‘Criminosos não merecem as lágrimas dele’, diz zagueiro alvo de racismo em SC sobre Vini Jr

Em jogo da Série D do Campeonato Brasileiro em 2023, Rafael Lima se preparava para entrar em campo na estreia do clube na competição quando ouviu gritos vindos da arquibancada

Foto de Ian Sell

Ian Sell Florianópolis

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O zagueiro catarinense Rafael Lima, do Hercílio Luz, sentiu na pele o que é ser vítima de racismo, assim como o atacante Vinícius Jr, alvo recente do preconceito, desta vez na Espanha.  Em jogo da Série D do Campeonato Brasileiro em 2023, Lima se preparava para entrar em campo na estreia do clube na competição, quando ouviu gritos vindos da arquibancada.

Rafael Lima, zagueiro do Hercílio Luz, foi vítima de racismo em jogo na Série D do Campeonato BrasileiroRafael Lima, zagueiro do Hercílio Luz, foi vítima de racismo em jogo na Série D do Campeonato Brasileiro – Foto: William Lampert | Hercílio Luz FC | ND

As ofensas ocorreram no estádio Cristo Rei, em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. De costas, o defensor não conseguiu identificar quem o havia agredido.

Na ocasião, o trio de arbitragem, comandado por Murilo Ugolini Klein, chegou a ouvir as falas do torcedor e registrou a situação em súmula. Rafael chegou a registrar um boletim de ocorrência após o jogo. Mas, o que chama a atenção, especialmente na semana onde os olhos do mundo inteiro se voltaram ao crime sofrido por Vinicius Jr. na Espanha, é a impunidade.

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Rafael Lima concedeu entrevista ao Arena ND+ na tarde desta quarta-feira (24). Em pouco mais de 20 minutos, o jogador abordou o tema do atacante do Real Madrid e situações que ele, jogador de 37 anos, também sofreu ao longo da carreira.

Rafael Lima durante jogo do Hercílio LuzRafael Lima durante jogo do Hercílio Luz – Foto: William Lampert | Hercílio Luz FC | ND

Confira a entrevista na íntegra:

Arena ND+: O futebol pode ser uma ferramenta social na luta contra o racismo?

Rafael Lima: É cada vez mais importante estarmos falando sobre o assunto até que a gente não precise falar mais. O futebol, especificamente, tem uma voz muito grande em termos de sociedade. Haja vista o que aconteceu com o Vini, você pode perceber que o mundo inteiro tem falado sobre o assunto. Você vê como é um assunto muito grave que atinge atletas e a sociedade de um modo geral. Eu, por exemplo, já fui em shoppings, que são considerados ‘shoppings de ricos’ e a gente vê nos olhares que as pessoas te olham com desconfiança como se você fosse roubar alguma coisa lá. Não só no futebol, mas o dia a dia de uma pessoa preta, mesmo que tenha uma condição financeira boa, é difícil.

Comente, por favor, seu caso na Série D, na estreia do Hercílio Luz.

Já passei por isso infelizmente no início da minha carreira. Na oportunidade, por erro meu, acabei não denunciando. Eu hoje tenho duas filhas, uma de 2 anos e outra de 16, e a mais velha já entende tudo. Eu já ensinei ela desde cedo que quando ela passar por situações constrangedoras ela tem que realmente denunciar de alguma forma. Dessa vez que aconteceu lá no Rio Grande do Sul. Para azar do criminoso, o time de arbitragem ouviu. Ao término do jogo o árbitro veio até o nosso vestiário e passando que ele teria que citar em súmula, mas que eu precisaria registrar um B.O. Infelizmente como eu e a arbitragem estávamos de costas não foi possível reconhecer quem tinha gritado.

O jovem jogador brasileiro que vai jogar na Europa pode chegar lá com medo de situações como essa?

O que tem que ser passado é que é uma minoria, a maioria das pessoas estão ali para ver o espetáculo. Na Europa principalmente eles [torcedores] compram o pacote do ano para estar no estádio. O atleta de futebol quando ele cresce, a maioria deles na periferia, independente de ser preto ou branco, mas a grande maioria é pobre e cultiva o sonho de seguir carreira, jogar em um grande clube no Brasil e na Europa para dar uma boa condição de vida aos seus familiares, ele já vem sendo preparado para tudo. Mas esse tipo de situação é humilhante para a pessoa que passa.

O que faria no lugar do Vini?

No caso do Vini, eu acho que ele só cometeu um erro, que foi ter chorado. Esses criminosos, e ali foi mais de um, infelizmente, não merecem as lágrimas dele.

Ele vem realmente voando, desfilando nos campos, merecendo todos os elogios e sendo citado como um dos melhores atacantes do mundo, então ele tem que enfrentar aquilo de cabeça erguida. Não é nada fácil, quem passa sabe disso. Mas, somente ele estando forte neste momento e tendo a voz que ele tem vai poder denunciar e fazer com que esses criminosos sejam expostos.

Veja trecho da entrevista do zagueiro ao Arena ND+ – Vídeo: Reprodução/ND

Sair da Espanha seria o ideal?

Eu não posso dizer o que ele deve fazer. No lugar dele eu faria uma análise de todo o contexto, dos prós e contras. Ele joga num clube onde é extremamente respeitado, que briga por todos os campeonatos. É obviamente um caso muito grave, mas ele é adorado por muitas pessoas.

Uma minoria de ignorantes, criminosos que fazem isso. Ainda bem que estamos em novos tempos onde as pessoas que são de bem, por mais que elas não estejam sendo afetadas diretamente, elas também estão se sentindo mal com os fatos e também estão denunciando.

Sabemos que as leis, principalmente na Europa, realmente seguem à risca e eles sendo expostos vai ficar difícil para eles. O Vini tem muito futebol pela frente, uma vida de felicidade pela frente. De repente, seria até muito bom ele permanecer [na Espanha], porque essas pessoas vão ver que, mesmo com todos os atos criminosos que vêm cometendo, dentro de campo ele [Vini] continua desfilando e fazendo gols.

Faltou amparo do Real Madrid?

Foi um grande erro do Real Madrid. O clube estava separando o atleta do ser humano, e não tem como separar. Os atos aconteciam e o Vini seguia jogando bem, e o Madrid praticamente virava as costas para os atos.

Nesses últimos dias vimos algo diferente, o presidente Florentino Pérez fez reuniões com o Vinicius, já repudiando tudo o que havia acontecido e dizendo que realmente não vai admitir mais. A gente sabe que um time do tamanho do Real, quando toma esse tipo de decisão, e se realmente for seguida à risca, sabemos que esses criminosos vão estar em apuros, realmente vai acontecer algo diferente do que vinha acontecendo.

 O futebol também é um meio de educação. Nos estádios vemos 30, 40 mil pessoas. No meio delas tem gente boa e gente ruim e que essas pessoas ruins saibam que o futebol não é uma terra de ninguém.

Vini aponta para torcedor na arquibancada que proferiu ofensas racistas – Foto: JOSE JORDAN / AFP / NDVini aponta para torcedor na arquibancada que proferiu ofensas racistas – Foto: JOSE JORDAN / AFP / ND

Como foi o amparo do Hercílio Luz no seu caso?

O clube me tratou com muito respeito, já colocando nas redes sociais que repudiava o ato. O pessoal da diretoria já pegou o B.O e cobrou uma ação da Federação Catarinense de Futebol e em termos de CBF também.

Evolução da sociedade como um todo

Precisamos primeiro tratar as pessoas como iguais, e depois que o próprio Estado possa proporcionar isso. Eu nasci e cresci em uma favela, só que meus pais passaram para mim que não teriam nada a me deixar em termos financeiros, mas teriam muito a me deixar em termos de educação e estudo. Procurei estudar para melhorar como ser humano e entender meu lugar no mundo. Também para que eu pudesse, quando fosse pai, e hoje sou, passar para meus filhos o que tem de melhor no mundo e o que tem de pior para que eles pudessem se preparar.

Penso que o Brasil precisa fazer com que a sociedade trate de maneira igual a todos, que proporcionem oportunidades em termos de estudo. Sabemos que do colégio público para o particular é uma distância muito grande. Eu sei disso porque sempre estudei em colégio público e minha filha mais velha teve a oportunidade de estudar no particular. É uma educação totalmente diferente. Começa por aí, para que as pessoas pretas possam ingressar numa universidade com as mesmas condições de uma pessoa branca.

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