Análise tática: os pontos fracos do Brasil na eliminação para a Croácia

Brasil mais uma vez sofreu diante de um europeu na Copa do Mundo e acumula sua quinta frustração seguida em Mundiais

Foto de Ian Sell

Ian Sell Florianópolis

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O Brasil amargou sua quinta eliminação seguida para um europeu em Copas do Mundo na última sexta-feira (9). A dolorida derrota nos pênaltis para a Croácia ficará por muito tempo ainda na cabeça do torcedor. Porém, como a partida se desenhou para que chegasse até o revés? O Arena ND+ explica.

Começando pelas escalações. Ainda sem Alex Sandro 100%, Tite mandou a campo a mesma equipe que derrotou a Coreia do Sul por 4 a 1 nas oitavas de final, com Danilo como lateral-esquerdo e Militão pelo lado direito.

Já pelo lado da Croácia, o técnico Zlatko Dalić optou por tirar seu centrovante (Livaja ou Petkovic) para a entrada de Pasalic, mais um meio-campista que teria a função de reforçar a marcação pelo lado direito do campo. Com isso, Kramaric passou a ser o centroavante.

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Escalações de Brasil e CroáciaEscalações de Brasil e Croácia – Foto: TacticalBoard/Reprodução/ND

Como a Croácia “travou” o Brasil?

Um dos artifícios de Zlatko Dalić para travar a seleção brasileira começou no posicionamento de Kovacic. Nas outras partidas, a Croácia formava um tripé de meio-campo com Brozovic atrás e Kovacic e Modric mais a frente, alinhados.

Porém, para esta partida, o técnico optou por deixar Kovacic mais recuado, quase que alinhado com Brozovic, mudando esse 4-3-3 para um 4-2-3-1.

A ideia do treinador era evitar uma dobra em cima de Brozovic, caso ele fosse o único jogador posicionado naquela faixa do campo. No modelo de jogo de Tite, Neymar e Paquetá ocupam o que chamamos de entrelinhas no momento onde a equipe tem a bola.

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    Adaptação feita por Zlatko Dalić, com Kovacic mais recuado - TacticalBoard/Reprodução/ND
    Adaptação feita por Zlatko Dalić, com Kovacic mais recuado - TacticalBoard/Reprodução/ND
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    Situação que o treinador tentou evitar que acontecesse - TacticalBoard/Reprodução/ND
    Situação que o treinador tentou evitar que acontecesse - TacticalBoard/Reprodução/ND

Posicionando Kovacic mais recuado, o treinador criava um 2×2, com uma marcação quase que individualizada de Brozovic em Neymar e de Kovacic em Paquetá.

Vale destacar a intensidade da marcação realizada pela Croácia, onde o Brasil em raros momentos conseguiu ter um jogador (Paquetá ou Neymar) com condições de receber entre as linhas.

Marcação ruim

E se a marcação brasileira foi um dos pontos fortes deste ciclo para o Mundial do Catar, não se pode dizer o mesmo desta partida contra a Croácia.

Em todo o primeiro tempo, especialmente quando a equipe tentava marcar a Croácia em bloco alto, o Brasil “não encontrava” a equipe adversária.

Essa subida de pressão parecia descoordenada. Neymar e Richarlison subiam, mas o meio-campo não acompanhava, o que sempre acabava gerando um jogador livre.

O que ficou a impressão, é que a Croácia sempre gerava situações de superioridade numérica. É importante ressaltar a brilhante partida que seu trio de meio-campistas (Brozovic, Modric e Kovacic) realizou. O camisa 10, inclusive, impressiona pela leitura de tempo/espaço.

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    Subidas de pressão descoordenadas geraram espaços nas costas da primeira pressão brasileira - TacticalBoard/Reprodução/ND
    Subidas de pressão descoordenadas geraram espaços nas costas da primeira pressão brasileira - TacticalBoard/Reprodução/ND
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    Subidas de pressão descoordenadas geraram espaços nas costas da primeira pressão brasileira - TacticalBoard/Reprodução/ND
    Subidas de pressão descoordenadas geraram espaços nas costas da primeira pressão brasileira - TacticalBoard/Reprodução/ND
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    Croácia conseguia gerar situações de superioridade numérica no meio-campo - TacticalBoard/Reprodução/ND
    Croácia conseguia gerar situações de superioridade numérica no meio-campo - TacticalBoard/Reprodução/ND

Ainda que a Croácia não tenha criado grandes oportunidades, ficou a sensação de que o rival cozinhava o jogo no momento em que lhe bem entendia.

Como o Brasil conseguiu criar situações de gol?

A solução encontrada pelo Brasil para conseguir entrar no bloco defensivo rival, algo que aconteceu pouquíssimo durante o primeiro tempo, foi com Neymar.

O camisa 10 vinha buscar a bola quase “no pé” dos zagueiros e conseguia tempo e espaço para pensar a jogada, uma vez que não havia uma “perseguição” de Brozovic até aquela área do campo. A situação aconteceu mais vezes no segundo tempo, onde o Brasil melhorou e poderia ter vencido o jogo no tempo normal.

Neymar descia para buscar no pé dos zagueiros para conseguir jogar de frente – Foto: TacticalBoard/Reprodução/NDNeymar descia para buscar no pé dos zagueiros para conseguir jogar de frente – Foto: TacticalBoard/Reprodução/ND

Em duas ocasiões, Neymar desceu, tabelou com Richarlison, mas acabou parando no goleiro Livakovic. A entrada de Antony também passou a gerar mais jogo ao Brasil pelo lado direito, especialmente em jogadas individuais que não estavam se concretizando com Raphinha.

Falando em prorrogação, o gol brasileiro, inclusive, nasce em um lance onde Neymar vem buscar a bola mais longe do gol adversário.

O camisa 10 recebe de frente e há um detalhe importante, Danilo faz uma ultrapassagem pelo lado esquerdo, fazendo com que Vlasic o acompanhe. Rodrygo faz o movimento de fora para dentro e faz a tabela com Neymar.

A partido momento em que Neymar recebe a devolução de Rodrygo, o zagueiro Gvardiol se vê obrigado a saltar no atacante brasileiro, o que gera espaço para Paquetá nas costas. O camisa 7 então tabela com Neymar, que dribla o goleiro e marca.

Gol sofrido

O Brasil fez 1 a 0 já nos minutos finais do primeiro tempo da prorrogação. A sensação era de “parada resolvida”, uma vez que a Croácia, mesmo conseguindo cozinhar o jogo em vários momentos, tinha dificuldades para gerar situações de gol.

Porém, o minuto 116 mudou tudo. Tudo começa em um lateral para o Brasil cobrado por Danilo. A bola fica em disputa e sobra para Pedro. O centroavante, que havia entrado no lugar de Richarlison, carrega a bola e, neste momento, quatro jogadores iniciam a corrida para atacar.

Brasil tentou contra-ataque para matar o jogo – Foto: TacticalBoard/Reprodução/NDBrasil tentou contra-ataque para matar o jogo – Foto: TacticalBoard/Reprodução/ND

Pedro dá a bola no ponto futuro para Fred, porém, o zagueiro Gvardiol, que fez brilhante partida, consegue se recuperar para fazer o desarme. O que impressiona no lance é que o defensor estava em campo já há 116 minutos, enquanto Fred havia entrado apenas após o gol do Brasil, mas mesmo assim chegou primeiro.

Após a perda da posse, Fred, ao invés de retornar a defesa para tentar estruturar a linha de meio-campo, optou por abafar Gvardiol foi quase até a linha de fundo.

A Seleção então foi subindo com seus jogadores de defesa, até haver um erro de abordagem de Casemiro em Modric, gerando o contra-ataque croata.

Então a bola entra no lado esquerdo, Alex Sandro está marcando por dentro, a defesa brasileira vai desmoronando até o cruzamento rasteiro para Petkovic, na entrada da área, finalizar e ainda contar com desvio em Marquinhos para tirar a bola do raio de ação de Alisson.

Nos pênaltis, Rodrygo e Marquinhos desperdiçaram suas cobranças e a Croácia avançou para enfrentar a Argentina nesta terça-feira (13).

Fim da “Era Tite”

Chegou ao fim a “Era Tite” na seleção brasileira. Foram seis anos de um bom trabalho no comando do Brasil, porém, os fracassos em Copas acabam pesando na avaliação.

O “acaso” faz parte do futebol e voltou a se fazer presente em mais um dia frustrante para o torcedor brasileiro.