“Não há nada maior que uma Copa do Mundo”.
Essa espécie de verdade absoluta foi proferida pelo presidente da Fifa, Gianni Infantino.
O contexto onde a resposta do chefe da entidade máxima do futebol foi inserido, no entanto, é controverso.
SeguirA afirmação faz parte do argumento encontrado por Infantino para responder acerca das mortes do trabalhadores envolvidos nas obras para a edição do Catar da Copa do Mundo, que começou neste domingo (20).
Não há confirmação do número de mortes associados diretamente às obras desta edição do mundial.
Há, por outro lado, evidencias às péssimas condições trabalhistas ofertadas aos funcionários – em sua maioria imigrantes – deliberados para erguer uma “cidade” a todo custo.
“Não existiam equipamentos de proteção individual. Iam para obras de sandálias. Isso demonstra que não havia preocupação com ninguém” testemunhou o arquiteto Décio Ferreira, português que assinou a construção do estádio Lusail, que vai receber a final da Copa do Mundo do Catar, em entrevista concedida ao Podcast do Arena ND+, Ao Mestre com Carrinho.
Junto de indícios abjetos de violação dos direitos humanos, a verdade é que o Catar jamais cativou como um país-sede de Copa do Mundo.
À sombra da evidente pouca tradição do País em mundiais – e em sua existência já que o Catar foi fundado em setembro de 1971 – fortes rumores tomaram conta da imprensa de todo o planeta, na última semana, envolvendo tentativa de suborno na partida de abertura entre Catar e Equador.
Ainda que nada comprovado e diante de um placar favorável ao time equatoriano, como acreditar em isonomia de uma entidade que há décadas, com ações e omissões, se prostitui frente a incontáveis (petro) dólares?
Como se todos esses elementos não bastassem, interferiu no eixo supersticioso de todo ser humano que se preze ao empurrar a janela dos jogos do meio para o final do ano e mudar a “época” de Copa do Mundo.
Essa interminável fábrica de fazer história e copiar à vida, chamada futebol, prestou sua colaboração a todos esses fatores, ao dar ao equatoriano Enner Valência, autor dos dois gols da estreia diante do Catar, a condição de “herói nacional” após o duelo de estreia da edição 2022.
Valencia coleciona polêmicas na carreira. Talvez na mais marcante, forjou uma lesão em uma partida entre Equador e Chile, em Quito (EQU), para sair de ambulância de um jogo válido pelas Eliminatórias da Copa do Mundo da Rússia, disputada em 2018.
O objetivo do atleta era fugir da polícia que o aguardava do lado de fora do estádio, em função de um mandado de prisão em aberto reflexo de atraso no pagamento da pensão de sua filha. O jogador conseguiu deixar o País após perseguição constrangedora e criminosa, com uma dívida ao redor de US$ 17 mil (mais de R$ 91 mil na cotação deste dia 20).
O escritor uruguaio Eduardo Galeano, em seu livro denominado Futebol ao Sol e à Sombra (1995), revela as atrocidades do futebol mundial e seus bastidores nas mais diferentes esferas, mas ainda de maneira contumaz e astuta, evidencia esse sentimento abstrato e indescritível em torno dessa que é uma das grandes invenções do ser humano.
Em um misto de Gianni Infantino e Eduardo Galeano – respeitando sempre suas devidas e merecidas prateleiras – fica o desejo de que tenhamos uma Copa do Mundo inesquecível, apesar de todo e qualquer pesar.