Gênero x profissionalismo: o estigma de profissões pouco lecionadas por mulheres

30/04/2022 às 08h05

Apesar delas representarem cerca de 60% dos estudantes das graduações brasileiras, muitos cursos superiores têm mais professores homens do que mulheres

Foto de Yasmin Mior

Yasmin Mior Florianópolis

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Aos 17 anos, Márcia Barbosa Henriques Mantelli, natural de Taubaté, em São Paulo, ingressou na graduação de Engenharia Mecânica. Cinco anos depois, ela seria a primeira mulher formada nesse curso na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

Professora sempre quis atuar na área – Foto: UFSC/Divulgação/NDProfessora sempre quis atuar na área – Foto: UFSC/Divulgação/ND

Hoje, aos 62 anos, ela é a única professora do Departamento de Engenharia Mecânica da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). No local, ela divide as salas de aula com outros 61 professores do sexo masculino. O espaço foi conquistado com muita dedicação e provação. Ela comenta que a situação já a assustou, quando ingressou na faculdade.

Entretanto, Mantelli afirma que hoje em dia tal cenário não a aflige mais.

A estatística pode impressionar ao ser lida pela primeira vez, mas o cenário atual ainda não difere tanto dos longínquos anos 1960, quando Márcia nasceu.

O caminho até às lousas do CTC (Centro de Ciências Tecnológicas) da UFSC, em Florianópolis, é claro, foi de muita luta. Márcia soube, desde que pegou seu diploma, que gostaria de seguir carreira acadêmica. Mas o percurso foi perpassado por dúvidas.

“Será que eu serei respeitada?”, foi a principal delas, como comentou Márcia. Ela diz que, durante toda sua vida, correu atrás justamente disso, com seriedade e provando sua qualidade de trabalho. Quando iniciou sua carreira docente na UFSC, em 1999, ela já trabalhava em seu ramo.

“Eu acho que criei uma casca. Aprendi a lidar desde a graduação com o fato de eu ser uma das poucas mulheres a estarem fazendo o que faço. Quando pisei na UFSC já era uma mulher calejada, já estava preparada para o que viesse”. E é assim que, durante 23 anos, ela atua na docência.

Magistério como opção de vida

Professora atua na área de computação – Foto: Andréa Sabedra Bordin/Facebook/Reprodução/NDProfessora atua na área de computação – Foto: Andréa Sabedra Bordin/Facebook/Reprodução/ND

Andréa Sabedra Bordin, de 49 anos, é mais uma entre os 2.885 servidores que atuam na UFSC. E sua história é comparável à de Márcia.

Graduada em Análise de Sistemas, ela atua como doutora em Engenharia e Gestão do Conhecimento no campus de Araranguá, onde leciona com outras cinco mulheres em sua área, dentro do Departamento de Computação, onde a maioria dos docentes é composta por 13 homens.

“Na minha área de atuação, o número de mulheres é bem menor que o número de homens. Isso ocorre tanto na indústria, como na academia onde o número de docentes e alunas é bem inferior”, comenta. Mas ela explica que nem sempre foi assim.

“Baseado na minha experiência de 30 anos como aluna e profissional da área, posso afirmar que na década de 90, por exemplo, o número de meninas na graduação era equilibrado com o número de meninos”, diz.

Ela comenta também que, quando atuou como programadora, diversas mulheres eram responsáveis pela programação de grandes sistemas.

“É fato que esse cenário foi mudando com o decorrer dos anos, com um menor número de mulheres entrando nos cursos de computação e, consequentemente, ingressando no mercado de trabalho”.

Ela cita que, no Brasil, mais de 60% das graduandas são mulheres. Apesar do número expressivo, apenas 5% delas escolhem a área de ciências da computação. O mesmo ocorre com a área de engenharia, onde Márcia atua.

Dados do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia, divulgados em 2021, mostram que há 183.601 mulheres na profissão. O dado equivale a 19% do total, visto que o restante é representado pelos 793.759 homens que atuam na área.

Com isso, a dúvida que fica é: qual seria o motivo para que as mulheres não ingressem até hoje em ambos os departamentos?

Profissões estereotipadas

O levantamento mais recente feito pelo Observatório UFSC, em 2018, mostra que 53,8% dos alunos da universidade são mulheres. Outros 46,2% são homens. “A maioria delas está nos cursos de Humanas”, comenta Márcia. O fato é verídico, mas há exceções.

Angélica atua como professora de fotojornalismo em Chapecó – Foto: Angélica Lüersen/Facebook/Reprodução/NDAngélica atua como professora de fotojornalismo em Chapecó – Foto: Angélica Lüersen/Facebook/Reprodução/ND

Em Chapecó, no Oeste catarinense, a professora de fotojornalismo, Angélica Lüersen, de 38 anos, é uma entre as duas mulheres que dão aula no Departamento de Jornalismo da Unochapecó (Universidade Comunitária da Região de Chapecó).

Com mestrado na área, Angélica atuou durante quatro anos como coordenadora do curso, mas, em 2021, a mulher que é natural de Concórdia, requisitou a troca para as salas de aula, pois acredita que o compartilhamento de informações entre alunos e docente “é muito rico”.

Mesmo com a preferência, ela comenta que sempre houve uma disparidade na área. Na Unochapecó, atualmente, há cinco professores homens lecionando no curso. “Temos uma presença masculina maior, sobretudo nos cargos de gestão”, diz.

Para ela, o próprio fotojornalismo é um lugar onde ainda há muito mais homens do que mulheres.

“É bem curioso observar isso, pois num dos trabalhos que fiz, do campeonato de futebol feminino de um determinado time, a arbitragem comentava que era legal o fato de mandarem uma fotógrafa mulher, porque sempre iam apenas homens fotografar a partida”.

A observação entra, inclusive, na concepção errônea de que “esporte é lugar de homem”, que vem sendo cada vez mais derrubada pela presença feminina na área. Mesmo assim, Angélica conta que já percebeu descontentamentos alheios por conta disso.

“A gente sofre nesses ambientes, mas é de uma forma velada ainda, nunca é dito explicitamente”, desabafa. Isso é sentido tanto fora quanto dentro das salas de aula. Mas a jornalista acredita que “caminhamos em direção a uma mudança positiva nesse sentido”.

O mesmo, entretanto, ainda não pode ser dito por Márcia e Andréa.

Com uma rápida pesquisa pelos cursos ofertados no CCE (Centro de Comunicação e Expressão) da UFSC, é notável que a ampla maioria do corpo docente das graduações dos cursos de Letras, por exemplo, são mulheres.

Enquanto isso, nas graduações da área de exatas, ocorre o inverso. E o mesmo acontece entre os alunos.

Márcia comenta que, em uma classe que ministra com cerca de 40 alunos, apenas cinco são mulheres. O cenário, apesar de já ter melhorado significativamente ao longo dos anos, ainda gira muito em torno de pré-conceitos que se têm com as profissões.

“Quando você pensa em mecânica, o que vem na sua cabeça?”, ela pergunta. A resposta, como ela diz, é quase sempre a mesma.

“As pessoas imaginam mãos de mecânicos. Cheias de graxa, sujas. Mas não é isso”. Ela explica que a Engenharia Mecânica não se baseia neste estereótipo, e que até mesmo ela, que possui mais de 180 artigos publicados, não saberia trocar o motor de seu carro se precisasse.

“Eu teria que chamar o guincho, como qualquer um”, brinca. O pensamento é partilhado por Andréa.

Velhos estereótipos

“Estereótipos e falta de modelos de referência, bem como questões socioculturais têm sido apontados por pesquisas em diferentes países como causas que afetam diretamente o desenvolvimento de interesses de mulheres pela área”, comenta.

Ela cita ainda que o estigma mais recente é de que leciona um curso para homens, o que acredita não ser verdade. “O mercado de tecnologia tem uma demanda crescente por profissionais, independentemente de gênero”, exemplifica.

“Com a pauta da diversidade nas organizações e as diversas ações que visam estimular o interesse de meninas pela área de computação, eu sou otimista e penso que o cenário vai mudar, no entanto isso vai acontecer de forma gradual”, aponta.

Márcia também acredita que devemos buscar mais igualdade no trabalho. “Em todos os lugares que trabalhei, havia muita competição entre as mulheres, por serem poucas e precisarem mostrar o seu trabalho”.

“Essa politização mais divide do que constrói. Devemos lutar juntos para conquistar nosso espaço, e não contra. Com isso teremos mais mulheres interessadas no mercado e iremos conseguir derrubar os estereótipos que cercam a profissão”, conclui.

Afinal, os gêneros não definem o profissionalismo de nenhuma área, principalmente as acadêmicas.

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