Retorno às aulas presenciais na UFSC expõe sequelas do descaso histórico

Enquanto a administração da UFSC previa que os tempos de incerteza da pandemia impulsionariam uma revolução na universidade, a realidade aponta para o declínio no prestígio da universidade

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Redação ND Florianópolis

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Era junho de 2020. A pandemia do coronavírus assustava o mundo e impunha uma série de desafios à sociedade. O ensino, sobretudo, sofria consequências que teriam impacto severo na formação de crianças e jovens, no Brasil e no mundo.

De portas fechadas e com alunos à deriva, a UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) dizia vislumbrar na conjuntura sanitária uma perspectiva positiva que poderia resultar na revolução do ensino tradicional.

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    UFSC em seus primeiros dias de volta às aulas de maneira presencial - Leo Muñoz/ND
    UFSC em seus primeiros dias de volta às aulas de maneira presencial - Leo Muñoz/ND
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    Retomada presencial das aulas na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) - Leo Muñoz/ND
    Retomada presencial das aulas na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) - Leo Muñoz/ND

A UFSC usaria os tempos de incerteza para planejar um futuro alvissareiro. Era o que dizia ao ND àquela época o chefe de gabinete da Reitoria, Áureo Moraes:

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“A UFSC nunca mais será a mesma. Esse modelo de professor em sala de aula é milenar. Vai mudar. O que esse período está nos revelando é um modelo diferente.”

No médio prazo, prometia-se uma grande transformação. “Estamos pensando, ao fim e ao cabo, em um novo modelo de funcionamento da universidade”, insistia Áureo, hoje no mesmo cargo.

Passados dois anos, a UFSC retomou as aulas presenciais na semana que passou. Na quarta-feira, Victor Klauck, mestrando em relações internacionais na instituição, postou na internet: “três dias de UFSC presencial: mato e caminhos improvisados por todo lado; cantinas fechadas; reitoria quer acabar com a feirinha”.

O futuro utópico, no qual as duras lições da pandemia construiriam uma universidade mais preparada, reverteu-se em uma distopia na qual máscaras passam a ser obrigatórias nos campi e a vida ali é um retorno ao passado recente (e já superado) das restrições mais severas da pandemia.

Descolada do entorno, a UFSC se encerra em sua própria bolha. A apatia com que a instituição atravessou os últimos anos diminuiu consideravelmente o interesse dos jovens pela instituição — como se percebe na queda contínua de inscritos nos últimos vestibulares — e põe em xeque sua preeminência e seu retrospecto histórico, que orgulham gerações de catarinenses.

Todos de máscara e fora da realidade

Os primeiros dias de retorno às aulas presenciais revelam a dolorosa consequência da demora da universidade em retomar a normalidade: o aumento na dissociação da instituição com a realidade que a cerca.

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    Manutenção da universidade foi um dos pontos apontados - Leo Munhoz/ND
    Manutenção da universidade foi um dos pontos apontados - Leo Munhoz/ND
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    Prédio da UFSC carece de manutenção e os alunos já alertaram isso - Leo Muñoz UFSC (4)
    Prédio da UFSC carece de manutenção e os alunos já alertaram isso - Leo Muñoz UFSC (4)

Um exemplo: a professora Alexandra Boing, epidemiologista, saudou as regras rígidas impostas à comunidade acadêmica com um post de seus alunos em aula na segunda-feira, seguido da afirmação:

“Na minha sala, todos alunos de máscara (maioria com PFF2), tentamos manter distanciamento físico, todas janelas e portas ficaram abertas, monitoramos o CO2 da sala e todos vacinados!”

Na mesma rede social, no entanto, alunos da UFSC combinavam as festas que ocorreriam na semana no campus da Trindade, sem máscara, com aglomeração e desconto na venda de cachaça: “confirmado o rolê na UFSC?”, perguntava um.

Na aula da professora Alexandra, porém, a realidade escancarada do mundo era um detalhe diante da alegria com os níveis de CO2 (dióxido de carbono) naquela sala. Nas palavras da educadora, “tivemos uma ventilação adequada no ambiente, mais uma camada de proteção para manejar o risco. Evidências científicas sendo aplicadas!”, celebrava Alexandra, enquanto um aluno em outro lugar festejava nas redes: “primeiro dia de aula presencial e beijei 8 lindas mulheres, eu te amo UFSC”.

Encontros nos bares são “o retorno que deu certo”

O mundo já dispensa máscaras. Mas a UFSC não só obriga seu uso, como adiciona subitamente ao desgastado glossário da pandemia o parâmetro do nível do dióxido de carbono nas salas de aula, juntando-o à enxurrada de indicadores que, à luz de interpretação própria da universidade, vão permitir ou não interação presencial entre alunos e professores.

Em mensagem de boas-vindas, o reitor Ubaldo Cesar Balthazar disse que a retomada das aulas ocorria “depois de muito planejamento, muitos esforços, muito reinventar”. Uma aluna veterana tinha outra visão: “o retorno ao presencial da UFSC tá horrível. A única instituição que tá dando certo é o retorno dos hh e open bar”. “Hh” são os happy hours (os encontros dos alunos nos bares), que também voltaram, com as aulas.

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    Evento da UFSC - Instagram/Sintufsc/Divulgação/ND
    Evento da UFSC - Instagram/Sintufsc/Divulgação/ND
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    Eventos frutos da volta às aulas - Instagram/Sintufsc/Divulgação/ND
    Eventos frutos da volta às aulas - Instagram/Sintufsc/Divulgação/ND

“Neste momento de retomada, é hora de agradecer por todo o trabalho dos nossos docentes e técnicos-administrativos, que inovaram, se adaptaram, e agora mais uma vez ressignificam suas rotinas para estarem aqui na universidade”, disse também o reitor, enquanto outro aluno usava a internet para extravasar: “Dois anos sem hh na UFSC e eu não esperava menos do que ontem”, referindo-se à festa da última quarta-feira.

A forma como a universidade reagiu à pandemia isolou-a em uma realidade paralela como se habitasse outra dimensão. A maneira como retomou o ensino presencial, com regras draconianas e anacrônicas, indica uma insistência preocupante em ignorar a vida real e desconsiderar as estatísticas que, por si, revelam o declínio no prestígio da universidade.

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