Devido à falta de incentivos financeiros, os atletas do remo de Florianópolis precisam conciliar o esporte com inúmeras outras funções para sobreviver. Não é diferente a vida da campeã dos Jogos Abertos de Santa Catarina na categoria single skiff, no último domingo (3), em Timbó.
Adriana Vilela é também mãe de duas filhas e educadora infantil. A atleta, de 44 anos, vem de uma família que teve de lutar para quebrar as barreiras do racismo para conquistar seu espaço no esporte. Para conciliar a sua paixão com a correria do dia-a-dia, seus treinos começam de madrugada.
Adriana Vilela acorda cedo para remar nas águas que banham a Ilha de Santa Catarina – Foto: Foto Flavio Tin/NDMoradora do bairro Centro, em Florianópolis, ela já esta acordada às 4h da manhã. Na hora seguinte carrega nos ombros o barco de 14 kg, batizado como Cesar Veríssimo. Do Clube Náutico Francisco Martinelli, leva o barco para as águas da Beira-Mar Norte. O treino da manhã dura uma hora e meia.
SeguirTreino e disciplina
“Nesse horário o tempo contribui, tem menos vento e o mar fica liso liso”, conta a atleta. Nas remadas, onde ela repetidamente joga o corpo para a frente e para trás, Adriana se transforma no motor de um barco, que flutua pelas águas que banham a Ilha de Santa Catarina. Em questão de pouco minutos, ela consegue circundar todas as três pontes da Capital.
O Parque Náutico comporta os clubes Francisco Martinelli, Aldo Luz e Riachuelo. A região fica na entrada da Ilha de Santa Catarina, próximo as pontes Colombo Salles, Pedro Ivo e Hercílio Luz – Foto: Foto Flavio Tin/NDLeia também
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Por volta das 6h30 ela volta para casa, deixa o carro e vai à pé até o NEIM (Núcleo de Educação Infantil Municipal) Almirante Lucas Alexandre Boiteux, também no Centro. Lá, ela exerce a função de educadora infantil, onde atende crianças de dois a cinco anos. A instituição conta com 82 crianças.
Mas assim que o expediente acaba, ela volta às águas. O treino vespertino começa às 14h e segue até as 17h. Aos sábados, os desafios costumam ser mais intensos. Durante às noites e domingos, ela dedica o tempo à família e às filhas, Laura e Beatriz, de 8 e 13 anos, respectivamente.
Influência do pai
“Aqui sempre foi o quintal da minha casa”, diz a atleta sobre o Parque Náutico Walter Lange. O local fica na entrada da Ilha de Santa Catarina, próximo às pontes Colombo Salles e Pedro Ivo. Lá, ficam três clubes náuticos centenários de Florianópolis: Riachuelo, Aldo Luz e Francisco Martinelli.
A relação com o espaço vem do pai, que era remador do clube Riachuelo na época da sua infância. “Ele trazia a bicicleta Caloi e a gente brincava. Lembro que aqui tinha grama e chão batido. Vínhamos pescar, o mar não era assim poluído. Os atletas eram uma família, brincávamos com todo mundo” lembra Adriana.
Na foto Adriana está acompanhada dos irmãos Hudson, Andréia e da mãe Maria Jaci Vilela – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação/NDCom 1,63 m e 50kg, nunca teve o “biotipo ideal” para o esporte. “Sempre fui miúda e magrinha. Na época se acreditava aquela que os grandões eram melhores se destacariam mais”, lembra.
Assim, aos 14 anos, a escolha de Vilela foi o atletismo. “Me dava bem, ganhava muita competição, mas não gostava. O remo era o que eu queria, meu esporte de coração”, conta a atleta.
A paixão acabou falando mais forte. Aos 19 anos ela começou a remar. Dentre as grandes conquistas da atleta estão duas medalhas de prata na categoria double (dupla): uma no Campeonato Brasileiro de Remo de 2015, e a outra na Copa Sul de 2017.
Durante os 25 anos de treino que a atleta acumula, ela já passou pelo clube Riachuelo e há cinco anos treina no Martinelli.
A trajetória foi interrompida apenas por duas gestações. Na primeira, ficou seis meses parada. “Na segunda esperei só dois meses, e já voltei” conta, aos risos.
História de resistência
O remo está no DNA da família Vilela. O esporte é praticado também pelo irmão Hudson Luiz Vilela, pela sobrinha Rayssa Vilela da Silva, como também pela filha Beatriz. O pioneiro no esporte foi o pai de Adriana, Antônio Luiz Vilela. “É difícil contar a minha história e não contar a história do meu pai”.
Três gerações de remadores. Da esq. à dir: Adriana, a filha Beatriz, o pai Antônio, a sobrinha Rayssa e o irmão Hudson. – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/NDA história de Antônio com o remo, hoje com 70 anos, começa em 1966. Ao chegar no clube Martinelli com três amigos, Antônio foi barrado. “Olharam para o meu pai e disseram: eles podem treinar, mas ele [Antônio] não”, conta. O motivo: o rapaz, com então 18 anos, era negro.
Equipe de remo de Antônio – Arquivo Pessoal/Divulgação/ND“Um certo dia, quando passava pela avenida Hercílio Luz, passou um senhor e buzinou. Ele chamou meu pai para remar”, conta Adriana. O homem era Sady Cayre Berbe, membro do clube Aldo Luz.
Após Sady insistir, Antônio aceitou e ingressou no clube, o primeiro pelo qual passou . Ele se tornou o primeiro negro a participar do remo em Florianópolis.
Anos depois, Sady virou padrinho do casamento de casamento de Antônio. A Record News contou essa história em uma reportagem da série Remando no Tempo (confira a reportagem abaixo).
O jovem Antônio Luiz Vilela, pai de Adriana – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/NDPreconceito
Porém, Antônio ainda teve que enfrentar o preconceito dentro do esporte. Em uma das situações, um competidor se negou a “competir com um homem negro”. Ainda assim, a equipe insistiu e o barco foi à àgua.
O clube que fechou as portas ao Antônio é onde Adriana treina hoje. A atleta afirma que nos dias atuais a realidade é oposta. “Posso dizer que hoje o Martinelli é o clube que mais tem negros remando. Todo mundo se dá bem, há respeito. É o clube que me identifiquei. Hoje já é outra história” afirma.
O passado elitista dos clubes contrasta com o presente. Após a baixa de novos participantes nos anos de 2003 até final da década passada, cada clube começou a investir em projetos sociais que atuavam nas escolas. Toda uma nova geração de jovens começou a frequentar os pátios do Parque Náutico.
Para Adriana, história do pai é fundamental para entender a sua. Enfrentando o racismo presente no remo, ele abriu portas para que toda uma geração pudesse praticar o esporte – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/NDFeminino deve passar a contar pontos no próximo Jasc
“A gente vai com tudo, se prepara para fazer bonito. Mas fica meio frustrante porque a gente não computa”, desabafa a atleta, sobre a situação do remo feminino no Jasc. A participação das meninas do remo sempre foi por “consideração” – apesar de ganharem medalhas, nunca pontuaram no evento.
O primeiro ano que o remo feminino participou dos Jasc foi em 2003, ainda que na modalidade de consideração. O clima era de expectativa para as remadoras, visto que na época a também a catarinense Fabiana Beltrame participaria dos Jogos Olímpicos de 2004, em Atenas.
As remadores que participaram deste ano do Jasc. No próximo ano, caso o número de municípios inscritos se repita, as pontuações das remadores passarão a ser computadas – Arquivo Pessoal/Divulgação/NDEntretanto, durante os 14 anos seguintes, o remo feminino ficou totalmente afastado dos Jasc. Apenas em 2017 que as remadores puderam voltar às águas, disputando as medalhas da competição. Como a categoria não tinha o número mínimo de municípios exigidos pelo regulamento para somar na pontuação, que é oito, as competições se restringiam às medalhas.
Na edição deste ano o mínimo foi alcançado. Na categoria Single Skiff Feminino participaram dez municípios: Santo Amaro da Impreratriz, Palhoça, Jaraguá do Sul, Irani, Indaial, Florianópolis, Curitibanos, Blumenau, Águas Mornas e Presidente Getúlio. Assim, em 2020, a modalidade deve começar a somar ao quadro geral dos Jasc.
“A mulherada está contente com essa novidade. Nossa, a gente já está se preparando para o próximo ano. No próximo Jasc quero ver as novas revelações, vamos estar firmes e fortes”, finaliza Vilela.