O primeiro semestre escolar deste ano já entrou para a história como o mais atípico da atualidade. Aulas presenciais suspensas, escolas, pais e alunos se desdobrando para acompanhar a brusca mudança causada pela pandemia da covid-19. Para aliviar um pouco a pressão, durante uma semana, a partir de segunda-feira (27), todo o corpo escolar da rede pública municipal de São José estará em recesso.
“Será uma parada mesmo. Não teremos formação (para os professores) esse ano. Todos estão precisando descansar”, afirma a secretária de Educação de São José, Lilian Sandin Boeing. Ela conta que a reação de todos foi de alívio. “Esse ano não tem sido fácil. Recebi mensagens de pais de alunos e de diretores agradecendo por essa semana de folga”, diz.
O retorno das atividades será no dia 3 de agosto e a expectativa da secretária é que esse tempo, mesmo curto, sirva para que todos consigam recarregar as energias para continuar com os trabalhos remotos de ensino e aprendizagem. A previsão mais otimista de meses atrás era de retorno às escolas em agosto e agora não há nenhuma probabilidade de aulas presenciais neste ano.
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Aulas ficarão suspensas durante uma semana – Foto: Divulgação/PMSJ/NDLilian Boeing salienta que a situação tem sido um grande desafio para os educadores, cerca de 2,5 mil entre professores e auxiliares, e para os 13 mil alunos das escolas municipais de São José. Professora da rede há 30 anos, Lilian afirma que manter o vínculo com o aluno e interagir com a classe é fundamental no processo de ensino e aprendizagem. “Tivemos que nos reinventar. Todo dia tem uma novidade e temos que nos adaptar”, diz.
Vínculo que previne
Para a secretária, o vínculo entre a escola e o aluno tem uma importância social que vai além da aprendizagem. Ele pode ser um fator de segurança para a criança e uma prevenção a casos de abusos e violência doméstica. “Esse vínculo não pode ser cortado. Com esse distanciamento, não sabemos o que as crianças podem estar passando. O número de violência doméstica cresceu muito em Santa Catarina nos últimos meses. As crianças sabem que podem contar com o professor”, afirma Lilian.
Participação e evasão
O percentual de alunos que continuam em sala de aula remotamente é significativo e motivo de comemoração pela Secretaria de Educação de São José. De acordo com o órgão, 98% dos 13 mil alunos participam das atividades sejam pelo Portal da Educação ou pelo material impresso disponibilizado para as crianças que não têm acesso à internet.
Curiosamente, há alunos que têm condições de participar das atividades online, mas que os pais optaram pelo método tradicional. “Não tem sido fácil para os pais acompanharem as atividades escolares dos filhos. Nós não impusemos o material digital, fica a critério das famílias optar pelo o que se adequa melhor à realidade delas”, explica Lilian Boeing.
Desses 98% de alunos, 69% acessam o portal e 29% utilizam o material impresso preparado pelas escolas. A secretária citou o caso do CEM (Centro Educacional Municipal) José Nitro, no bairro Serraria, em que todos os alunos estudam com o material físico. “Essa escola tem uma característica própria, há muita participação da comunidade. A escola estimula e tem a resposta das crianças”, comenta.
Os 2% de alunos que estão fora das salas remotas foram procurados pelas escolas. A secretaria montou uma equipe que foi de casa em casa em busca dos ausentes, eram um pouco mais de 500 e hoje são cerca de 70. A maioria desses alunos mudou de cidade e não fez a transferência escolar e outros não foram encontrados nos endereços informados.
Empréstimo de computadores
A pandemia também revelou que nem todos os professores têm computadores em casa. Alguns nem mesmo sabiam utilizar o equipamento. A situação foi resolvida, segundo a secretária Lilian Boeing, com o empréstimo de notebooks e orientações sobre o uso da ferramenta. Atualmente, seis professores utilizam notebooks das escolas e cinco optaram por utilizar os laboratórios de informática das unidades. “Temos avançado bastante, mesmo com todas as dificuldades. Se tem alguma coisa positiva nessa pandemia é a descoberta do uso da tecnologia”, avalia a secretária.
Aulas continuam em Palhoça
Na rede pública de Palhoça não haverá recesso. Segundo a secretária Municipal de Educação, Shirley Nobre Scharf, o recesso que seria em julho foi antecipado logo no começo da pandemia, conforme determinou decreto do governo do Estado. Por enquanto, não há previsão de uma folga.
O município adotou atividades pedagógicas não presenciais que são entregues a cada 15 dias aos 16 mil alunos da educação infantil, ensino fundamental e EJA (educação de jovens e adultos). “Estamos na 7ª quinzena de atividades e o resultado tem sido positivo”, avalia Shirley Scharf. De acordo com ela, 60% dos alunos fazem atividades online e 40% utilizam o material impresso.
Assim como ocorre em São José, as escolas monitoram os alunos que não participam das atividades. A secretaria percebeu que nos últimos meses ocorreu um grande número de pedidos de transferência. “Palhoça tem essa especificidade de receber muita gente de fora. Percebemos que alunos que se matricularam em outubro, novembro do ano passado voltaram para seus municípios”, diz.
Em casos de ausência provocada por dificuldade de acesso ao material impresso, por exemplo, a escola leva até a casa do aluno as atividades quinzenais. “Nós temos buscado oferecer todo o apoio para que os alunos participem das atividades. Não é a forma ideal de educação, mas o que é possível fazer diante dessa pandemia”, afirma Shirley.
Para a secretária, a escola é um espaço importante para o desenvolvimento do aluno, não apenas o intelectual mas como ser integral. “A interação é a chave para o processo de ensino e aprendizagem. Essa pandemia serviu para a sociedade ver que não existe educação sem professor”, aponta.