto por descobertas e uma relação que vai além do conteúdo que está no quadro — aqui o lado humano também conta quando o assunto é o desenvolvimento.
Conheça a história de cada um deles e como a ligação com a educação foi primordial para mudar a rotina das crianças e dos alunos no dia a dia.
Tudo começa pela Educação Infantil
Os primeiros anos de vida são decisivos, seja na construção do pensamento ou no trabalho com as habilidades.
Diante de tantas possibilidades que são apresentadas para aqueles que estão no início de sua história, ter um professor capaz de enxergar além do óbvio é uma oportunidade para abrir portas que jamais serão fechadas.
Trabalhando a imaginação e o brincar de forma livre, é nesse momento que os pequenos compreendem que o ensino e a diversão são palavras que podem — e devem — andar juntas.
Nas turmas da professora Ana Flávia Gava, no CMEI (Centro Municipal de Educação Infantil) Robson Francisco Lopes, as crianças já sabem que diversos materiais podem ganhar um novo destino, modificando a estrutura da sala de referência ou proporcionando uma experiência diferenciada. Mas como surgiu o desejo de estar à frente do ensino?
Na verdade, a escolha pela educação foi uma troca de carreira, uma vontade que surgiu após o nascimento dos filhos. Por mais que a escolha pela formação tenha sido impulsionada pelo desejo de aprender mais, entrar em uma sala de aula nunca foi o objetivo.
“Meu filho apresentou uma dificuldade de aprendizagem. Nessa de não aceitar o diagnóstico, fui me especializar em neuropsicopedagogia, só que na área clínica. Sentia necessidade de entender o universo da sala de aula para agregar na área clínica, só para entender como era a dinâmica, e me apaixonei”, conta Ana Flávia.
No caso de Ana Cristina de Moraes Braz, do CMEI Professora Laci Ana de Borba Cesário, a inspiração veio de muito antes: na época da infância.
“Foi através de uma professora, que me afetou de uma forma muito bonita, que me mostrou além das minhas capacidades, que me olhou do jeito certo, que potencializou aquilo que eu tinha de bom, me fez superar as minhas dificuldades, isso dentro da pré-escola. Então o olhar, o encantamento daquela professora durante a prática, tudo aquilo que ela trazia, a forma dela se dirigir, o tom de voz, a doçura. É como se eu estivesse com ela aqui. Eu penso que nós somos um arcabouço de memórias”, explica Ana, que hoje tenta oferecer o mesmo às crianças.
O mesmo sentimento é compartilhado com a professora Lilian Gomes Ribeiro, do CMEI Bruce Cranston Kay. Embora a vontade não tenha surgido nos primeiros anos de vida, é como se as escolhas direcionassem o caminho do aprendizado.
“Quando cheguei naquela fase de decidir o que fazer, senti que aquilo me puxava de qualquer forma. Por mais que tenha pensado em outras possibilidades, algo me puxava. Acredito que não foi por um acaso e é onde eu me encontro. Eu não sei se eu saberia fazer outra coisa da minha vida e se eu me encontraria tão bem”, destaca a educadora.
Além das histórias, o desejo pelo novo é algo que motiva as professoras, que trazem para a sala de aula novas possibilidades, explorando elementos que, muitas vezes, não são vistos como brinquedos — como argila, caixa de papelão ou reciclados.
Isso porque o segredo está na liberdade e no incentivo para que cada um seja capaz de criar a própria realidade, mesmo estando diante dos mesmos materiais.
“Acredito muito na afetividade. Todos os dias, quando eu entro, eu não consigo nem deixar a mochila, eles já esperam que eu beije cada um. Começamos com um beijo todos os dias e terminamos com um beijo”, diz Ana Flávia, que acredita no poder da afeição para criar vínculos com os pequenos.
Para Ana Cristina, o segredo está na forma como os dias são planejados e como cada um pode focar na liberdade de ser e de criar.
“Com esse tempo de qualidade dedicado ao que as crianças trazem como interesse, surgem os diversos tipos de assunto. Quando há imposição dos temas, tento trazer o máximo de concreto para que se possam abstrair”, expõe a educadora, que gosta de oportunizar as interações com o imaginário e o que há ao redor.
No caso de Lilian, estar junto com os pequenos é uma chance de proporcionar aquilo que muitos vivenciaram no passado, mas que, com a evolução, está sendo deixado de lado.
“É trazer a infância de volta para as crianças, é o que eu busco. Gostamos muito de trabalhar com elementos da natureza”, explica a professora, que acredita na evolução da Educação Infantil, colocando no foco do processo quem mais importa: a criança.
Trilhando o mesmo caminho nos anos iniciais
Se a diversão é fator primordial nos primeiros anos de vida, o contato com a sala de aula pode assustar aqueles que enxergam, pela primeira vez, um modelo estruturado entre as carteiras e a lousa.
Porém, essa familiarização pode ser mais tranquila quando os educadores apresentam outros cenários, como no caso do professor Johnny José Tomelin, da Escola Municipal Professora Rosa Maria Xavier de Araújo. Mesmo que o desejo de lecionar não tenha sido o primeiro, a identificação foi instantânea.
“Dar aula nunca foi um objetivo. Na época, fui substituir uma professora e gostei, me apaixonei na verdade. Fui me profissionalizando e não me vejo fazendo outra coisa”, declara.
Na tentativa de fazer do espaço e do aprendizado um momento de troca e de colaboração, a ligação com a profissão e com aqueles que estão do outro lado é o que impulsiona o profissional.
“O que eu faço quando entro numa sala de aula, primeiro mostro para o aluno que ele é capaz, eu valorizo qualquer vírgula que ele faça, qualquer coisa, porque muitas vezes ele já vem de vários fatores sociais. Eu penso assim e para mim dá muito certo essa técnica”, comenta o educador.
A construção do cidadão nos anos finais
Tamily Roedel, professora de Ciências na Escola Municipal Professora Maria Ivone Müller dos Santos – Foto: Matheus Nunes/Divulgação/its TeensVocê conhece aquelas famílias que mostram aptidão para seguir a mesma carreira? O cenário faz parte da história de Tamily Roedel, professora de Ciências na Escola Municipal Professora Maria Ivone Müller dos Santos.
“Nasci e cresci em uma família de professores. Meu pai é professor de História e de Geografia, minha mãe é professora de Português e Inglês, minha avó era alfabetizadora, minha tia era de Matemática. Todos somos professores. Cada um tem as professoras que marcaram a sua vida, e eu tenho os meus professores que eu lembro até hoje, os de Química, de Biologia e Ciências, porque eles faziam sempre coisas diferentes e é o que eu procuro fazer com os meus alunos”, comenta a educadora.
Entretanto, a mesma trajetória não condiz com o passado da professora de Português Ariane Ferreira Pereira de Jesus, da Escola Municipal Izilda Reiser Mafra. Criada pelos avós, o aprender foi pautado naquilo que ouvia dos mais velhos.
“Venho de uma realidade bem diferente, em que não tinha nenhuma professora na família, bem pelo contrário, venho de uma família em que a maioria não terminou o Ensino Médio, que não tinha ninguém da minha família com Ensino Superior.”
A trajetória de Ariane se assemelha aos passos de Eriberto Honorato Nunes, da Escola Municipal Izilda Reiser Mafra.
“Não tenho ninguém na família que tenha essa vocação da educação. Venho de uma família de comerciantes. Um amigo me disse que eu precisava fazer uma faculdade e me incentivou a fazer. Aí entra aquela história do professor, de admirar lá na época de escola. A Geografia entrou nessa história, minha professora me cativou. O curioso é que a encontrei na faculdade e ela foi minha professora de novo”, conta o professor de Geografia.
Outra história que não tinha ligação com a educação, mas foi modificada pela proximidade com o ensinar e aprender, foi a de Ronaldo Lopes, da Escola Municipal Maria Hostim da Costa.
“Venho de uma família de avós, bisavós, pai e mãe analfabetos, e todos pescadores. Algo me incomodava, eu não queria ser um pescador e tive o apoio do meu pai. Por conta das dificuldades, sempre trabalhei, desde muito cedo”, explica o educador, que começou a observar o talento para a explicação depois da experiência como instrutor de informática.
Se as histórias se misturam entre os caminhos da vida, o desejo de modificar a trajetória dos alunos é o que há de comum. No objetivo de proporcionar experiências diferenciadas, o que vale é fazer do aprendizado um momento significativo, independentemente das dificuldades.
No caso de Tamily, por exemplo, o caminho foi investir em projetos, mostrando para turma como é possível conhecer pessoas de todos os lugares do mundo por meio da educação.
“O primeiro que entrei foi na cultura oceânica, por causa do doutorado. Eles apresentaram as oficinas da ‘Década do Oceano’, que começou em 2021, e essas oficinas eu fiz parte de uma delas, eles criaram um projeto e conseguiram trazer para trabalhar a cultura oceânica no Brasil”, explica a educadora, que propôs a participação no Programa Escola Azul, ação que tem mobilizado a turma, seja na construção de perguntas, seja na descoberta daquilo que está ao redor da unidade.
Para Ariane, o foco em sala de aula está na proximidade com o próximo e no valor do ensino, mostrando que aquilo que aprendemos também pode fazer a diferença ao longo da vida, como a interpretação de texto.
“Primeiro, penso que os alunos têm que ter confiança em nós. Enquanto aluna, eu sempre pensava que eu tinha que ter um respeito pelo meu professor, mas ao mesmo tempo eu tinha que gostar dele, ter confiança de perguntar. Eu busco ter esse relacionamento com os meus alunos. Busco, enquanto professora, cativar e ter essa sintonia”, elenca a professora, que enxerga o potencial do ensinar e relacionar com propósito.
No caso de Eriberto, a criatividade é o que toma conta do processo, mostrando que a Geografia pode e deve ser muito mais que observar mapas e países. O retorno surge na reação da turma, que é capaz de trazer de longe costumes que agora fazem parte da rotina na escola.
“Eles estudam muitas culturas, viajamos pelo planeta. Em uma das apresentações percebemos que em um país eles fazem esse ritual, de levantar para o professor como forma de respeito.”
Na prática de Ronaldo, uma experiência foi decisiva para repensar aquilo que estava sendo apresentado em sala de aula: a convivência com uma aluna que tinha baixa visão.
“Trabalho com inclusão, mestrando em educação inclusiva. Em um país como o nosso, que é tão desigual, como é difícil trabalhar uma inclusão, uma aula diferenciada, fazer algo diferente”, declara o educador, que foi responsável por criar um projeto de Braille na escola, provando que todos precisam ter as mesmas oportunidades.
Agora os materiais são feitos por meio da linguagem, que também está presente nos mapas que são criados pelos estudantes.
O que é ser professor?
a – Foto: Matheus Nunes/Divulgação/its TeensCom tantos anos e experiências, como eles enxergam o desafio de ser professor? O que será que não pode faltar quando o assunto é educação? Confira as respostas:
Tamily, 22 anos como professora: “Ser professora é encantar. Quero deixar pessoas melhores para esse mundo, essa é minha lógica de pensamento. Eu, como professora, faço isso, mostrar para eles que eles têm o mundo para explorar. Trago o mundo para a sala de aula.”
Ariane, 20 anos como professora: “Acho que ser professora é saber que, às vezes, um abraço ensina mais do que o conteúdo em si.”
Eriberto, 25 anos como professor: “É suprir uma necessidade que os alunos, muitas vezes, não conseguem. Além de ser professor, nós também somos pai, mãe, psicólogo. Somos tudo.”
Ronaldo, sete anos como professor: “Acho que tem a ver com a inclusão, incluir o aluno em alguma coisa, mas no momento que nos posicionamos verdadeiramente como professor, eles veem em nós possibilidades que eles não conseguem ver em casa. Tentamos mostrar que é possível.”
Jhonny, 23 anos como professor: “Ser professor é acreditar sempre, porque não podemos perder a fé, e não estou falando como demagogia. Você vê o seu aluno e acredita nele. Ser professor é isso, é olhar, por mais que ele já tenha sido desacreditado por todo mundo.”
Ana Flávia, dois anos como professora: “É aprender a receber talvez muito mais do que entregar, é aprender a olhar, se despir de julgamento. Eles ensinam muito mais para nós do que conseguimos ensinar para eles. É a disposição de estar aberto, viver a oportunidade de aprender todos os dias, talvez transferir esse sentimento para eles.”
Ana Cristina, 18 anos como professora: “É o respeito a essa integralidade, a essa criança que tem os mesmos sentimentos, muito mais inocentes e sensíveis. É prestar atenção nos sinais, nesse todo que me é apresentado todos os dias e, com isso, fazer com que eu convença os familiares que aquele ali não é só um lugar que eles deixam as crianças para trabalhar, mas é um espaço de construção, de afeto, de significado que eles vão levar para toda a vida, como eu levei para a minha.”
Lilian, nove anos como professora: “É cuidar e nutrir o crescimento das crianças com carinho, paciência e atenção às suas necessidades individuais, potencializando saberes.”