No dia 24 de fevereiro de 2022, tropas militares da Rússia invadiram o território da Ucrânia, iniciando o conflito. É uma realidade complexa e não há tweets ou reels que consigam explicar um conflito dessa dimensão.
Os conflitos nacionais e internacionais contribuem com o aumento no número de refugiados pelo mundo – Foto: iStock/divulgação/NDÉ importante falar que, além da Guerra da Ucrânia, existem 28 conflitos armados em andamento no mundo. Em dezembro, eram 281 milhões de refugiados no mundo, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU). São conflitos graves, mas que muitas vezes não ganham a devida atenção.
História
Rússia e Ucrânia foram fundadas pelo mesmo povo, no ano 800, com a chamada Rússia de Kiev, num território que engloba também a formação de Belarus (a antiga Bielorrússia).
SeguirAo longo dos anos a Rússia cresceu, tornou-se um império e depois a União Soviética. Durante esse tempo, vários povos desenvolveram suas identidades nesse território. Com o fim da U.R.S.S., novos países foram criados, entre eles, o Estado Ucraniano em 1991 – não confundir Estado com povo.
Cultura
A religião Ortodoxa e a língua, por exemplo, são dois indicativos que mostram o quão próximas são as identidades dos povos de ambos os países, sobretudo na região Leste da Ucrânia.
De acordo com o censo ucraniano de 2001, 17,3% da população do país é de origem russa e mais de 22% falam russo. Na capital, Kiev, a língua é falada por mais de 67% dos habitantes, mas apenas 13% se consideram etnicamente russos. São relações contraditórias e, ao mesmo tempo, próximas entre os dois países.
Não à toa há relatos de falta de combatividade em alguns locais da guerra, afinal, são povos irmãos.
Posição estratégica
A Ucrânia é o segundo maior país da Europa, atrás apenas da Rússia. Seu atual território historicamente tem a influência de diversos povos: mongóis, turcos, lituanos, poloneses, sérvios, entre outros.
Na Segunda Guerra Mundial, foi alvo da tentativa alemã de avanço ao Leste, ação que culminaria na derrota nazista contra os soviéticos.
Essa posição mostra a importância de ter a Ucrânia como aliada, tanto para a Rússia quanto para os países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), formada por Estados Unidos, Canadá e mais 28 países da Europa.
E as escolhas políticas de cada governante ucraniano podem mexer com essa tensão.
Ascensão do neonazismo
Internamente, a Ucrânia está num processo de formação de identidade como país. Algumas correntes buscam maior ligação com o Ocidente; outras querem manter os laços com a Rússia. E esse cabo de guerra aumenta as tensões de um contexto que já está tenso.
Mundialmente, grupos ultranacionalistas e neonazistas têm se espalhado por toda a Europa, incluindo Rússia e Ucrânia. Esses fatos são usados por ambos os governos: o governo conservador da Rússia diz proteger o povo russo que vive na Ucrânia, os ucranianos dizem buscar a própria autonomia.
Importante vermos essas alegações com ceticismo, afinal, a propaganda também é uma arma de guerra.
Fatos históricos
Conflitos recentes – Euromaidan (2013)
Em 2014, o presidente ucraniano Víktor Yanukóvytch (ligado à Rússia) foi deposto após os protestos chamados Euromaidan. Depois veio Petro Poroshenko (nacionalista ligado à União Europeia).
Em 2019, entrou o nome tão citado atualmente: Vladimir Zelensky, com um perfil apolítico (ele era ator antes de seguir a carreira política).
Aí começam as alegações, pois os líderes da OTAN dizem que Yanukóvytch era influenciado pela Rússia. Vladimir Putin diz que a OTAN influenciou nos protestos. Para os nacionalistas ucranianos, o Euromaidan foi uma revolução; para os nacionalistas russos, um golpe.
Conflitos recentes – Crimeia (2014)
A Crimeia é um local de muitas disputas há séculos, mas ficou com o Império Russo. Na União Soviética, foi administrada pela Ucrânia. Com o fim da URSS (1991) e a independência da Ucrânia, a Crimeia foi junto.
A maioria da população é de origem russa (58% atualmente), e, após a queda de Yanukóvytch, em 2014, o governo local pediu auxílio ao país vizinho para se proteger dos grupos ultranacionalistas.
As tropas russas entraram sem autorização ucraniana. Num referendo não oficial, a população da Crimeia votou para se tornar território russo, mas o resultado não foi reconhecido nem pela Ucrânia, nem pela OTAN. Na prática, a região segue integrada ao território russo.
Os motivos de Putin
Com todo esse contexto, finalmente chegamos à Guerra na Ucrânia e os militares russos que, a mando de seu presidente, Vladimir Putin, invadiram o território de um país independente com o objetivo de mudar seu governo.
Entre motivos plausíveis e outros nem tanto, é importante considerar os porquês dessa atitude:
- Russos fora da Rússia: a Ucrânia, sobretudo no Leste, tem uma grande população russa e Putin alega que o povo não recebe proteção do governo vizinho contra preconceitos e violências de grupos neonazistas, incluindo a retirada do russo como língua oficial do país e de ensino nas escolas.
- Perdendo aliados: com o fim da União Soviética, havia um acordo de que a OTAN não se expandiria em direção ao Leste Europeu, porém, a Organização recebeu 13 novos membros da região, entre 1998 e 2017. A Rússia perde aliados históricos e teme que a Ucrânia seja a próxima, pois o país é uma importante ligação com o resto da Europa.
- Poder militar: a Rússia possui o segundo maior arsenal do mundo, por isso ter a OTAN perto não é interessante econômica e nem politicamente para o país. “Como os Estados Unidos reagiriam se colocássemos nossos mísseis na fronteira entre o Canadá e os EUA, ou na fronteira do México com os EUA?”, disse Putin, em dezembro de 2021.
- Queda de popularidade: A população russa diminuiu em 1,6 milhão de habitantes em dois anos de pandemia, o que manchou a popularidade de Putin. A população russa não cresce há 30 anos (atualmente tem 145 milhões de habitantes) e isso gera problemas econômicos ao país.
- Economia: Com todos os fatores citados acima, as perdas econômicas são grandes, afinal, Putin vê parceiros se afastarem, a indústria armamentista russa se enfraquecer, a população economicamente ativa envelhecer e o país perder força no cenário internacional.
Conclusão?
Esta não é apenas uma guerra territorial – dificilmente uma guerra é – e nesse caso mexe muito com as identidades nacionais de povos unidos há mais de um milênio.
É uma história conjunta de traumas e conflitos que são usados como justificativa de parte a parte para seus próprios interesses. É complexo, envolve questões históricas, mas também os perfis dos líderes atuais e conflitos internos.