O futebol, nessa amostra grátis do que é a vida com seus feitos e defeitos, é composto de símbolos. Esta Copa do Mundo, por exemplo, de paupérrimos jogos, arrastados empates sem gols e zebras irrelevantes, é simbolizada no insosso e preconceituoso país-sede.
Neste domingo (27) tivemos mais uma seleção eliminada da Copa do Mundo de 2022: o Canadá. País de presença confirmada na próxima edição do evento – ao lado de Estados Unidos e México – o Canadá marcou seu primeiro gol em mundiais nos pés de Alphonso Davies, 22 anos, jogador do Bayern-ALE.
Trata-se de um refugiado, nascido em Buduburam, em Gana. Filho de pais liberianos, a família se mudou para o Canadá onde foi amparada pela ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados), entidade responsável por mais de 80 milhões de pessoas em situação parecida.
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Alphonso Davies comemora o gol do Canadá contra a Croácia – Foto: Jewel SAMAD/AFP/NDDavies, em grande lição de humanidade mesmo com pouquíssima idade, é embaixador do Alto Comissariado, órgão que ajuda – e já destinou seu bônus por participar da Copa do Mundo.
Afora a certeza de que trata-se do melhor jogador do selecionado canadense, há uma força natural que evidencia a necessidade e a importância de recair sobre ele a responsabilidade e história de ser o primeiro canadense a marcar em mundiais.
A Copa do Mundo, e aí sim sem mencionar sua asquerosa entidade organizadora e muito menos o País que sedia a atual edição, ocupa um plano à parte do universo.
Desafia a lógica do futebol – como se essa condição existisse nesse maravilhoso esporte. O equatoriano Enner Valencia, por exemplo, tem uma média de gols superior a ninguém menos que Garrincha, Romário e Puskas. Atualmente com três gols na edição de 2022, Enner Valencia já anotou seis gols em cinco jogos disputados em Copas do Mundo.
Ainda nessa linha o temido polonês Robert Lewandowski, por exemplo, foi desencantar só neste sábado, depois que o zagueiro da Arábia fez uma lambança e praticamente entregou a bola nos pés do letal centroavante que, finalmente, conseguiu marcar seu primeiro gol em uma Copa do Mundo, aos 34 anos.
Para esta segunda-feira (28), dia do segundo jogo do Brasil no Grupo G, a seleção vai sem Neymar, o principal nome da seleção e – queira ele, esperneie, publique, ou não – o símbolo de uma geração de antipatia com a camisa pentacampeã mundial.
Richarlison comemora o segundo gol do Brasil – Foto: Lucas Figueiredo/CBF/NDNão trata-se de ‘torcer’ pela sua lesão. A verdade é que o Brasil mostrou que pode ir além sem seu camisa 10. Com um vasto leque de opções, o técnico Tite sabe que pode manter o nível da equipe, ainda que o Menino Ney seja – futebolisticamente falando – de outra turma.
Mais que isso é possível torcer para esse Brasil que tem e vê em Richarlison o seu grande símbolo. Que venha a Suíça!
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