Florianópolis vive alta de empregos em Tecnologia; desafio é barrar ‘fuga de cérebros’

Capital projeta 18,1 mil novas contratações no setor até 2025

Carolina Monteiro Florianópolis

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No período da pandemia, o setor de tecnologia no Brasil contratou em vez de demitir. De 2021 a 2023, foram criados 16,7 mil postos de trabalho na área em Santa Catarina, segundo estatística do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados).

Um dos motores deste fenômeno é a integração e crescente dependência de todos os setores produtivos, de serviço e comércio com relação às tecnologias e sistemas informatizados.

Florianópolis tem se mostrado atrativa para a computação e ciência da informação em razão de todo um ecossistema de empresas, startups, incubadoras e educação voltados à área.

A perspectiva da Acate (Associação Catarinense de Tecnologia) para os próximos anos é otimista: a marca de 110,6 mil postos de trabalho na área tecnológica deve ser alcançada até 2025. Deve haver 34 mil vagas novas em todo o Estado, sendo metade na Grande Florianópolis.

Entre 2021 e 2023, Santa Catarina gerou mais de 16 mil empregos na área da tecnologia – Foto: Acate/Passeio Primavera/DivulgaçãoEntre 2021 e 2023, Santa Catarina gerou mais de 16 mil empregos na área da tecnologia – Foto: Acate/Passeio Primavera/Divulgação

Abrem vagas pelo crescimento do mercado e pela fuga de cérebros

No entanto, há desafios para suprir a mão de obra demandada, como a “fuga de cérebros”.

Os profissionais mais qualificados acabam indo trabalhar para empresas estrangeiras, segundo os professores Ronaldo dos Santos Mello e Carina Dorneles, do INE (Departamento de Informática e Estatística da UFSC), que dão atenção à carreira dos formados e pós-graduados.

Além disso, há alta evasão dos cursos superiores, e poucas mulheres procurando participar da área.

No Brasil, há contratações por empresas diretamente ligadas à tecnologia, mas também em negócios de quaisquer áreas que utilizem tecnologias, inteligência artificial ou sistemas informatizados.

Por isso, a previsão é de que seja difícil preencher todas as vagas a serem abertas na região, já que a qualificação dos profissionais que ainda não estão maduros para o mercado tem uma velocidade diferente da pressa com que as vagas abrem.

Descompasso entre qualificação e ingresso no mercado

Um aparente paradoxo do setor é que se há tantas vagas sendo criadas, por que o ingresso está difícil? Existem alguns fatores que podem contribuir para que profissionais da área tenham dificuldades para contratação.

Existe uma diferença entre a velocidade de expansão do mercado de tecnologia e a velocidade de qualificação da mão-de-obra, por isso há descompasso.

Mesmo aqueles cursos livres e técnicos demandam tempo e dedicação por meses e anos até que o profissional esteja preparado.

O esforço é permanente – em contraste com o ciclo rápido de inovação da área, tempo imediato requerido pelas necessidades do setor e de vagas mais específicas. “Se não se atualizar, em 18 meses você estará obsoleto”, explica o vice-presidente de Talentos da Acate, Moacir Marafon.

Projeção de empregos em tecnologia em SC – Foto: Arte/NDProjeção de empregos em tecnologia em SC – Foto: Arte/ND

Para aqueles que estão mais qualificados, há as ofertas de trabalho estrangeiras.

“Eles estão conseguindo empregos assalariados em dólar ou em euro, indo ou trabalhando daqui remotamente”, conta o professor Ronaldo de Mello. Ficam disponíveis aqui aqueles que fazem objetivamente desta a sua escolha, e os que estão começando a se destacar.

Necessidade de formação alinhada com a demanda do trabalho

Outro motivo pode ser a relação de diferença no tamanho e solidez da empresa que está contratando: startups e empresas pequenas têm necessidades diferentes de grandes empresas.

As mais novas são as que mais precisam de mão-de-obra experiente e muito especializada. As empresas de mais tradição têm mais condições de chamar novos talentos, qualificar e treinar, porque já têm um corpo experiente estável.

Na visão de Carolina Pizolati Farah, especialista em Recursos Humanos, head de Consultoria e Vendas da Plooral, o setor de tecnologia cresce muito, novos conhecimentos sempre surgem, e é preciso se atualizar.

O alinhamento entre candidato, cursos e as oportunidades de trabalho possibilita um ecossistema onde as pessoas conseguem circular.

Mas esses candidatos têm que conhecer as vagas que existem no mercado para buscar formação adequada e acompanhar as mudanças.

“Novas habilidades serão necessárias, novos cargos vão surgir, mas precisa haver mais conexão entre o que as empresas exigem, os cursos que são ofertados e a formação que os candidatos procuram.”

Uma saída para esta encruzilhada tem sido encontrada por empresas que ofertam seus próprios cursos ou apoiam escolas de aperfeiçoamento.

As contratantes sabem que precisarão de um perfil de profissional que ainda não está pronto.

Por isso, se preparam adiantando a geração de profissionais que vão dar conta daquelas competências.

,No entanto, cabe às empresas dar oportunidades de entrada para que os juniores possam se desenvolver, independente da origem de sua formação.

O domínio técnico não é tudo: precisa ter habilidades comportamentais

Há uma miríade de conhecimentos que são diferenciais para alcançar um emprego, seja em qualquer área. Um que é bastante citado é o aprendizado de outro idioma: inglês.

Mas é preciso ir além dessas habilidades técnicas e ter habilidades sociais e humanas, as soft skills, difíceis de serem medidas.

Estas dizem respeito ao comportamento, visão e costume das pessoas – o que é fundamental para equipes multidisciplinares onde cada especialista parece falar uma língua diferente – e isso leva tempo para desenvolver.

Segundo a professora Carina Dorneles, mesmo quem procura a formação mais completa na técnica não pode esquecer de se desenvolver como um todo.

A preparação se dá pelas disciplinas, mas também pela interação com os professores, nos laboratórios e trabalhos em grupo. “O aluno não deve ficar sozinho diante da máquina, a interação com os colegas e com os professores é muito importante.”

Concordam com ela a Carolina Farah e Moacir Marafon, sendo consenso entre eles de que o aprendizado deve ser constante, tanto no desenvolvimento humano quanto nas capacidades técnicas, com planejamento de carreira alinhado à demanda do mercado.

Para Marafon, isto é um conselho para todas as áreas de trabalho, porque a inovação da tecnologia, com certeza, irá matar profissões e criar outras tantas.

“Se as pessoas não perceberem e não se motivarem para isso, com certeza teremos uma legião, não de desempregados, mas de não empregáveis.” Em outras palavras, tem que estar disposto a aprender, e aprender por toda a vida.

Como se qualificar e encontrar suporte às carreiras

Para almejar as carreiras mais rentáveis na área, o caminho é gastar mais tempo na formação, por cursos superiores em universidades e institutos públicos ou privadas, que preparam para a pesquisa científica de ponta, como Ciência da Computação e Sistemas de Informação oferecidos pela UFSC.

Os cursos técnicos do IFSC e escolas de formação para indústria dão boa base para a formação mais complexa, mas também preparam para as funções mais práticas, como para se tornar programador.

Os cursos de curto prazo ofertados no polo da Acate e associados são voltados à especialização de profissionais em determinadas áreas, e também para quem não tem conhecimento básico da área.

O vice-presidente Marafon conta que os projetos da Acate apoiam cursos para jovens e crianças, preparando as gerações para que, independentemente do que venham a fazer no futuro, tenham conhecimento dos conceitos básicos de programação.

Os cursos e empresas oferecem opções de vagas para qualificação de pessoas que não podem pagar o valor integral, com o sistema de bolsas de desconto e financiamento dos estudos, divulgadas periodicamente pela página e redes da Acate.