Nem só de jovens é feita a Educação de Jovens e Adultos (EJA) de Florianópolis: a terceira idade também marcam presença – e os dados do Departamento de Educação de Jovens e Adultos da rede municipal da Capital são prova disso, já que 103 pessoas com mais de 60 anos estão nas salas de aula.
Terceira idade marca presença nas salas de aulas em Florianópolis – Foto: Ana Caroline Arjonas/Divulgação/Educa SCO desejo de aprender e a interação social são os principais ganhos que fazem diferença no que será aprendido e nas vivências divididas com a turma – seja por meio da pesquisa, da leitura ou da escrita.
Animação, disposição e o desejo pelo conhecimento são características dos estudantes do Polo Avançado EJA-NETI-UFSC. Com idades diferenciadas e trajetórias distintas, o grupo aproveita os encontros para compartilhar conhecimentos.
SeguirAssim como nos demais núcleos e polos, as turmas são divididas em primeiro e segundo segmento. Entretanto, a principal diferença está no espaço, que acolhe exclusivamente para os idosos – fator que favorece a convivência com os demais e a permanência.
O ambiente é tão importante que existem aqueles que não querem mais sair, como é o caso de Adelia Domingues Garcia da Silva, 87. Frequentadora há mais de oito anos, a artesã não perde a oportunidade de conviver com as colegas e as professoras.
“Eu gosto de estudar de tudo. Eu aprendo, escuto. Sou uma pessoa que só não coloca direitinho as letras, mas tudo o que elas falam a minha cabeça já assimila que é aquilo”, diz a estudante.
Com habilidade para criar crochê, tricô e fuxico, a busca pela EJA nasceu por conta de um objetivo específico de “aprender a ler e escrever para fazer o meu livro”, diz Adelia.
O longo caminho até a escola e a ajuda nos trabalhos rurais foram alguns dos fatores que dificultaram o acesso à educação – e o cenário permaneceu o mesmo quando a maternidade chegou. Sem praticar, o conhecimento foi esquecido.
Entretanto, com os filhos, a história foi diferente, já que todos tiveram que estudar. “Para ser gente. Todo mundo é gente, mas se não tiver uma leitura, uma escrita, fica difícil”, comenta a idosa, que por anos só sabia escrever o próprio nome. A fala de Adelia ressalta a ideia de que o exercício da cidadania é mais efetivo para aqueles que dominam a leitura e a escrita.
Com cenários diferentes e causas parecidas, Celia Schlichting, 73, é outra que só conseguiu estudar após os 60 anos. A iniciativa de entrar na EJA partiu do marido, que sabia do desejo e da vontade dela de aprender. A última visita à escola foi com 13 anos, mas grande parte da carreira foi construída dentro da Secretaria da Fazenda.
Mas a trajetória não para por aí. “Eu vou continuar. Vou terminar o oitavo ano e depois vou fazer o Ensino Médio. Depois que não sei se vai dar tempo, acho que vai dar tempo, sim, acho que vou fazer agronomia”, conta a aposentada.
Se no caso dela a motivação veio do marido, para Jandira Rodrigues de Queiroz, 58, o passo inicial foi dado pela filha, responsável por fazer a matrícula da mãe na escola.
“Ela chegou em casa e falou: ‘mãe, te matriculei na EJA’ e eu respondi: ‘mas eu não vou estudar’. A professora Maristela me ligou e eu vim só por vir. Eu vim no primeiro ano e não gostei muito, não, mas hoje eu daria tudo para não sair daqui”, declara a estudante.
A principal conquista de Jandira é a leitura, que agora flui naturalmente. “É como se eu estivesse cega e, do nada, eu comecei a enxergar aos pouquinhos, lentamente”, descreve Jandira.
Cada um no seu processo, cada um no seu tempo
Com uma turma no primeiro segmento e duas no segundo, a equipe que acompanha o percurso formativo dos idosos precisa conhecer bem mais do que os componentes curriculares.
Compreender as singularidades do processo e proporcionar o acolhimento adequado são fatores que fazem a diferença para diminuir a evasão e impulsionar o desenvolvimento.
“Temos estudantes que ainda não estão alfabetizados, que estão há muito tempo fora da escola, e tem gente que nunca foi para a escola”, explica a articuladora Marilúcia dos Santos Marques
Pensar na alfabetização de pessoas idosas é imprescindível, visto que o cenário atual apresenta mais de seis milhões de idosos não alfabetizados em todo o país, de acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), de 2019. E isso exige uma ação reparadora do poder público e a EJA se apresenta como resposta a essa demanda.