Aprender sobre educação financeira, serviços de segurança pública, manutenção de uma casa e ainda dominar as obrigações e funções de uma prefeitura é o que propõe “Coutinópolis”, a minicidade da Escola Municipal Nelson de Miranda Coutinho, em Joinville, que vai atender estudantes do primeiro ao nono ano do Ensino Fundamental.
A minicidade foi pensada em parceria entre professores, equipe pedagógica e alunos – Foto: Leve Fotografias/Divulgação/its TeensO local, inaugurado recentemente, será mais um espaço escolar para desenvolvimento de habilidades e competências.
Com o início do projeto em 2019, cada item de Coutinópolis foi escolhido pelas turmas, responsáveis por elencar as organizações essenciais para manter o funcionamento do local – desde o desenho com ideias de como seria a minicidade até acompanhamento nas etapas de construção para estudos matemáticos.
SeguirA primeira a cogitar uma solução para o espaço livre da escola foi a professora Gerusa Conick Voltolini, que trabalha com a alfabetização dos pequenos. “Eles (alunos) foram dando as ideias e desenhando: tem que ter mercado, verdureira, farmácia. Foram falando o que tinha ao redor de casa para poder colocar na cidade”, relembra a professora.
Agora que a minicidade está pronta, uma nova etapa se desenha ainda para este ano: fazer uma eleição para que autoridades, representadas por estudantes, assumam papéis importantes em Coutinópolis. Além de definir os representantes do povo, também é preciso unir os novos ambientes com aquilo que deve ser repassado para os alunos.
“Falta a parte pedagógica, que está pronta, mas precisa ser formatada, tem que ir para a parede, para o planejamento do professor. Essa é a terceira fase do nosso projeto, que é implantá-lo dentro da proposta pedagógica da escola”, conta a diretora da unidade, Marta Aparecida Bonardi.
Por que viver em uma minicidade?
As turmas podem escolher os espaços e as funções da minicidade Coutinópolis – Foto: Leve Fotografias/Divulgação/its TeensSe você já mudou de bairro ou de Estado, sabe que existem diversos critérios que devem ser avaliados antes da decisão. Estrutura, serviços e gestão pública são os itens mais importantes, afinal, sem os quesitos básicos fica difícil imaginar como será a rotina da população.
Em Coutinópolis, esses problemas serão resolvidos por aqueles que estão aprendendo em sala de aula, levando o conhecimento para o espaço que foi construído nos últimos anos. Mais do que proporcionar um novo ambiente, o intuito é que a novidade possa trazer bons frutos no futuro.
“É transformar aquele espaço em um ambiente de práticas sociais envolvendo os componentes curriculares. Então a gente vê que quando eles estiverem trabalhando na cooperativa ou no espaço de saúde, a gente vai estar alinhando os conteúdos do currículo com as ações. E eu vejo que isso é muito perfeito porque é a formação do ser humano”, explica a coordenadora pedagógica Rosiane Ribeiro Justino.
Mesmo que as idas às casas e construções ainda não sejam parte da rotina de toda a unidade, existem benefícios que parecem claros.
“Eu vejo que é trazer aquela funcionalidade à educação. A forma como eu trago para os pequenos de uma maneira lúdica, e para os grandes uma contextualização mesmo. Ele (estudante) vai ter uma noção concreta de como construir política pública”, opina Marta.
Por mais que o local seja o mesmo para todos, a abordagem de cada profissional, de acordo com a idade e tema, poderá dar uma vida diferente para Coutinópolis, como se a cidade fosse capaz de mudar conforme os moradores. Em breve, a minicidade estará aberta à visitação de escolas da comunidade.
Construindo com os componentes curriculares
A estrutura da minicidade começou a ser pensada no papel, com o desenho dos alunos – Foto: Leve Fotografias/Divulgação/its TeensMesmo que Coutinópolis ainda não tenha um(a) prefeito(a), engana-se quem pensa que os alunos estão sem aprender. Os conhecimentos foram compartilhados desde a construção, de acordo com a etapa de cada processo.
Prova disso é a turma do professor de matemática Celso Medeiros, que viu a disciplina sendo aplicada durante a construção do espaço. “Nós tiramos todas as medidas da área. Nós tínhamos uma casa que já estava lá pronta e aquela foi a nossa base para construir a maquete das outras casas. Fizemos o levantamento das medidas da casa, trabalhamos as escalas e fomos montando as maquetes”, descreve o professor.
A projeção ajudou a visualizar a nova cidade e facilitou o entendimento das medidas na prática.
Também na matemática, a professora Cirlene Rocha levou os estudantes para compreender a teoria de triângulos enquanto cada edificação era erguida.
“Dentro do Coreto, que estava sendo construído na época, começamos a conversar sobre a aplicação do conteúdo: por que eu precisava ter o conhecimento de triângulo? Por que eu precisava conhecer o cateto, a hipotenusa? Onde isso estava no real para eles? Foi onde eles foram trabalhando a aplicação”, argumenta a educadora.
Quem gosta de desenhar teve uma experiência a mais: ver as criações ganharem vida nas portas de cada ambiente. “Lançamos o desafio e deixei livre. Mostrei o que precisava e cada um se propôs a fazer”, conta a professora de artes Joelma Leite, responsável por acompanhar a entrega de cada obra e contribuir na seleção das artes estampadas em cada construção de alvenaria que compõe a minicidade.
Além daqueles que observam a educação acontecendo em cada detalhe, o projeto também é fruto de quem coordena as tarefas e acredita no potencial da inovação, incluindo a equipe pedagógica e aqueles que enxergam a importância da ação para a comunidade, como o coordenador de eventos e projetos, Itamar Rodrigues Oliveira.
Parceria premiada
Na minicidade, cada cidadão pode desenvolver as habilidades que deseja, desde o conhecimento em finanças até as ideia em segurança pública – Foto: Leve Fotografias/Divulgação/its TeensSe a iniciativa foi capaz de encantar professores e estudantes, que acompanharam cada etapa do processo para poder viver em Coutinópolis, aqueles que estão de fora conseguiram enxergar a relevância da inovação.
O projeto foi destaque na sexta edição do prêmio “Educar para Transformar”, promovido pelo Instituto MRV e a Fundação Pitágoras, com a temática “Uma escola aberta para novas ideias é uma escola aberta para o futuro”.
A minicidade desenvolvida na EM Nelson de Miranda Coutinho ficou entre os dez mais votados e recebeu a premiação de R$ 30 mil para investir nos serviços e materiais. Ao todo, 19 estados brasileiros puderam se inscrever para a premiação.
Além disso, para somar no desenvolvimento do novo espaço pedagógico, parcerias têm sido feitas e dão vida à nova cidade construída, que terá órgãos públicos de Joinville, além da participação do SICOOB, incentivador da educação financeira, que deve acontecer no espaço em que será o banco da cidade. Os alunos também poderão aprender mais sobre os processos da água e energia solar.