Historiadores repudiam declaração de Nereu Pereira em entrevista ao ND

Historiador de Florianópolis defendeu ataque à livraria durante a Ditadura Militar

Rosana Rita Florianópolis

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Reportagem assinada pelo jornalista e colaborador do Grupo ND, Paulo Clóvis Schmidt, publicada na edição impressa do jornal ND do fim de semana de 3 e 4 de junho de 2023, com o economista e historiador Nereu do Vale Pereira, na qual ele recorda episódio de incêndio a uma livraria na Capital, ocorrido em 1964, logo após o Golpe Militar, teve enorme repercussão. Pereira assume ter participado do ataque à Livraria Anita Garibaldi, do escritor Salim Miguel, e assume que faria novamente.

Nereu Pereira, de 95 anos, é ‘enciclopédia’ de Florianópolis – Foto: Leo Munhoz/NDNereu Pereira, de 95 anos, é ‘enciclopédia’ de Florianópolis – Foto: Leo Munhoz/ND

“Acho que foi um equívoco histórico que podia ter sido evitado”, disse o historiador de 95 anos, justificando que a livraria era um centro de difusão de ideias marxistas e, em sua avaliação, contra os interesses do Brasil. “São embates políticos e ideológicos que deixam marcas, mas que não duram a vida toda. No entanto, eu faria tudo de novo.”

Diante da declaração de Pereira, o historiador, escritor e proprietário da Humana Sebo e Livraria, Fernando Boppré, e o historiador e professor da UFFS (Universidade Federal da Fronteira Sul), Ricardo Machado, emitiram uma nota em repúdio à sua fala.

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“Pessoas como Nereu do Vale Pereira só se sentem à vontade para se declararem assim, sem qualquer remorso, porque seus crimes não foram julgados. Assim como os agentes do Estado brasileiro que torturaram, mataram e perseguiram pessoas, ele e os outros que fizeram parte desta turba extremista nunca responderam criminalmente pelos seus atos. Só por sua impunidade de ontem que hoje, às claras, em pleno jornal de domingo, vilipendia a memória, justificando a destruição de um dos mais relevantes espaços de cultura da década de 1960, frequentada por artistas e livre-pensadores(as) de todo o Brasil”, diz a nota.

“É lamentável que um sócio emérito do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, membro de dezenas de instituições históricas e culturais, venha a público, em uma entrevista jornalística, manifestar que não se arrepende de ter ateado fogo aos livros da Livraria Anita Garibaldi.

Os autores também lamentam que ele tenha declarado que “as discussões sobre o Contestado são mero saudosismo, ignorando novos documentos e novas interpretações. “Ele, apesar de se intitular historiador, desconsidera a necessidade de permanente discussão sobre os acontecimentos do passado, sob a ótica de novos documentos e novas interpretações”, finalizam.

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