Maceió, um mestre na arte de amar e contar o esporte em Santa Catarina

O jornalista Joel Ferreira do Nascimento cravou o nome Maceió na história do jornalismo esportivo catarinense

Foto de Drika Evarini

Drika Evarini Joinville

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Bloco de papel e caneta eram companheiros inseparáveis, mas não eram exatamente necessários, atuavam mais como acessório para o qual recorria em situações pontuais para garantir o minuto exato do gol no campo ou na quadra, da cesta decisiva ou a estatística que poderia fazer a curva ascendente na carreira de um jogador. A memória infalível era característica conhecida e que ultrapassava fronteiras. Com um texto único e o prestígio construído em anos de dedicação total ao esporte e ao jornalismo, duas bases de sua vida, Joel Ferreira do Nascimento, o Maceió, mudou vidas, a dele e a de incontáveis atletas de inúmeras modalidades.

Maceió trabalhou por mais de 40 anos no jornalismo esportivoMaceió é um dos mais icônicos jornalistas esportivos da história de Santa Catarina – Foto: Agobar Filho/Divulgação/ND

Foi em São Francisco do Sul que, no dia 6 de maio de 1943, ele estreava na vida como quem estreia em um jogo importante e escreve sua história com determinação e talento. Nascido Joel, mas conhecido como Maceió, ele iniciou a carreira de jornalista em 1968 e por mais de 44 anos escreveu mais do que colunas, crônicas e textos precisos sobre o esporte joinvilense, catarinense e nacional, escreveu a própria história do jornalismo esportivo da maior cidade de Santa Catarina.

Repórter, editor e colunista responsável pela “Informal”, Maceió se destacou. Pela memória infalível, pelos olhos apurados, pela paixão que colocava em cada linha, mas que não mantinha apenas no papel. O sentimento de amor pelo esporte que se entrelaçou com o jornalismo virou prática, profissão, vida. “Ele vivia para o trabalho”, sentencia o amigo e colega de redação por mais de duas décadas, Anildo Jorge dos Santos.

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Presença garantida em competições de futebol, futsal, basquete, vôlei e atletismo na região, Maceió ultrapassou os limites de Joinville fisicamente com as coberturas das Olimpíadas de Atlanta, em 1996 e da Copa do Mundo de 1994, ambas nos Estados Unidos, além de viajar para vários estados em busca das melhores histórias do esporte catarinense, que se espalhou pelo país. Mas, as palavras de Maceió eram ainda mais itinerantes e eram capazes de transformar vidas.

Nomes icônicos do esporte brasileiro foram inspiração para seus textos e comentários, como o manezinho Gustavo Kuerten, antes mesmo que ele se transformasse no Guga que ganhou o coração de todos os brasileiros.

Maceió tinha amor, credibilidade e influência e não à toa o troféu “O Jornaleiro” entregue aos destaques esportivos de Santa Catarina, se transformou no “Oscar do esporte catarinense”. Foi ele quem organizou e coordenou a premiação por mais de quatro décadas. A cada ano, as premiações reverenciavam os destaques, mas também ganhava prestígio com a presença de grandes nomes esportivos do país, como Zagallo, Romário e Zico, entre tantos outros que marcaram presença nas festas em homenagem ao esporte catarinense.

“As pessoas começaram a ler o jornal de trás para frente”

Depois de mais de quatro décadas de dedicação ao esporte e ao jornalismo, Maceió pendurou as chuteiras da redação e, por uma ironia infeliz da vida, foi diagnosticado com Alzheimer, parou de escrever e se recolheu junto aos familiares até que passou a viver em uma casa de repouso. Maceió recebeu cuidados constantes, mas a doença avançou para um grau severo até que no dia 7 de setembro, com outras complicações, foi internado no Hospital São José, onde recebe cuidados paliativos. Pai de três filhos, Maceió perdeu a companheira Maria Terezinha em 2006.

“Eu tenho muito orgulho. As pessoas me ligam para saber dele. Recebo várias ligações, mensagens de jornalistas, amigos, das pessoas que trabalharam com ele. O pai tinha umas tiradas, ele tinha um humor, começava falando sério, mas no fim todo mundo caía na gargalhada. Ele sempre foi um pai fantástico e trabalhou muito para tentar ajudar os atletas ”, lembra a filha Jizele.

Jornalista esportivo referência, Maceió mudou a forma com que se consumia o jornalismo esportivo, lembra o amigo Anildo. “É meio batido, mas não tem como fugir disso, ele foi um mestre. Profissionalmente ele era completo. Para mim foi um privilégio trabalhar com ele todo esse tempo. O Maceió desenvolveu nas pessoas, principalmente naqueles que gostam do esporte, a começar a ler o jornal de trás para frente. Eu sempre serei muito fã dele”, finaliza.

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