Dificuldades e apreensão marcam estudantes de SC que farão Enem na pandemia

Além dos desafios de estudar durante a pandemia, os alunos também falam sobre a insegurança de fazer a prova em meio ao aumento de casos de Covid-19

Juliane Guerreiro Joinville

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Em Santa Catarina, mais de 118 mil pessoas devem fazer o Enem (Exame Nacional de Ensino Médio) no próximo domingo (17). E se a ansiedade já é algo natural entre os estudantes normalmente, em época de pandemia, a apreensão é ainda maior, tanto pela dificuldade na preparação quanto pela insegurança relacionada ao coronavírus.

Rafaela Lorencetti do Nascimento tem 17 anos e é uma das mais de 11 mil pessoas que vão prestar o Enem em Joinville, no Norte do Estado. Para ela, ter um bom resultado na prova é fundamental para seguir a carreira que deseja: prestar Direito e se tornar delegada. “O Enem é muito importante pra mim porque meus pais não têm condições de pagar uma faculdade de Direito particular, que é muito cara. Então, com o Enem eu posso realizar o meu sonho, que é entrar numa faculdade pública, ou conseguir uma bolsa para uma faculdade particular”, destaca.

Rafaela terminou o ensino médio no ano passado e vai prestar o Enem neste ano – Foto: Arquivo pessoal/NDRafaela terminou o ensino médio no ano passado e vai prestar o Enem neste ano – Foto: Arquivo pessoal/ND

A expectativa para a prova é grande, mas a preparação para ela não foi nada fácil. Rafaela pretendia fazer um curso pré-vestibular e até chegou a participar da primeira aula, porém, a pandemia chegou e os planos foram por água abaixo. “O cursinho não tinha uma estrutura boa para atualizar a plataforma online com o conteúdo que eu ia necessitar. Eu até tentei estudar, mas os conteúdos eram muito superficiais”, conta a estudante.

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Sem essa alternativa, ela começou a estudar por conta própria. “Conheci plataformas gratuitas online, fiz simulados e tive bastante acesso ao conteúdo pela internet e também pelos professores da escola”, conta. Apesar disso, a distância com os professores por causa da pandemia acabou complicando o processo de tirar dúvidas e dificultou o aprendizado. A expectativa, no entanto, é positiva. “Tentei dar o meu melhor, foi um esforço muito grande para gerar resultado agora”, conta Rafaela.

Internet foi a alternativa para quem ficou longe da escola

Assim como Rafaela, o namorado dela também vai prestar o Enem neste ano pela primeira vez. Luan Dalmazo Fernandes tem 19 anos e usou a internet para se preparar para a prova. “Peguei um plano de doze meses em uma plataforma online porque seria mais barato e facilitaria os meus estudos”, diz.

Porém, a jornada não foi fácil. Além de conciliar o estudo para o Enem com as atividades do curso técnico que ele faz no IFSC (Instituto Federal de Santa Catarina), Luan também sofreu com a ansiedade gerada pela pandemia. “Fiquei muito tempo em casa e isso mexeu muito com meu psicológico. Havia dias que tinha muita dificuldade de estudar, batia a ansiedade e era complicado”, fala. Ele pretende fazer Engenharia Elétrica no próprio IFSC ou na Udesc.

Carla Taís Lara, 19 anos, vai prestar o Enem pela terceira vez. Longe das salas de aula há um tempo, a internet foi a melhor maneira que ela encontrou para estudar. “Assisto vídeo aulas, faço anotações e exercícios”, fala. Apesar de ter estudado, ela sabe das dificuldades enfrentadas neste ano e, por isso, já se prepara também para o Enem do próximo ano. “Me inscrevi em um pré-vestibular da UFSC e quero comprar um curso pré-vestibular pela internet”, fala.

Carla vai prestar o Enem pela terceira vez – Foto: Arquivo pessoal/NDCarla vai prestar o Enem pela terceira vez – Foto: Arquivo pessoal/ND

Carla considera que enfrentou desafios para estudar, mas reconhece o privilégio de ter oportunidades. “Se está difícil pra mim, imagina pra quem ficou o ano todo parado, sem acesso à informação e à internet todos os dias”, destaca. Ela pretende cursar Nutrição ou Educação Física e vai tentar a UFSC e também uma bolsa em uma faculdade particular.

Para ela, o Enem é uma forma de mudar de vida. “Tenho uma prima e uma irmã que tiveram bolsa do Prouni e essa é a única forma de conseguir uma faculdade 100% gratuita, já que eu não posso pagar a faculdade. O Enem sempre foi a única forma de conseguir continuar os estudos depois do ensino médio. É uma forma de mudar de vida e seguir carreira”, ressalta.

Enem em meio à pandemia causa insegurança

Além de toda a apreensão relacionada à dificuldade da prova e ao peso que ela tem na carreira de cada pessoa, quem vai prestar o Enem neste ano ainda terá que lidar com a insegurança relacionada ao coronavírus. Afinal, Santa Catarina vive um aumento de casos ativos da Covid-19.

Máscaras serão obrigatórias durante a prova – Foto: Divulgação/NDMáscaras serão obrigatórias durante a prova – Foto: Divulgação/ND

Nesta semana, vários alunos e entidades se posicionaram pedindo o adiamento do Enem, mas o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) resolveu manter a prova para os próximos dois domingos. Para Rafaela, a medida traz apreensão. “O adiamento deveria acontecer porque são milhares de estudantes que vão se colocar em risco para fazer a prova. Mesmo tendo o distanciamento e o uso da máscara, isso dá medo, bate uma insegurança muito grande”, destaca.

Carla concorda. “Os números da Covid-19 estão aumentando e tudo isso preocupa a gente. Minha mãe disse pra não ir, mas eu falei que não posso perder essa oportunidade”, fala. Para ela, a prova deveria ser adiada.

Já Luan vê dois lados contrários em relação ao adiamento. “Se você adia o Enem, vai atrapalhar muito a entrada dos estudantes nas faculdades e nem todas vão querer reformular o início do ano letivo. Porém, muitos amigos meus não querem fazer a prova com medo de pegar o vírus”, fala. O Enem será realizado em 56 municípios catarinenses.