Grupo de pais do Colégio de Aplicação exige retorno imediato das aulas presenciais

Pais relatam que filhos estão com defasagem no aprendizado e desenvolvendo doenças emocionais pela falta de convívio com os outros colegas

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Ian Sell Florianópolis

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Um grupo de pais de crianças do Colégio de Aplicação da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), intitulado Pais pelo Aplicação (no Instagram), exige o retorno imediato das aulas presenciais na instituição de ensino. O local, há cerca de 15 meses, adota apenas o método de aulas de maneira remota.

A reportagem do ND+ ouviu seis desses pais. A identidade deles será preservada a pedido dos mesmos.

Colégio está em atividades remotas há 15 meses – Foto: CA/Divulgação/NDColégio está em atividades remotas há 15 meses – Foto: CA/Divulgação/ND

Entre as reclamações do grupo, eles alegam que as aulas diárias são curtas, a qualidade de ensino remoto diminuiu, crianças estão adoecendo pela falta de convívio com as demais, tendo dificuldade de aprendizado e que há “pouco diálogo do colégio com os pais”.

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A primeira mãe relata que o filho, de 7 anos, entrou no colégio no início de 2020. Houve a paralisação das aulas naquele ano, devido à pandemia da Covid-19, retornando em julho, totalizando quatro meses sem atividades. Apesar disso, foi possível terminar o ano letivo.

Em função da idade da criança, ela relata que o horário das aulas tem sido reduzido devido à questão de “exposição a tela do computador”. “Hoje ele tem 45 minutos de aula por dia. Cinco aulas por semana, apenas duas de educação geral (português, matemática e ciências) e outras três: uma de artes, uma de educação física e outra de libras”, conta a mãe.

Ela alega que o conteúdo passado nas aulas não tem sido o suficiente e que o filho está “com praticamente 8 anos sem saber ler”.

“Contratei professora particular faz uns três meses. Ele não queria participar das aulas on-line, não queria ligar a câmera. Às vezes a professora passava uma atividade e quando eu ia ver, ele dizia que não sabia o que estava acontecendo”, conta.

A expectativa dos pais é que haja o retorno das aulas presenciais em outubro de 2021. Eles ainda alegam que haverá um período de férias letivas no início de julho de 30 dias. “Para completar o horário de aulas do ano, estão tendo uma aula por mês no sábado”, explica a mãe.

“As crianças não estão gostando da escola, do método de estudo. Hoje eles [escola] definem aulas síncronas [remota oferecida pela professor] e assíncronas [atividades que passam pros pais realizarem com as crianças, é considerada hora-aula]”, conta um dos pais.

“A quantidade de exercícios que vem para casa é absurdo. Ano passado eu ficava  duas, três semansa atrasadas. Trabalho o dia todo, tenho outro filho pequeno. Em torno de uma hora e meia por dia de atividade. Na sala do meu filho tem mãe que é analfabeta, como uma mãe assim vai ajudar seu filho a fazer as atividades? O volume é muito maior do que o que a professora oferece”, reclama uma das mães.

Foi encaminhada ao colégio uma carta, assinada por pais do grupo solicitando o retorno das aulas presenciais. Ao todo, cerca de 250 pais assinaram a carta, segundo relatado à reportagem.

O que diz a UFSC

O Colégio de Aplicação pertence à Universidade Federal de Santa Catarina e atende 1.110 alunos dos ensinos fundamental e médio que estão sem aulas presenciais desde o início da pandemia.

Em contato com a reportagem do ND+, o chefe de gabinete da reitoria da UFSC, professor Áureo Moraes, descartou o retorno imedato das aulas presenciais. “Apenas após a segunda dose da vacina vamos considerar se e como isso [volta presencial] pode ocorrer”, explica.

“Nosso município ainda não tem uma porcentagem de vacinados que garanta a segurança de todos, pais, responsáveis, profissionais e principalmente dos estudantes. Por isso, voltar às aulas presenciais na atual conjuntura é colocar profissionais, estudantes e todas as pessoas envolvidas na rotina da escola em risco”, ressaltou a instituição em nota.

Vale ressaltar que o governo de Santa Catarina liberou as aulas presenciais no Estado, podendo acontecer também de maneira híbrida (virtual e presencial).

>> Veja a nota na íntegra

Uma live no canal do colégio no YouTube acontece às 19h desta terça-feira (29) para debater assuntos da instituição.

“O colégio preparou um plano de contingência, e a Comissão Permanente de Acompanhamento Epidemiológico da UFSC vai analisar e fazer as recomendações do que será indicado ser feito. O ciclo vacinal deve ser completo entre os trabalhadores do colégio a partir de agosto”, explica a UFSC.

Sobre a reclamação dos pais sobre a durabilidade das aulas e conteúdo administrado, Moraes afirmou que aspectos pedagógicos devem ser tratados diretamente com a escola, uma vez que “os planos de ensino são aprovados pelo colegiado e pelo centro de ciências da educação”.

Pais seguem as reclamações

Outra mãe alega que a filha, de 12 anos, estava esperançosa quanto a volta presencialmente das aulas em 2021, uma vez que a atividade foi considerada essencial pelo governo de Santa Catarina. Porém, com o retorno em fevereiro, com aulas remotas, ela voltou a perder o estímulo pelos estudos.

“Minha filha começou a desestimular. Ela está indo em psicóloga, não quer olhar para o computador. Quando chamo pelo nome ou peço se fez as tarefas ela não reage bem, começa a gritar, me xingar”, conta uma das mães.

“Ela só fica dentro do quarto, tampa a câmera do celular, do notebook, não quer jantar com a gente, almoçar, só come dentro do quarto. Ela nunca foi assim. A psicóloga disse que está precisando socializar”, relata.

A solução, segundo a mãe, foi entrar em contato com uma professora particular para que auxilie a filha. “As aulas vão terminar na próxima semana e ela não entregou as tarefas. Tento ajudar ela, mas ela foge, só quer ficar deitada”, conta.

“Em casa, minha filha toda hora levanta e vai pegar algum doce, fazer bolo. Ela está com a glicose muito alta. Coloquei ela em várias atividades por pedido da psicóloga, o preço e o transtorno das crianças está sendo alto. Quero tirar ela do colégio”, afirma a mãe.

Ela ainda relata que a menina tem duas aulas de 50 minutos por dia. Depois mais cerca de uma hora de atividades assíncronas. No entendimento dos pais que conversaram com a reportagem, o estudo remoto seria apenas para “quebrar um galho” por algum tempo.

“As crianças, os pais, ninguém aguenta mais. Os pais acabam não tendo tempo para auxiliar da maneira como gostariam as crianças por causa do trabalho e dos demais compromissos”, afirma um dos pais.

Falta de didática

Outra mãe relatou durante a conversa com a reportagem que não tem a “didática suficiente” para ensinar a filha, de 7 anos.

“Minha filha queria aprender a ler, eu não conseguia ensinar. Ela chorava, eu chorava junto. O material que colocavam no site da escola não tinha nenhuma explicação de como ensinar”, afirma.

“Esse ano ela não pega no lápis. Quando precisa escrever é no chat na sala de aula virtual. Como vão aprender a escrever por ali? Ela chora, bate na mesa, grita comigo. Ela era uma menina doce, tranquila e está revoltada. Precisei colocar ela em uma escola de contra-turno para ela poder socializar com outras crianças”, explica a mãe.

Para resolver o problema com a filha, a mãe entrou em contato com o colégio e afirmou que ela não irá assistir as aulas em alguns dias na semana porque estará indo nessa outra escola. A mãe diz estar desmotivada e pensando em tirar a filha da escola.

Depoimentos

“A escola faz falta. Eles querem brincar, ver outros colegas, os professores. Meu neto de 8 anos diz que tem saudade da convivência”, afirma a avó de outra criança que estuda no local.

“Ele olha para o parquinho do colégio quando passamos na frente do local e diz: que saudade dos pneus para a gente pular, do parquinho, dos amigos, da sala de vídeo-game”, conta a avó.

Para ela, a maior dificuldade está em auxiliar a criança nas tarefas devido a rotina corrida. “Ele [neto] até faz tudo, é muito comportado. É difícil para mim que sou avó, e já faz muito tempo que estudei, auxiliar ele da melhor forma como seria com um profissional de educação”, afirma.

Outra mãe de uma aluna do ensino médio, de 14 anos, diz que a filha está com déficit em matérias como física, matemática, biologia, química e português. Foi necessário pagar um professor particular para que houvesse um reforço de conteúdo.

“Ela fica ansiosa, come só por ansiedade. Ela me pede: ‘mãe, me coloca em um colégio onde eu possa ir’. Não quero tirar ela de lá, eu sei que é um colégio que pode melhorar, sempre foi referência, mas hoje, não está largado”, afirma.

Outra mãe relata que a filha, de 10 anos, está com autoestima baixa e desanimada com a situação. “É pijama o dia todo, não toma banho, escova os dentes. Ela diz: ‘para que eu vou me arrumar para ficar em casa?'”, relata.

A preocupação maior veio no momento em que a mãe recebeu um e-mail da escola alegando que a filha não estava fazendo atividades desde o mês de fevereiro. “Ela [filha] me dizia que estava fazendo. Perguntei para a escola porque vieram me avisar isso só agora, meses depois”, conta.

Férias em julho

Entre as principais reclamações dos pais e responsáveis está a situação do recesso das aulas entre 1º e 30 de julho. Eles enviaram um e-mail a instituição para entender o motivo das férias, que normalmente eram de 15 dias no meio do ano.

Calendário escolar apontando as férias em julho – Foto: ReproduçãoCalendário escolar apontando as férias em julho – Foto: Reprodução

Em e-mail, a instituição respondeu que se fez necessário um cumprimento de uma exigência trabalhista do período de 15 dias de férias em julho de 2020 dos docentes, uma vez que eles não tiveram esse período em 2020 em decorrência da situação da pandemia que mudou completamente o ano letivo no ano passado.

E-mail da instituição aos pais explicando o período de recesso – Foto: ReproduçãoE-mail da instituição aos pais explicando o período de recesso – Foto: Reprodução

Os responsáveis reclamam que não há um diálogo com a instituição de ensino sobre debates para o calendário letivo. “Os alunos já estão desanimados com essas aulas on-line. Imagina se pararem por mais 30 dias? O tamanho da defasagem no aprendizado será enorme”, questiona uma das mães.

Outra queixa de uma mãe é o fato do colégio fazer o uso da linguagem neutra nos comunicados às famílias. “Já está proibido o uso dessa linguagem neutra, lei 356/2020 aprovada na Alesc (Assembleia Legislativa de Santa Catarina)”, pontua.

Comunicado com linguagem neutra aos pais dos alunos – Foto: ReproduçãoComunicado com linguagem neutra aos pais dos alunos – Foto: Reprodução

Questionado sobre o tema, Moraes afirmou que, quanto à linguagem neutra, a instituição julga irrelevante qualquer comentário. “A preocupação deveria ser com o preconceito, o ódio e a discriminação”, avalia.

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