UFSC pode mudar nome de campus e retirar homenagens a ex-reitor ligado à ditadura, diz comissão

Nome de ex-reitor, acusado de perseguir estudantes e professores na ditadura, dá o nome ao campus da UFSC na Trindade

Foto de Gabriela Ferrarez

Gabriela Ferrarez Florianópolis

Receba as principais notícias no WhatsApp

A Comissão Memória e Verdade da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) recomendou que a universidade tome medidas para reparar os danos causados pela Ditadura Militar, ocorrida no Brasil de 1964 a 1985. Entre os pedidos, o relatório sugere que sejam retiradas as homenagens ao ex-reitor João David Ferreira Lima, que teria perseguido estudantes, professores e servidores no período.

Ex-reitor dá nome ao campus Trindade da UFSC – Foto: APUFSC/Divulgação/NDEx-reitor dá nome ao campus Trindade da UFSC – Foto: APUFSC/Divulgação/ND

O relatório foi concluído no final de março e traz documentos que comprovariam a necessidade das recomendações feitas no parecer final. Entre as medidas, a comissão pede que sejam retiradas as homenagens “àqueles que praticaram comprovadamente denunciações e perseguições durante a ditadura civil-militar”.  Conforme o relatório, a universidade deve mudar o nome do campus da UFSC na Trindade, dado em homenagem ao ex-reitor João David Ferreira Lima.

Ex-reitor perseguia estudantes e professores da UFSC, diz comissão

O relatório reconhece a colaboração de Ferreira Lima na construção da universidade. No entanto, a comissão trouxe documentos que comprovariam que o ex-reitor colaborava ativamente para a ditadura e enviava de maneira voluntária listas de nomes de professores e estudantes aos quartéis.

Faça como milhões de leitores informados: siga o ND Mais no Google. Seguir

Um dos casos foi contra o professor José do Patrocínio Galotti. Por meio da Comissão de Inquérito — grupo criado na UFSC para censurar e identificar transgressores na Ditadura Militar—, o ex-reitor recomendou a exoneração do docente 9 de junho de 1964, pouco após ter sido solto da prisão no quartel da Polícia Militar, onde estava preso desde 29 de abril daquele ano.

“É socialista-marxista confesso, considerando que pronunciou conferências políticas na sede da União Catarinense de Estudantes, considerando que em duas teses de concurso defendeu doutrinas marxistas, considerando que profere suas aulas ‘também à luz do marxismo’, considerando que assinou pedido para a volta à legalidade do partido comunista brasileiro”, escreveu o ex-reitor.

O professor denunciado ficou em prisão domiciliar de 1964 até 1967, quando o STF (Supremo Tribunal Federal) o concedeu habeas corpus.

Outro caso relatado é o do professor Henrique Stodieck que, conforme o relatório, em 15 de maio de 1964, o ex-reitor Ferreira Lima enviou um ofício para a Comissão de Inquérito, onde relatava as “atividades ‘subversivas’ das quais tinha conhecimento, sendo rico em detalhes e informações no caso da Faculdade de Direito e de seu diretor, professor Henrique Stodieck, destacando um esquema maior de ‘subversão da ordem’ e de ‘quebra de autoridade e inversão dos princípios dominantes.”

Livro contesta relatório da Comissão da Verdade da UFSC contra o primeiro reitor

No entanto, uma pesquisa aponta que a história do ex-reitor João David Ferreira Lima não era exatamente assim. O livro “UFSC: em nome da verdade”, escrito pela, advogada Heloisa Ferro Blasi Rodrigues e lançado em dezembro de 2024 mostra supostos equívocos no relatório. Segundo a pesquisa, a Comissão da Verdade da UFSC teria distorcido posturas, decisões e comportamentos do primeiro reitor da instituição, João David Ferreira Lima.

Heloisa Blasi Rodrigues, autora do livro – Foto: Divulgação/NDHeloisa Blasi Rodrigues, autora do livro – Foto: Divulgação/ND

O tema é delicado, mas a autora se diz respaldada por documentos guardados por seu pai, Aluízio Blasi, que durante décadas foi servidor da universidade e, na condição de secretário-geral, atuou como braço direito de vários reitores da instituição.

A advogada diz que ficou chocada com o conteúdo e o linguajar utilizado no relatório da Comissão da Verdade. “Me senti até mal”, revela, contando que foi procurada pelo filho do ex-reitor, David Ferreira Lima, que lhe pediu para averiguar fatos ocorridos durante a ditadura na Universidade. “Há palavras bastante ofensivas contra o reitor”, conta ela.

Heloisa defende que Ferreira Lima não teria forças para se contrapor às decisões de Brasília. Um exemplo foi a lei no 5.540/1968, que impôs a Reforma Universitária. Em 13 de dezembro do mesmo ano foi outorgado o AI-5 (Ato Institucional número 5), que eliminou qualquer resquício de Estado de Direito no Brasil.

Capa do Livro ‘UFSC: Em Nome da Verdade’ – Foto: Divulgação/NDCapa do Livro ‘UFSC: Em Nome da Verdade’ – Foto: Divulgação/ND

A tensão aumentou após o decreto 477/1969, que previa a punição de estudantes, professores e técnicos de universidades envolvidos em atividades consideradas subversivas. Mestres foram exonerados e o movimento estudantil passou a ser encarado como inimigo perigoso do sistema.

Em 1970, sob as ordens do general Emílio Garrastazu Médici, foi editado o decreto no 66.732, que criou as ASIs (Assessorias de Segurança e Informações) e as AESIs (Assessorias Especiais de Segurança e Informações), para controlar ainda mais o movimento estudantil e os professores.

Na UFSC, a ASI foi criada em 1972, na gestão do reitor interino Ernani Bayer. Para a autora, diante desse cenário, Ferreira Lima precisou se submeter a exigências e pressões do regime para não desperdiçar o esforço de anos, dele e de seu grupo, para consolidar uma universidade que está hoje entre as melhores do Brasil.

Tópicos relacionados