A SED (Secretaria Estadual de Educação) interditou nesta segunda-feira (19) a escola estadual Júlio Da Costa Neves, na Costeira do Pirajubaé, em Florianópolis. Rachaduras e a abertura de pequenas crateras no entorno do refeitório, do auditório e no pátio, mostram que o chão está cedendo – como um “afundamento” no solo. A causa ainda é investigada.
A arquiteta Alithea Corrêa tenta a transferência de quatro sobrinhos. Ela acredita que os problemas da escola estão na fundação – Foto: Leo Munhoz/NDO uso parcial da escola, restrito aos prédios de aula, foi recomendado pela Defesa Civil de Florianópolis desde que o pátio seja isolado com obstáculos físicos, como tapumes e grades.
O auditório deve permanecer interditado. Mas a retomada, ou não, será considera após outra perícia técnica, ainda em fase de contratação pela SED.
SeguirDependendo do laudo, a pasta considera duas possibilidades. Se a investigação concluir que a escola ainda tem condições de atender a comunidade, será optado por uma reforma. Caso contrário, a opção é construir uma escola modular.
“Antes dessa perícia, não será feita nenhuma intervenção”, informou a SED. A previsão é que os alunos só voltem presencialmente em 2022.
Problemas não são novidade
Os problemas estruturais não são novidades na instituição. Fundada em 2014 e orçada em R$ 7,18 milhões, reparos foram feitos em 2016 e 2018. É devido a falta de obras que apenas o setor administrativo comparece presencialmente, desde quando as aulas presenciais voltaram, em fevereiro.
Desde então, os quase 900 alunos comparecem a cada duas semanas. De quinze em quinze dias, retiram as atividades. Quem recebe o benefício, pega um kit alimentação uma vez ao mês. Ambas entregas continuarão normalmente, assegura a SED.
“Afundamento” da obra é perceptível com a abertura de crateras e fissuras no chão – Foto: Leo Munhoz/NDInsegurança
Alithea Andreoli Corrêa esteve na instituição na tarde desta segunda, para providenciar a papelada para a remoção de quatro sobrinhos – dois alunos do 6º ano, uma terceira do 9º e outro do primeiro ano do ensino médio. A família é natural do Mato Grosso, e os jovens estudam na Júlio da Costa Neves há dois anos.
“Não há como isolar só uma parte da escola, sendo que há alunos do primeiro ano do ensino básico ao terceiro”, afirmou, em resposta a alternativa proposta pela Defesa Civil. “É muito triste ver uma baita escola dessa ser mal feita”, lamenta.
A tia rodou a cidade e achou vaga em uma escola da Tapera. Também arquiteta, ela desconfia que a raiz do problema esteja na fundação da obra – a estrutura inicial, primeira a ser construída e que sustenta o prédio, que não teria sido fixada em rocha. Um dos indícios é a presença de rachaduras diagonais no prédio, vistos em diversos pontos da edificação.
A mãe Daisy Pereira, junto a outros pais, organizam manifestação para esta sexta-feira- Foto: Leo Munhoz/NDDenize Medeiros, mãe do João Marcelo, do 6º ano, pediu a transferência já na última semana. O filho agora estuda na escola do Porto, no Rio Tavares.
“Tem muitos pais que estão reclamando que os alunos não estão aprendendo nada. Muitos deles não tem acesso à internet para aprender, tem muitas famílias carentes. O estudo fica defasado”, argumenta.
Daisy Lucia Pereira, mãe do filho Enzo, de sete anos, prepara uma manifestação para sexta-feira. “Nossa reivindicação é que a escola seja demolida, e que o governo ceda um espaço de terra firme para nossos filhos estudar”, afirma. “Se voltar presencial, não mando meu filho”.
Desde 2019, o venezuelano Eric Balebona tem dois filho matriculados no quarto e sexto ano.”A situação é muito ruim, é um grupo muito grande de alunos procurando outras escolas”, lamenta.
“Os professores falavam que os problemas eram antigos. Tinha buracos na parte central da escola. Mas ninguém sabia que era tão grave”, afirma.
Segunda escola interditada
A pouco mais de um quilômetro fica a escola municipal Anísio Teixeira, construída na mesma área aterrada. Após inúmeros reparos, engenheiros identificaram que a escola sofria infiltração, o que provocava inúmeras rachaduras e comprometeu o vão central. Em 2019, a obra foi interditada. Não há mais como utilizar a construção, nem mediante reparo.
A Prefeitura de Florianópolis pretende construir a nova escola ao lado da Creche Hassis, que fica no mesmo. No momento, a Secretaria Municipal de Educação aguarda que a União libere o uso do terreno. Não há previsão para a conclusão das obras. Hoje os 440 estudantes estudam em escolas nas redondezas e recebem auxílio-transporte do município.
Presidente da Amocop (Associação de Moradores da Costeira do Pirajubaé), Sandra Maria Raimundo lamenta mais essa interdição. “Com a pandemia, teve tempo para fazer reforma. Tem que retomar aulas, mas como fazer isso? O Estado terá que fazer alguma coisa para que os pais se sintam confortáveis para mandar os filhos para as escola. Os próprios professores estão com receio”.