Sete a cada 10 mulheres empreendedoras são mães, mas ainda enfrentam desafios

Mães catarinenses empreendem, mas não escondem dificuldades de uma jornada dupla e falta de rede de apoio

Foto de Ana Schoeller

Ana Schoeller Florianópolis

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Um estudo realizado pela Rede Mulher Empreende mostrou que quando nasce uma mãe em 68% dos casos também nasce uma empreendedora. Os dados apontam que a cada dez mulheres que empreendem, sete são mães.

Outro importante estudo é da FGV (Fundação Getúlio Vargas), que revelou que cerca de 50% das mulheres que saem de licença-maternidade não retornam aos seus cargos após o término do benefício. O sonho de empreender vem na contrapartida desse movimento e faz com que muitas delas enxerguem novas oportunidades.

68% das mães decidem empreender, segundo estudo realizado pela Rede Mulher Empreende. – Foto: Unsplash/Banco de Imagens/ND68% das mães decidem empreender, segundo estudo realizado pela Rede Mulher Empreende. – Foto: Unsplash/Banco de Imagens/ND

Segundo a administradora Isabela Müller, chefe do Departamento de Administração Empresarial e coordenadora do curso na Udesc (Universidade de Santa Catarina), mesmo tendo que conciliar o término da licença maternidade, e a dupla jornada, muitas mães se sentem realizadas.

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“Precisamos destacar essas mulheres, inclusive para ser exemplo para outras. Muitas se sentem realizadas por estarem fazendo algo por si mesmas”, explica.

O cansaço e a força materna para empreender

Ana Paula Crozeta tem uma imobiliária desde a metade de 2020. O negócio começou após se ver obrigada a ir para casa na pandemia e ficar com os dois filhos.

Ela conta que já trabalhava em uma imobiliária anteriormente e após a procura de clientes, decidiu abrir seu próprio negócio, a Concretiza Imobiliária. Para ela, a maternidade não é um impeditivo, mas não esconde os desafios e cansaço que uma mãe pode enfrentar ao decidir empreender.

“Sou mãe solo e minha rede de apoio é a minha mãe. Tem dias que eu levo eles para trabalharem comigo. Já participei de assinatura de contrato com o meu filho mais novinho e de agenciamento com os dois”, explica.

“Às vezes nós estamos cansadas mesmo, sabe? Meu objetivo maior é dar uma vida boa pra eles, de qualidade e integra. Quero que eles um dia olhem pra mãe deles e tenham orgulho de dizer que eu jamais os abandonarei, sempre estive junto deles. São eles que me dão força”, contou Ana.

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    Ana Paula e seus dois filhos. - Arquivo pessoal/Divulgação/ND
    Ana Paula e seus dois filhos. - Arquivo pessoal/Divulgação/ND
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    Ana Paula e seu filho mais novo em sua imobiliária. - Arquivo pessoal/Divulgação/ND
    Ana Paula e seu filho mais novo em sua imobiliária. - Arquivo pessoal/Divulgação/ND
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    Ana Paula e um de seus filhos enquanto ela trabalha no fim de semana. - Arquivo pessoal/Divulgação/ND
    Ana Paula e um de seus filhos enquanto ela trabalha no fim de semana. - Arquivo pessoal/Divulgação/ND

A imobiliária conta com empreendimentos em São José e Florianópolis e tem consolidado clientes, segundo a empreendedora. Ela explica que o trabalho começou aos poucos, mas já gera frutos. “Eu comecei com aquele trabalho de formiguinha, uma coisa de cada vez. Cada cliente que surgia eu procurava um imóvel específico. E aí foi acontecendo”, lembra.

A corretora não está sozinha no que diz respeito a precisar levar os filhos para o trabalho. Há dois anos, no Quênia, uma deputada chamada Zuleikha Hassan recebeu tratamento ofensivo por levar seus filhos para o trabalho.

Mãe de três crianças, ela foi expulsa do parlamento por estar com um deles colo para a sessão. Ela relatou que levou o bebê porque não havia com quem deixá-lo e não quis faltar ao trabalho.

Sonho adiado, mas não esquecido

Kamilla Pereira Tavares é de Florianópolis e mora em Jaraguá do Sul. A manezinha explica que decidiu criar uma loja de roupas femininas quando seu filho tinha um mês.

Longe de casa e da família, sua rede de apoio passou a ser seu marido, que tem um emprego em tempo integral. A microempreendedora diz que não conseguia conciliar maternidade e negócios com um filho pequeno que necessitava de sua atenção e cuidado quando não poderia ir para a creche.

“Acabava sobrando muito pra mim, sabe? Como meu filho foi pra escola com quatro meses pra eu poder trabalhar, toda gripe, tudo que acontecia, eu que tinha que ficar com ele. Gripe de criança dura uma semana e quando eles são muito pequenininhos na escola, todo mês acontece”, recorda.

Além dessa, outras preocupações também vieram à tona para Kamilla. “Meu mês não tinha quatro semanas e sim três. Fazer as contas fecharem em três semanas é muito difícil, principalmente pra quem está começando”, explica.

Já ‘desanimada’, como relata, recebeu uma proposta para voltar ao seu antigo emprego. No começo, tentou conciliar o trabalho formal com seus negócios e a maternidade, mas não foi possível.

“Meu filho é 100% da minha prioridade. Eu tentei tocar em paralelo, né? O escritório, a loja e ser mãe. Trabalhar fora oito horas e um segundo negócio foi muita coisa. Eu estava vendo que eu estava abrindo muito mão de ficar com o meu filho”, aponta a mãe.

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    Kamilla Tavares enfrentou desafios para empreender sem rede de apoio. - Arquivo Pessoal/Divulgação/ND
    Kamilla Tavares enfrentou desafios para empreender sem rede de apoio. - Arquivo Pessoal/Divulgação/ND
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    Kamilla Tavares ressalta que seu filho é sua prioridade maior, e explica desafios enfrentados para empreender. - Arquivo Pessoal/Divulgação/ND
    Kamilla Tavares ressalta que seu filho é sua prioridade maior, e explica desafios enfrentados para empreender. - Arquivo Pessoal/Divulgação/ND

Hoje ela é coordenadora de uma equipe de 34 pessoas e não esconde seu sonho de voltar a empreender quando seu filho estiver maior. Atualmente, Vicente Braun tem um ano e seis meses.

Administradora dá dicas práticas para empreender

Isabela Müller diz que o primeiro passo para empreender é ter em mente um segmento que se deseja atuar, ou seja, qual é o negócio que se sabe fazer e faz bem. “Para as mães, é preciso entender o que elas gostam, porque precisa entender que você vai passar muito tempo no seu negócio. Então precisa fazer algo que vai lhe dar prazer e que você possa conciliar a maternidade e sua vida pessoal”, explica.

Outra dica de ouro é desenvolver uma análise minuciosa do mercado, verificando o que está faltando. Nesse quesito a mulher pode perceber o que está faltando no seu bairro, no seu condomínio, em locais próximos. “Os grandes negócios que se destacam hoje nascem muito pequenos”, encoraja Müller.

Organização, disciplina e criação de hábitos, também estão no leque de ações importantes. “É preciso mostrar para a sua família que você tem um horário de trabalho, e isso precisa de organização e disciplina”, ensina.

Por último, ela destaca a busca por pessoas que possam ajudar. Como indicação, a professora explica que é bom ter por perto alguém que entenda de gestão, um auxílio contábil para ajudar na abertura de uma MEI e dicas de mercado.

“Nós, mulheres nos unimos e apoiamos umas às outras. Busque ajuda de vizinhos, amigos, da própria universidade”, conclui.