Eram 5h56 da manhã quando meu telefone tocou. Ainda sonolento vi o nome de meu pai, Edson Florão, na tela. Um gelo percorreu minha espinha por conta da ligação incomum naquele 29 de novembro de 2016.
Homenagem da Chapecoense no aniversário da tragédia – Foto: Alessandra Seidel/ACF/ND“Oi, pai, tudo bem?”, perguntei imediatamente.
Do outro lado ele disse: “O avião da Chapecoense caiu. Eu estou bem, não viajei.”
SeguirMeu pai, repórter da Rádio Super Condá na época, esteve presente na viagem da semifinal para a Argentina, quando a Chape enfrentou o San Lorenzo.
Eu sabia que o avião levava, além do time, comissão técnica e estafe, também a imprensa que cobriria o jogo de ida da final da Copa Sul-Americana. Ouvir que ele estava bem foi um alívio mesmo sem nem me dar conta da dimensão da tragédia.
Naquela altura da manhã, algumas informações já haviam chegado ao Brasil. Quando perguntei se havia a possibilidade de as pessoas estarem bem, ele respondeu com um silêncio. Procurava palavras.
Por fim, disse: “Acho que poucas pessoas sobreviveram”.
Acordei minha esposa e ligamos a televisão. O noticiário ainda falava em um pouso forçado e confirmava a morte de cinco pessoas.
Lembro de ter comentando com a Suelen que meu pai deveria ter se confundido e que apenas poucas pessoas morreram, não o contrário.
Começamos a lembrar dos amigos que poderiam estar lá.
– O Gui! – disse a Su, recordando do fisioterapeuta Guilherme Carli, nosso amigo de longa data.
– O Giba! – lembrei. Assessor de imprensa que amava a Chape. Era nula a chance dele não estar presente em um momento tão importante da história do clube.
De fato.
Fonte de água ao lado da Arena Condá leva o nome de vítimas – Foto: Eduardo Florão/NDPor sorte, assim com meu pai, o Gui não viajou. Mas a sorte de um, neste caso, virou tragédia para outros. Dor para outras famílias.
Edson Luiz Picolé foi o repórter da Condá naquela viagem. Rafael Gobbato foi o fisioterapeuta da Chape.
Além do Picolé, convivi desde criança com outros profissionais da imprensa por conta do meu pai. Fernando Doesse, Gelson Galiotto, Renan Agnolin, Douglas Dornelles, para citar alguns.
Não é exagero dizer que a tragédia da Chape mudou minha vida. Menos de um mês depois recebi o convite para assumir a vaga no ge que antes era preenchida pelo Laion Espíndula, mais uma das vítimas.
Também por isso sempre lidei com muito zelo e respeito com a cobertura da Chape e dos aniversários da tragédia.
Hoje completam-se seis anos. Algumas feridas não se fecham, mas o tempo ajuda a amenizar. Deixo aqui um abraço carinhoso para cada familiar. Espero, com sinceridade, que mesmo que demore, a justiça seja feita.