Na rima: conheça a estudante de Florianópolis que é destaque nas batalhas de rap

Seja para expor os pensamentos ou sentimentos, é por meio do rap que Marina Cordeiro dá vida ao desejo de mudança; confira a trajetória da adolescente na música

Ana Caroline Arjonas Florianópolis

Receba as principais notícias no WhatsApp

Existem estilos musicais que são característicos e podem ser reconhecidos nos detalhes. Seja pela batida do grave, do toque ou no estilo das roupas, o rap é um desses gêneros, fácil de ser identificado.

A jovem participa de batalhas de rap desde 2021, expondo pensamentos e críticas sociaisA jovem participa de batalhas de rap desde 2021, expondo pensamentos e críticas sociais – Foto: José Somensi/Divulgação/its Teens

Com forte influência em comunidades, grande parte dos artistas e rappers têm algo em comum: o desejo de fazer das insatisfações o combustível para transformar as palavras em rima.

Se os dilemas retratados em “O mensageiro”, do RZO e “A vida é desafio”, dos Racionais MC’s, conversaram com tantos, o que prevalece é a afinidade para debater, em muitos casos, assuntos difíceis, expondo aquilo que faz parte da rotina — seja na própria trajetória ou daqueles que fazem parte do convívio diário.

Faça como milhões de leitores informados: siga o ND Mais no Google. Seguir

O desejo de compreender os sentimentos e fases da vida também foi motivação para Marina Cordeiro, 14, estudante da EBM (Escola Básica Municipal) Tapera — Escola do Futuro.

A preferência pelo estilo musical começou ainda na infância. Acompanhando as influências familiares e com vontade de estreitar os laços com o irmão, que vivia em outro Estado, foi na música que a adolescente encontrou uma oportunidade para desenvolver afinidades. “Minha forma de demonstrar carinho por ele era conhecer o que ele gostava”, conta a estudante.

Foi em 2021 que o primeiro desafio surgiu: a participação em uma batalha de rap. No estilo “conhecimento”, o trajeto até o Centro, palco do primeiro confronto, foi marcado pelo nervosismo.

Porém, a participação foi a confirmação de um desejo que seria intensificado nos anos seguintes: a vontade de viver do rap.

Desde então, a presença da jovem é garantida em alguns confrontos na ilha, como na Batalha da Alfândega (Centro) e Mangrove (Tapera) — nesta última, ela é uma das incentivadoras do movimento que fixou o rap no bairro.

Mais do que o conhecimento dos termos, é preciso compreender o mundo para produzir as rimas, afinal, muitas são criadas na hora da disputa.

Para treinar a habilidade com a música e melhorar a fala e o fluxo, os encontros com os amigos acabam sendo a oportunidade de conversar sobre a realidade, as insatisfações e aquilo que, em muitas situações, é o incentivo para continuar rimando: vivências, frustrações e problemas sociais.

“Eu sinto que quando eu falo sobre revolta ou qualquer outra coisa, eu estou demonstrando coisas que as pessoas não podem falar, mas sentem, sabe? E também eu estou dando oportunidade para outras pessoas quererem falar, mas, se elas não quiserem, elas sabem que o que eu faço já vai estar mudando a vida delas”, declara a estudante.

Se no início a proximidade com o rap foi uma alternativa para se conectar com outras pessoas, como o irmão, hoje é com o lápis – ou com o microfone – que Marina consegue conectar-se consigo mesma, dando espaço para novas sensações.

Marina começou com a poesia, mas foi a partir dos versos que teve coragem de se aventurar no rapMarina começou com a poesia, mas foi a partir dos versos que teve coragem de se aventurar no rap – Foto: José Somensi/Divulgação/its Teens

“Eu nunca tinha falado sobre amor, e não é nem sobre relacionamento, eu nunca tinha falado sobre nenhum sentimento além de ódio e frustração. E eu falei: ‘eu posso juntar isso com amor’. Comecei a escrever recentemente e está sendo bastante sobre amor, e entendendo que talvez nem tudo seja ruim na vida”, explica Marina.

Dando voz a aflições e angústias, aquilo que começou como poesia e ganhou notoriedade no rap foi uma forma de descobrir sentimentos e insatisfações que são compartilhadas.

“Eu já fiz gente chorar. Quando eu fiz alguém chorar com a minha poesia foi uma das experiências mais marcantes pra mim”, explica a rapper.

E o retorno extrapola os confrontos, já que a turma na escola apoia e incentiva o talento da adolescente, seja acompanhando as novas composições ou a participação nas batalhas do bairro.

“Eu acho que quem realmente fez minha trajetória junto comigo é quem está do meu lado”, pontua a estudante.

Mas o retorno dos mais próximos também fica evidente, como é o caso do irmão. “Ele parou de rimar, ele não vive mais do rap, só que ele se orgulha muito de mim.”

Se por um tempo o rap foi uma forma de procurar um refúgio para os sentimentos, hoje é o guia para os próximos anos.

Com o desejo de seguir pelo caminho da música, o que desperta a vontade não são os bens ou status, mas a vontade de fazer aquilo que vem acompanhado de significado.

“Não sei se vou ter a melhor vida, não sei se vou ter dinheiro para comprar a roupa que eu quiser, fazer o que eu quiser. Só que eu sei que o dinheiro da comida e da passagem eu vou ter, e eu vou conseguir voltar da batalha”, finaliza a estudante.

Lápis e microfone: assim nasce a “Vennus”

A estudante vê no rap uma maneira de expressar seus sentimentos e dar voz aqueles que não podem falarA estudante vê no rap uma maneira de expressar seus sentimentos e dar voz aqueles que não podem falar – Foto: José Somensi/Divulgação/its Teens

Além do nome Marina Cordeiro, no rap a artista também é conhecida como “Vennus” (nome artístico). A escolha, no início, foi pelo planeta Vênus, mas o conceito foi ressignificado com a deusa da mitologia romana, fonte do amor e da beleza.

O que começa no papel, com a criação das poesias, quase sempre acaba conquistando aqueles que escutam ou leem — a garota coleciona uma lista extensa de participações nas batalhas, quase sempre chegando até a final.

No rap local, as influências são Sofia Mc, Travis, Dre, XNK, Lunelli, Manjami e P3X. No cenário nacional, Racionais MC’s, Sabotage, Pecaos,Baco Exu do Blues, Djonga e Mc Luanna são os exemplos.

Entre as memórias está a declamação de poesias na Assembleia Legislativa de Santa Catarina, com um poema sobre Antonieta de Barros, no aniversário de morte da professora e jornalista — momento dividido com o Slam Cruz e Sousa.

Além de organizar o “Movimento Mangrove”, com foco em levar a cultura de rua para a Tapera, com rap, hip-hop, samba, funk, outra iniciativa é o  “Cores de Aidê”, bloco formado por mulheres e que evidencia a importância feminina na cultura.

O “rolê” também é delas

Assim como em outros segmentos, aquelas que fazem parte do rap, como Marina, sentem que o ambiente ainda não é tão receptivo para as mulheres.

Por mais que a presença feminina esteja nas batalhas, cenário diferente de quando o estilo chegou ao Brasil, ainda é preciso entender que o feminino é importante para o desenvolvimento da arte, da música e da própria cultura.

“Uma ‘mina’ começando eles têm certeza do fracasso. Em qualquer lugar pode ter certeza que vão ter certeza do seu fracasso”, explica a rapper.

Mais do que superar a visão que outros podem ter daquelas que estão nas batalhas, é preciso que as mulheres entendam que a rua é de todos, independentemente dos sonhos, do estilo ou da personalidade.

Batalha de dupla, conhecimento ou kick back?

Se engana quem pensa que existe apenas um tipo de batalha. Com o foco em produzir as melhores rimas sobre assuntos do cotidiano, cada criação é moldada de acordo com o modelo e com a organização dos encontros.

Confira alguns dos modelos existentes:

  • Batalha do conhecimento: o público escolhe um tema e o MC tem alguns segundos para rimar;
  • Batalha de sangue: aqui os artistas fazem o famoso “ataque”, momento em que um retruca o outro;
  • Batalha kick back: funciona no modelo pergunta e resposta;
  • Batalha de dupla: o confronto pode acontecer de forma cruzada — um começa, alguém da dupla responde, a primeira dupla retruca e a última tem o direito de responder.

Tópicos relacionados