Briga entre torcidas não é novidade: o papel da segurança no confronto da Ressacada

Torcedores de JEC e Avaí entraram em confronto do lado de fora da Ressacada enquanto o jogo rolava na tarde de sábado (12)

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A bola já rolava no segundo tempo entre Avaí e JEC na Ressacada quando a movimentação na arquibancada ocupada pela Mancha Azul chamou tanta atenção a ponto de desviar o olhar da torcida do campo para a correria e, posteriormente, para o lado de fora do estádio. A briga entre a Mancha e a União Tricolor que chegava com parte de seus integrantes em um micro-ônibus acende, novamente, o alerta para os embates recorrentes entre torcidas organizadas que, infelizmente, acabam em tragédias muitas vezes.

Jogo já estava no segundo tempo quando briga iniciou do lado de fora da Ressacada – Foto: Reprodução/InternetJogo já estava no segundo tempo quando briga iniciou do lado de fora da Ressacada – Foto: Reprodução/Internet

Para além da discussão já realizada intensamente e potencializada a cada encontro entre as torcidas que começa ou termina em briga e feridos, o que aconteceu em Florianópolis levanta alguns pontos importantes e que poderiam evitar as cenas de brutalidade no entorno da Ressacada enquanto, dentro de campo, os dois times lutavam pelo resultado.

É notório e sabido que a rivalidade entre Mancha Azul e União Tricolor é, talvez, ainda maior do que a estabelecida entre JEC e Avaí ao longo dos anos. Quem se importa minimamente em entender o contexto das torcidas organizadas fugindo da análise rasa que para em “são marginais fardados” sabe que já existiram confrontos, brigas, mortes, ‘roubos’ de materiais, alianças com torcidas de outros estados para conquistar os materiais como troféu e por aí vai.

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Sabendo de todo o histórico e contexto envolvido no clássico dentro de campo e na rivalidade fora dele era de se esperar o bom senso ações que poderiam evitar o confronto que, é bem verdade, poderia ser evitado pela simples atitude das torcidas, mas que no mundo real do futebol e da passionalidade das torcidas organizadas, não aconteceria.

O primeiro ponto: o local em que aconteceu a briga é, basicamente, no portão de entrada da Mancha Azul e muito próximo da sede da torcida, que fica em frente ao estádio. É rotina que os veículos de transporte das torcidas organizadas, sejam eles de pequeno ou grande porte, sejam escoltados pela Polícia Militar a fim de garantir a segurança dos torcedores e evitar esse tipo de confronto.

Além disso, é praxe que a torcida visitante seja direcionada para entradas alternativas afastadas, justamente, da torcida organizada da casa. Por que, então, o micro-ônibus da União passava exatamente no ponto de ebulição de uma possível briga? E sem uma escolta que evitasse a aproximação da torcida da casa?

Imagens foram gravadas de dentro da Ressacada – Vídeo: Reprodução/Internet

O segundo ponto: quando a confusão já começou do lado de fora, com torcedores tricolores descendo do veículo e aqueles que estavam fora do estádio batendo boca, o portão da Ressacada simplesmente se abriu e um grupo numeroso da Mancha Azul correu para o lado de fora, momento que chamou a atenção dentro do estádio e eclodiu no confronto fora da Ressacada.

Como os portões se abriram? Como a segurança permite que torcedores deixem o estádio para brigar e retornem depois como se nada tivesse acontecido? É inadmissível, não se pode, sob hipótese alguma, admitir que uma torcida organizada, reconhecidamente rival da que chegará ao estádio, consiga sair, brigar e voltar para assistir o resto do jogo.

O terceiro ponto: a insuficiência e o despreparo do policiamento. Santa Catarina inteira sabe o tamanho do clássico JEC e Avaí. O estado inteiro reconhece a rivalidade dentro e fora de campo e a Polícia Militar está longe de ser uma corporação descolada dessa realidade.

Eu mesma já estive na Ressacada como torcedora com um grupo considerável de policiais garantindo a segurança da partida e de tudo que a envolve. Por que, então, em um momento delicado dos dois times no campeonato, com as duas torcidas exaltadas com seus resultados, havia um número ínfimo de policiais no setor onde a torcida organizada está? Não é desconhecimento sobre o histórico do confronto e das torcidas, certamente. Também não é inexperiência, uma vez que a PM acompanha todos os jogos no estado.

PM chuta cabeça de torcedor em Florianópolis – Vídeo: Divulgação/ND

Além disso, o despreparo evidente daqueles que se envolveram no episódio está estampado nas imagens. Independentemente do cenário de briga e confusão que se apresentava, um policial, teoricamente preparado para situações de conflito, não pode agir dessa maneira. Ainda não identificado, um policial chuta a cabeça de um torcedor avaiano, que fica imóvel, sem qualquer reação ou movimento, antes de ser retirado pelos próprios policiais.

Certamente, a indignação geral caminha entre frases como “se não tivesse saído para brigar, isso não aconteceria”. E aí voltamos ao ponto acima, a torcida não poderia ter saído. Cabe à segurança do estádio responder como os torcedores conseguiram, com tanta facilidade e agilidade, acessar a rua para inflamar a confusão e transformar a rua em um cenário de guerra. E a irresponsabilidade do torcedor não justifica a ação de um servidor que, repito, deveria estar preparado para conter situações de conflito, não agravá-las desmaiando um torcedor.

Criminalizar as torcidas organizadas não vai simplesmente frear atitudes e ações como as que aconteceram na Ressacada. Com uniforme ou não, com nome ou não, os torcedores continuam sendo passionais. A discussão sobre a segurança dentro e fora dos estádios não pode ser rasa a ponto de achar que proibições de nomenclatura e uniforme vão cessar cenas como essas. Cada uma das partes precisa assumir sua responsabilidade. E o episódio da Ressacada poderia ser evitado se uma das partes tomasse a providência devida.

Se o ônibus não passa no meio da torcida da casa, se o portão não abre como se nada fosse, se o policiamento fosse suficiente e preparado. Há variáveis que precisam deixar de ser “opcionais” ou a tragédia pode ser ainda maior.

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