UFSC deve completar dois anos sem atividades presenciais

Desde março de 2020 alunos da universidade estão sem aulas presenciais, situação que deve ser mantida até abril de 2022. Em meio à pandemia, instituição é alvo de críticas pela falta de planejamento

Paulo Rolemberg Florianópolis

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Era 15 de março de 2020, quando a UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) anunciava a suspensão de todas as atividades de ensino presencial a partir de 16 de março, e também o fechamento dos restaurantes universitários e a biblioteca universitária. Passados longos 18 meses, as perspectivas de retorno não são nada animadoras. A própria entidade já avisou que a previsão do retorno das aulas presenciais só ocorra em abril de 2022, ou seja, dois anos após a suspensão.

Retorno das atividades presenciais está previsto para abril de 2022 – Foto: Leo Munhoz/NDRetorno das atividades presenciais está previsto para abril de 2022 – Foto: Leo Munhoz/ND

As críticas à falta de planejamento por parte da reitoria da UFSC para o retorno das aulas presenciais vêm de alunos e professores. A universidade anunciou para 20 de setembro o retorno de setores administrativos essenciais para planejamento de retomada das aulas. Vale lembrar que não irão retornar serviços abertos ao público, como o restaurante universitário.

“Por um descuido, por um descaso, por uma falta de planejamento vem prejudicando a todos. Não é normal que uma universidade fique parada há um ano e meio, vai fechar dois anos, porque o planejamento da reitoria é só voltar no ano que vem”, disse o estudante do curso de direito, Gabriel César.

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“O planejamento da reitoria é ficar dois anos sem atividade presencial na universidade”, completou o aluno, ao lembrar que a UFSC está desalinhada com as práticas internacionais, como, por exemplo, os Estados Unidos, onde as aulas voltaram na primavera local, em março deste ano.

O professor Rafael Ary, do departamento de artes da UFSC, corrobora com a opinião do estudante de direito. Segundo ele, a falta de tomada de decisões rápidas no processo de transição das aulas remotas para presenciais prejudicou os alunos. Para Ary, o planejamento realizado pela Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina) deveria ser seguido pela UFSC.

“Se comparar o planejamento da UFSC com o da Udesc, que também é uma instituição pública, vai perceber a falta de tomada de decisões rápidas. Não tomaram decisões rápidas na hora de passar para o remoto, não tomaram decisões rápidas na hora de fazer a transição. Prejudica muito os alunos, principalmente aqueles que fazem parte de cursos que têm prática”, avaliou.

Segundo o professor, a solução do remoto foi positiva nas disciplinas teóricas nos cursos de graduação e pós-graduação, mas para os alunos de cursos como medicina, odontologia e artes cênicas, há registros de evasão.

O exemplo do IFSC

O IFSC (Instituto Federal de Santa Catarina), desde o dia 2 deste mês, tem 30% da comunidade acadêmica em aulas de forma presencial. Para isso, a região onde fica o campus precisa ter sido classificada por pelo menos 14 dias consecutivos como risco grave para a Covid-19.

Nesta fase, a prioridade de retorno é para estudantes que façam aulas de laboratório e realização de experimentos para a conclusão de projetos integradores e trabalhos de conclusão de curso, além de aulas de laboratório escalonadas, estudantes da educação de jovens e adultos ou em privação de liberdade que já completaram o ciclo vacinal.

A estrutura da UFSC

No início de 2021 a UFSC contava com um quadro de 5.481 servidores, sendo 2.527 docentes e 2.954 técnico-administrativos em educação. Dentre os docentes, 2.409 atuam no ensino superior e 118 são professores do EBTT (ensino básico, técnico e tecnológico). A expressiva maioria (89,7%) dos servidores encontra-se lotada em Florianópolis e, os demais, distribuídos nos demais campi.

Dos 118 professores do ensino básico que a UFSC possui em seu quadro, 97 lecionam no Colégio de Aplicação e 21 no Núcleo de Desenvolvimento Infantil, todos vinculados ao Centro de Ciências da Educação em Florianópolis.

Orçamento para 2021:

  • R$ 1.668.675.622
    • R$ 731.396.947 – pagamento de pessoal ativo – equivale a 44% do orçamento
    • R$ 555.054.565 – pagamento de pessoal inativo – equivale a 33% do orçamento

Fonte: base de dados da superintendência de orçamento da UFSC

O Colégio de Aplicação e o NDI

Com funcionamento remoto desde agosto de 2020, o Colégio de Aplicação e o NDI (Núcleo de Desenvolvimento Infantil) da UFSC, devem retomar ao ensino em sistema híbrido, com parte dos alunos com aulas presenciais e os demais em formato remoto, a partir do dia 20 de setembro, conforme portaria divulgada pela universidade.

As aulas não presenciais nesses dois núcleos da UFSC causaram indignação nos pais, que buscaram órgãos fiscalizadores para fazer cobrança à instituição de ensino. Eles alegam que as aulas diárias são curtas, a qualidade de ensino remoto diminuiu, crianças estão adoecendo pela falta de convívio com as demais e tendo dificuldade de aprendizado.

Entre eles, está a empresária Gisele Dutra, mãe de uma aluna do 8º ano do ensino fundamental. Ela reclama que outras escolas retornaram com as aulas normais – dentro das exigências sanitárias, mas o Colégio Aplicação ainda insiste em manter no sistema remoto.

“São apenas aulas on-line, duas horas de aula com presença de professor, com o argumento que as crianças não podem ficar muito tempo em tela”, contou Gisele. No entanto, segundo a empresária, o argumento do colégio não se justifica após desenvolver o sistema de aulas síncronas (aquelas que acontecem ao vivo) e aulas assíncronas (gravadas).

Ação civil pública do MPF

O MPF (Ministério Público Federal) entrou com uma ação civil pública para que as instituições da rede federal de ensino do Rio de Janeiro retornem às aulas presenciais até o dia 18 de outubro. O pedido protocolado na Justiça do Rio, na última quarta-feira (14), leva em consideração o avanço no calendário vacinal contra o coronavírus.
A determinação faz referência aos nove estabelecimentos federais localizados no Estado fluminense, tanto para o ensino superior como o básico.

Em Santa Catarina, o MPF informou que vem acompanhando a situação, principalmente no que diz respeito ao Colégio Aplicação da UFSC.
No mês de junho, o MPF decidiu instaurar inquérito civil para apurar responsabilidades sobre as negativas de retorno às atividades presenciais das aulas no Colégio de Aplicação.

A universidade anunciou para 20 de setembro o retorno de setores administrativos essenciais para planejamento – Foto: Leo Munhoz/NDA universidade anunciou para 20 de setembro o retorno de setores administrativos essenciais para planejamento – Foto: Leo Munhoz/ND

No segundo semestre do ano passado, o órgão recomendou que a UFSC adotasse, no prazo de até 30 dias, medidas para a retomada do ensino a todos os alunos matriculados, utilizando-se de recursos que permitam o ensino a distância, caso não tenha sido retomado na modalidade presencial, respeitadas as necessidades tecnológicas e sanitárias. A recomendação foi assinada pelo procurador da República, Alisson Campos.

Em junho do ano passado, o movimento Floripa Sustentável, constituído por 44 entidades representativas do setor produtivo catarinense e florianopolitano, se manifestou contra as aulas paralisadas na UFSC. O movimento disse se mostrar indignado e perplexo diante do fato de a universidade estar com suas aulas completamente paralisadas desde o dia 15 de março, e que este estado de coisas tenha sido prorrogado “por tempo indeterminado” pela portaria do gabinete do reitor Ubaldo Cesar Balthazar.

O que diz a UFSC

Segundo a Agência de Comunicação da UFSC, o ensino na graduação foi retomado desde agosto de 2020, mas com aulas remotas. Além disso, a maioria das atividades de pesquisa continuou sem interrupções, proporcionando relevantes contribuições para a sociedade até mesmo no enfrentamento à pandemia. E muitos projetos de extensão também foram oferecidos em formato não presencial.

Além disso, a UFSC diz que o conselho universitário autorizou a Câmara de Graduação a avaliar a possibilidade de permitir a realização presencial de disciplinas práticas e teórico-práticas que não vinham sendo oferecidas no modo remoto, por impossibilidade de sê-lo. Assim, algumas disciplinas práticas que estavam represando os currículos de alguns cursos foram retomadas. As atividades de estágios na área de saúde também estão sendo retomadas presencialmente.

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