“A gente ajuda, mas não é ajudado”, diz a administradora do Centro de Ensino Infantil Criarte, Simone Oliveira de Almeida, 47 anos. Junto com a irmã e a mãe, ela comanda desde 2005 a instituição de ensino localizada no bairro Bom Abrigo, em Florianópolis.
Sem aulas desde março, em razão da pandemia do novo coronavírus, a escola teve de suspender em julho todos os contratos dos funcionários que ainda mantinha.
Escolas infantis enfrentam dificuldades com perda de alunos e redução das mensalidades – Foto: PixabayNo começo do ano, 68 alunos foram matriculados, sendo “o melhor ano da escola” em relação ao número de crianças atendidas, conta Simone. A situação, no entanto, mudou.
SeguirNesta terça-feira (25), data em que é celebrado o Dia Nacional da Educação Infantil, o centro de ensino contava com apenas 24 famílias pagantes. O valor das mensalidades, que sofreu desconto de 15% após ação do MPSC (Ministério Público de Santa Catarina), não é suficiente para manter a escola ativa.
Colapso financeiro
A Covid-19 provocou um colapso financeiro para as creches particulares que atendem, em sua maioria, crianças de zero aos cinco anos. No Brasil, o ensino obrigatório começa a partir dos quatro anos com a pré-escola. Antes disso, cabe aos pais decidir por manter ou não os filhos na educação infantil.
Segundo dados do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), 809 escolas de ensino infantil funcionam em Santa Catarina. Desse total, a Aepesc (Associação das Escolas Particulares de Educação Infantil de Santa Catarina) estima que 10% encerraram suas atividades em razão da pandemia.
Rodrigo Calegari, presidente da Aepesc, teme o futuro das instituições: “corre o risco de desaparecer todo um segmento”. Para ele, é necessário que haja incentivo financeiro dos municípios para a manutenção das creches.
De acordo com Calegari, 90% das creches particulares só não decretaram falência por ações do governo federal que permitem a redução do salário e jornada, e suspensão dos contratos de trabalho. “A sua grande maioria são instituições pequenas, que não trabalham com fluxo de caixa. A pandemia impactou bastante, nós estamos com o faturamento praticamente zerado”, afirma.
Além das medidas financeiras, a Aepesc, pede que sejam avaliadas a autorização para atendimentos alternativos para os alunos e aplicação de cursos livres. Outra ação solicitada é a regionalização da decisão pelo retorno ou não das aulas.
“O governo do Estado não tem responsabilidade nenhuma sobre a educação infantil, cabendo aos municípios, mas ele proibiu. Então o prefeito, que é a pessoa que tem que gerir e regulamentar o ensino infantil, não tem o direito de saber se na sua cidade é possível ou não. Isso tem nos prejudicado bastante”, diz Calegari.
As aulas em Santa Catarina estão suspensas desde o dia 19 de março.
Sem data para retorno
Por meio de nota a Secretaria de Estado da Educação afirmou que tem atuado junto aos municípios via Undime/SC (União dos Dirigentes Municipais de Educação de Santa Catarina) e Fecam (Federação Catarinense de Municípios) “para construir as decisões referentes à educação”.
“Tanto que ambas as entidades participaram da elaboração das diretrizes de retorno às aulas presenciais, documento construído com a colaboração de 15 entidades para definir sobre como deve ser a retomada. No entanto, a data depende de definição pela Secretaria de Estado da Saúde, a partir das informações do mapa da saúde”, afirma o texto.
A secretaria afirma que a partir das diretrizes estaduais, são criados planos de contingência municipais de prevenção, monitoramento e controle da disseminação da Covid-19. Esses documentos levam em conta características locais e a possibilidade de regramentos sanitários emitidos pelos municípios, além de comitês locais para definição dos protocolos específicos.
De acordo com a nota, ainda não há uma data estabelecida para o retorno das aulas presencias, que deve ser gradual e começar pelos alunos com mais de 14 anos de idade. O retorno deve ser em bloco, incluindo todas as regiões do Estado e as redes pública e privada.
“A autorização para um possível retorno das aulas presenciais do ensino infantil será feita apenas quando a Secretaria de Estado da Saúde identificar que há condições sanitárias favoráveis para essa decisão”, conclui.
Turma encerrada
No Centro Educacional Tempo de Despertar, no Campeche, a turma do berçário foi encerrada. Silene Catarina dos Anjos, 51 anos, coordenadora da educação infantil conta que em março quatro crianças estavam matriculadas na turma e que a tendência era de aumentar a procura com o avanço dos meses. “Os pais deixam as aulas começarem para visitar a escola ativa. […] A gente apostava que após o mês de março teríamos mais matrículas”, comenta.
Com a suspensão das aulas em 19 de março, o cenário foi outro. Além de perder 36 alunos já matriculados nas cinco turmas da educação infantil e pré-escola, o centro educacional teve de demitir cinco auxiliares de sala.
Segundo Silene, o esforço agora é pela manutenção dos empregos dos professores titulares e profissionais de música, inglês e educação física. “Quando o pai fez a matrícula da criança nós colocamos uma proposta de trabalho com quais profissionais iriam trabalhar. Hoje, online, nós estamos mantendo o compromisso”, diz.
As atividades online são gravadas pelas professoras em casa e enviadas aos pais por meio do Whatsapp.
Sem aulas, pais têm que conciliar trabalho e educação
A bancária Anahi Heerdt, 46 anos, teve de se adaptar à nova rotina com a filha Ana Vitória, de 4 anos e o trabalho em home office. Matriculada em uma escola particular da Capital, a menina recebe atividades da escola e precisa de ajuda da mãe para executá-las.
Anahi, que segue pagando a creche particular para a filha, relata que a criança tem tido aulas duas vezes por semana com duração de uma hora. “Eu ligo o computador e ela consegue se virar praticamente sozinha. A professora fala que é para pintar no caderno e ela segue”, comenta.
O desafio de mãe e filha será maior agora que Anahi teve de voltar ao trabalho presencial. No primeiro dia da nova rotina, Ana Vitória ficou na casa de uma vizinha que está de férias, mas ainda não tem lugar fixo para passar as tardes.
Na casa do fotógrafo Flávio Tin, 43 anos, o desafio com as aulas online era manter o filho Eduardo Fagundes Fernandes, 4 anos, entretido. “[…] percebi que ele acabava perdendo o foco e com o tempo ficou sem interesse”.
Antes da pandemia, Eduardo estudava meio período na educação infantil de instituição de ensino particular em Florianópolis. A família mudou da Capital para Balneário Camboriú e ainda não matriculou o filho em uma nova escola.
“[…] com o passar dos 5 meses, as escolas continuam fechadas e sem previsão de abrir, impossibilitando a matrícula em uma nova escola. E também não sentimos segurança nenhuma em relação à pandemia que ele volte para escola”, comenta Tin.
Em Balneário Camboriú, segundo dados da secretaria de educação, desde o início da pandemia 35 alunos de educação infantil foram matriculados na rede municipal de ensino, vindos da rede particular.
“Crianças de zero a 3 anos entram na Fila Única do município e os alunos a partir de 4 anos são matriculados obrigatoriamente. No Ensino Fundamental, foram 176 matrículas. Até o momento, a rede está comportando os novos educandos”, afirma a secretária municipal de educação, Rosangela Percegona Borba.