Músculos grandes, definidos e milimetricamente preparados. O fisiculturismo, modalidade esportiva que cultua corpos musculosos e definidos, moldados em academias de todo o Brasil, levanta polêmicas e revela atletas que chamam atenção pela aparência e pela disciplina. O tema ainda ganha novos contornos quando o assunto é a categoria feminina.
Nany começou a competir em 2016, conciliando vida pessoal e profissional – Foto: Redes sociais/Divulgação/NDPara quem escolheu ir na contramão e quebrar os padrões daquilo que é visto como o corpo feminino ideal, outros obstáculos surgem. Se mulheres gordas enfrentam casos de gordofobia e incentivos à magreza, mulheres fisiculturistas encaram comentários machistas e estereotipados.
É o caso de Elaine Cordeiro, conhecida como Nany. Natural de Florianópolis, a manezinha de 47 anos admite que sofre situações preconceituosas tanto nas redes sociais quanto no dia a dia, e lamenta que a maior parte venha de outras mulheres.
Seguir“Hoje, sim, eu sofro preconceito, porque o meu corpo é grande, eu tenho bastante massa muscular, e não é nada comum encontrar uma mulher com o volume muscular que eu tenho, então eu sofro, sim, tanto nas redes sociais quanto no meu dia a dia, e a maioria vem da parte feminina. Por parte dos homens também acontece, mas é muito mais raro, os homens admiram meu físico”.
Linha do tempo
A decisão de mudar o estilo de vida não nasce da noite para o dia. O fisiculturismo exige disciplina e renúncia de inúmeras atividades consideradas ‘normais’, como a cervejinha aos domingos ou uma noite na balada. No caso de Elaine, ela conta como decidiu entrar nesse mundo e seus motivos.
“Comecei a treinar três meses depois que dei à luz meu bebê, em 1995, com 22 anos. Na gestação, ganhei 23 quilogramas, mas meu bebê nasceu com 2,800 quilos. Fiquei muito gordinha e aquilo me incomodou. A minha filha já não mamava mais no peito, e, aos três meses de vida dela, eu comecei na academia. Desde então, eu nunca faltei um mês”, lembra em detalhes.
Daí até a entrada no mundo competitivo se passaram mais de 20 anos. Ela relata que costumava se questionada pelas pessoas se era atleta, além de receber incentivos para isso. “Meu corpo já estava bem bonito, bem bacana. Eu e meu esposo conhecemos um atleta lá [na academia] que também incentivou”, conta.
No entanto, foi em 2012 que Elaine começou a considerar a possibilidade. Conciliando a vida de dona de casa, o papel de mãe e esposa e os treinos na academia, em 2016, ela subiu nos palcos para iniciar sua trajetória multicampeã, aos 40 anos de idade.
Vida de atleta
Tendo competido seu primeiro campeonato pela IFBB Santa Catarina, filiada a IFBB Brasil, a qual faz parte até hoje, Nany mostra como é natural que atletas tenham maior preocupação com a saúde, já que a ferramenta é a base para os desempenhos físicos. Contudo, priorizá-la pode gerar conflitos com a vida social.
“Minha família não entendeu muito bem, e eu acabei me afastando. A vida de atleta requer descanso e boa alimentação, e eu abri mão da vida social. Eles não entendiam muito bem que esporte é esse que eu escolhi”, descreve.
Atleta de alto nível revela abdicar de prazeres da vida social em nome do esporte – Foto: Redes sociais/Divulgação/NDCom relação a praticar um esporte ainda com visibilidade inferior se comparado a outros, Nany diz que vê evolução a passos lentos na modalidade. “Vem evoluindo a passos lentos, não passa nem na TV, diferente do futebol ou do basquete, mas vem apresentando evolução. A gente não tem premiação, é só o troféu e o título, é um esporte muito caro”.
Atualmente, Elaine tem 1,60m de altura e pesa em torno de 68kg fora de competição, mas o peso dela em palco é de 61kg. Ela é campeã brasileira, sul-americana, miss universo e possui um título de um aberto mundial, além das premiações estaduais. Nenhum destes prêmios rendeu retorno financeiro, o que faz com que atletas da categoria precisem de visibilidade e, assim, atraiam patrocinadores.