Dívidas, SAF, contratações: presidente do Avaí detalha momento do clube em entrevista ao ND+

Júlio Heerdt conversou com o Arena ND+ após reunião geral do conselho deliberativo do clube, que detalhou possíveis soluções para equacionar as dívidas do Avaí

Foto de Ian Sell

Ian Sell Florianópolis

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Conselheiros do Avaí se reuniram na noite da última segunda-feira (13) para para apresentar o relatório de finanças produzido por uma comissão temporária, formada em novembro de 2022, para analisar as contas do clube.

Presidente Júlio Heerdt conversou com o Arena ND+Presidente Júlio Heerdt conversou com o Arena ND+ – Foto: Leandro Boeira/Avaí F.C/ND

A comissão levantou todos os ativos e passivos do clube, além de fazer uma análise do histórico de dívidas da instituição.

  • Dívida do Avaí em dezembro de 2022: R$ 107 milhões
  • Ativos do Avaí em dezembro de 2022: R$ 118,7 milhões

Dentro desta análise foram expostas alternativas para que o clube possa arcar com os passivos, como manter o pagamento do acordo trabalhista e do regime de concentrado de execuções e procurar acordo, que está já em negociação, para pagamento das dívidas tributárias e fiscais.

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Além disso, a comissão também sugeriu estratégias para geração de receitas e obtenção de benefícios fiscais e incentivo ao esporte, como aperfeiçoar e melhorar a formação de atletas, melhorar o marketing e a aproximação com seu consumidor, além de recomendar à diretoria que realize estudos sobre o modelo de Sociedade Anônima (SAF).

A comissão foi composta por Gilson Kremer, Fernando Porto Martins, Grégor Goedert de Oliveira, Gustavo Tremmel do Valle Pereira, José Carlos Silva Júnior, Tullo Cavallazzi Filho, Victor Trevisol Muller e Luis Fernando Correa de Sousa.

O relatório completo apresentado pelo clube pode ser conferido no link.

Dívida do Avaí cresceu de R$ 66 para R$ 100 milhões entre 2017 e 2021 – Foto: Avaí/Divulgação/NDDívida do Avaí cresceu de R$ 66 para R$ 100 milhões entre 2017 e 2021 – Foto: Avaí/Divulgação/ND

No dia seguinte, o presidente do Avaí, Júlio Heerdt, recebeu a reportagem do Arena ND+ em seu escritório no estádio da Ressacada. Em entrevista de aproximadamente 45 minutos ele falou sobre o momento financeiro do clube, possibilidade de SAF, reforços para a Série B, além das alternativas para conseguir pagar as dívidas e formar um time forte para colocar o clube novamente na Série A do Campeonato Brasileiro.

Confira a entrevista na íntegra:

Como equacionar as dívidas?

Júlio Heerdt: Existem vários caminhos para o clube trilhar para conseguir equacionar a questão financeira e ao mesmo tempo fazer uma boa gestão. Primeiro, performance em campo traz receitas para os clubes. Trazendo receita você consegue gerir melhor sua dívida. É um dilema de decisões que a diretoria precisa tomar.

No ano de 2022 já fiz várias medidas de contenção de despesas, revendo todos os contratos do clube, contratos de camarote, cortamos a questão do sub-23. Começamos olhando a questão de tributos, tiramos profissionais que tinham CLT e contratamos substitutos como PJ, o que gera uma economia tributária para o clube.

Temos o regime concentrado de execuções, que é a entrada das dívidas cíveis, na ordem de R$ 25 milhões. Posteriormente devemos sentar com os creedores e fazermos o que se chama de haircut, um desconto, para fazer os pagamentos dentro de um plano de ação.

O nosso maior item de dívidas são as fiscais, de impostos não pagos, dívidas com o governo federal. Isso somava cerca de R$ 58 milhões no início de 2022. Se não for feito um parcelamento, essa dívida vai crescendo. Nas condições atuais o Avaí não teria como pagar essa dívida, já estamos com dificuldades para manter os salários em dia, quanto mais ainda ficar pagando dívidas do passado.

O clube deu início às negociações junto à Procuradoria da Fazenda Nacional com o intuito de realização de uma Transação Tributária Individual aproveitando assim os benefícios legais de redução dos valores com alongamento do prazo de pagamento da dívida.

Quadro financeiro apresentado pelo Avaí Quadro financeiro apresentado pelo Avaí – Foto: Avaí/Divulgação/ND

Uso da base no Estadual

Júlio Heerdt: A própria ação de iniciar o ano usando atletas da base, mais baratos, formados no clube e pegar um treinador, o Alex, com característica para trabalhar com eles, foi uma estratégia premeditada. Falamos o seguinte: ‘vamos segurar firme eventuais problemas de alguns resultados porque isso é natural dos jovens’.

O êxito esportivo vai tirar o Avaí das dívidas, é o único caminho. Trouxe o Conselho Deliberativo para ser parceiro da diretoria executiva. As decisões que vamos tomar, como a entrada na Liga Forte Futebol, que consegui por unanimidade, eu preciso da aprovação deles, e agora vamos chamar uma Assembléia Geral para que os sócios opinem sobre a entrada ou não do clube.

Ações da diretoria

Júlio Heerdt: Com o advento de vários mecanismos que os clubes estão tomando, precisamos escolher quais os caminhos. Vou continuar reduzindo despesas, buscando receitas alternativas, usando a tecnologia para trazer o torcedor mais próximo.

Estamos mudando a roda, mudando a dinâmica, tendo criatividade e outras alternativas para tentar trazer mais recursos para o clube. Não temos uma bala de prata para resolver isso, temos um conjunto de soluções que, somadas, a gente possa fazer essa situação.

Se der certo a questão da Liga Forte Futebol o clube deve receber um valor, além de participar de uma distribuição mais equânime, justa de receitas. Tudo isso vai coloborando com este movimento financeiro do clube.

Temos o desafio de resolver as dívidas trabalhistas do passado, manter a questão de não aumentar essa dívida, resolver as dívidas cíveis que ficaram penduradas e pagar os impostos correntes. Se estiver como impostos atrasados, você faz essa transação tributária e coloca no seu orçamento e passa a fazer parte do fluxo de caixa para você ir trabalhando.

O que foi debatido na reunião do conselho

Júlio Heerdt: Na reunião foi mostrado de forma clara a composição da dívida do clube, a estrutura de receitas e gastos mostrando que o clube está em equilíbrio, mas que tem esse grande deficit passado, que precisa ser atacado de alguma forma.

Vamos manter o ato trabalhista, continuar nesta estratégia. Optamos pelo regime concentrado de execuções na questão cível e vamos fazer uma transação tributária.

O que outros times estão fazendo para manter uma presença constante na Série A? vamos pegar o caso do Ceará, que estava tentando ficar o quinto ano seguido na Série A. Eles estavam com salário na faixa de R$ 5 a R$ 6 milhões de reais [mensal]. O Avaí tinha R$ 1,5 milhão. Nesse contexto, o Ceará não conseguiu ter essa longevidade de 15, 20 anos com esse patamar salarial, tamanho de torcida e apoio que o Estado dá.

Como esse nível de receita para chegar neste patamar pode ser alcançado? O Avaí pode fazer isso sozinho? Pode tentar! O Avaí pode buscar um parceiro, um investidor? Fazer como o Bahia fez, por exemplo, fazer o que o Coritiba está fazendo com um fundo, ou como o Botafogo fez com um mecenas? Todas essas são alternativas que estão colocadas no mercado em que o Avaí vai precisar tomar essa decisão.

Possível SAF no Avaí

Júlio Heerdt: O Júlio presidente não vai tomar essa decisão sozinho. O conselho não rejeitou a ideia de SAF, mas apontaram que a diretoria executiva tem que trabalhar com alternativas, SAF, inclusive, ou outros caminhos.

A SAF é uma forma de você chegar, mas não o fim, o fim é ficar entre os 15 do futebol brasileiro. Qual estratégia que você vai usar pra chegar lá? Se for por SAF, vai ser por SAF, se não for, será por outra maneira. Isso não é uma premissa, é uma consequência, uma forma de caminhar.

Tem um mercado, a Liga Forte Futebol está demonstrado que temos um produto mal trabalhado, que pode ter um potencial muito grande de crescimento. Sou presidente do Avaí, mas não sou dono do Avaí. Se trouxermos um investidor, o Júlio, pessoa física, não ganha nada. E não quero ganhar nada. O que eu quero é ver o Avaí entre os 15 do Brasil, ganhando jogos e campeonatos.

Liga Forte Futebol

Júlio Heerdt: É um processo gradativo essa injeção de dinheiro que pode vir através da Liga Forte Futebol. De nada adianta entrar um dinheiro para o Avaí e todos os clubes tomarem a estratégia de contratar jogadores. Porque você terá uma demanda enorme e uma oferta pequena de jogadores.

Um dinheiro que entrou em uma liga foi 85% para salários, ou seja, só subiu a régua, e ao invés de você gastar com um elenco de 1 milhão, ele vai custar 10 milhões e continuo com a mesma estrutura financeira deficitária.

Estamos conversando com os clubes que esse dinheiro não pode ir 100% para o futebol, tem que ser colocado em infraestrutura, melhoria de gramado, pagamento de dívidas. A ideia é que haja um fair play financeiro no mercado, e que não haja uma inflação gigante no salário dos jogadores.

Permanência na Série A aliada ao equilíbrio financeiro

Júlio Heerdt: Ano passado falamos em um projeção de quatro anos seguidos na Série A. A projeção segue, mas digamos assim, naquele viés estávamos estudando uma forma de endereçar a dívida, deixar o clube sem amarras.

O que acontecia no cotidiano do clube? Entrava o dinheiro, digamos do direito de televisão, e eu não tinha acesso. O dinheiro entrava em uma conta judicial, e acontece até hoje com essa situação. Nessa conta judicial o juiz tira 15% para fins de pagamentos trabalhistas e libera 85% para a conta do Avaí.

Essa conta do Avaí a gente tinha que gastar esse dinheiro logo porque se não vinha uma ação cível bloqueando esse dinheiro. Nesse contexto, para equacionar e deixar o clube minimamente gerenciável, para você pagar as dívidas que você tem interesse primeiro em detrimento da força judicial que vinha, esse quadro de ficar na Série A quatro anos seguidos era necessário para você fazer um elenco enxuto e sem erros.

Algum investidor já procurou o Avaí?

Júlio Heerdt: O mercado está aquecido, muita gente vem procurar o Avaí para especular, ver como está a situação, como estamos vendo. Eles buscam algumas questões que são fundamentais.

O que os investidores buscam? Como estão os números do clube, se está organizado, quem está auditando o balanço, se esse balanço é sério, quem são os gestores, qual o tamanho da torcida, se tem estádio próprio, qual divisão que ele faz parte, qual a renda per capita das pessoas que frequentam o clube.

Leão da Ilha vive momento conturbado dentro de campoLeão da Ilha vive momento conturbado dentro de campo – Foto: Fabiano Rateke/Avaí/Divulgação/ND

O que um clube deveria olhar para um investidor? Quem é o investidor, se ele tem comprovação de que tem o dinheiro, se você trouxer o investidor ele gostará de ser uma espécie de sócio, que tipo de agregação esse sócio vai trazer? É só dinheiro? É dinheiro e know-how? Que tipo de know-how que ele vai trazer?

Um clube de futebol hoje está vinculado a um esporte, mas na verdade ele é um gerador de conteúdo real time. Nós estamos dentro do ramo do entretenimento. Esse parceiro precisa trazer know-how de entretenimento.

Palmeiras e Grêmio resolveram seus problemas com parcerias. Seria que esse seria um caminho para o Avaí? Isso é um caminho para Avaí ou para Florianópolis?

Quanto mais organizado o Avaí estiver, menos pressa ele terá para definir este tipo de situação, porque quando você está com o “barco afundando”, a primeira ‘boia’ que aparece você precisa se agarrar. Temos que “casar com a moça correta”.

O que fazer caso não encontre um investidor?

Júlio Heerdt: Se não acharmos um bom caminho, vamos continuar como estamos e vamos trabalhar nas medidas que estamos fazendo no dia a dia. Se tivermos uma boa proposta, com um bom investidor, uma boa situação, vamos estudar, levar para o conselho, levar para a assembléia geral e tomar uma decisão.

Estamos no ano do centenário, a expectativa é muito grande. Seria esperto da minha parte ou da parte do clube fazer contratos com jogadores sabendo que eu não ia conseguir pagar e ao final do ano, aos 47 do segundo tempo, arrumar um gol de cabeça e conseguir o acesso e então falar que vou botar a mão no dinheiro da Série A e pagar os atrasados.

Isso resolveria? O sistema atual de distribuição na Série A é tão disparelho, que se fosse de uma forma igualitária eu tinha 20% de chances de cair, são quatro clubes de 20 que caem. Com a disparidade financeira, eu diria que a chance de o Avaí subir e cair no ano seguinte é perto de 80% a 90%.

Isso traz para a gestão a não previsibilidade das coisas, como terei uma estrutura de Série A com um orçamento de B? Como vou manter um profissional, ou organizar a questão da base? Essa oscilação vai te minando e é muito mais fácil você conseguir quebrar o clube do que você manter ele lá em cima.

‘Obrigação’ de chegar à final do Estadual para vaga na Copa do Brasil

Júlio Heerdt: Essa mudança foi recente feita pela CBF, o Avaí não participou desta ação. Santa Catarina perdeu muito, Iniciamos 2023 com seis representantes na Copa do Brasil, alguns eram por ranking.

Avaí e Criciúma vão disputar um mata-mata e só um dos dois vai conquistar a vaga da Copa do Brasil pelo Campeonato Catarinense. Quem perder provavelmente vai ter que buscar essa vaga pela Copa Santa Catarina no segundo semestre, é inevitável.

Nós não fazemos as regras do jogo, mas cumprimos elas. Espero que a gente passe pelo Criciúma, chegue na final e consiga a vaga na Copa do Brasil por caminhos normais.

Reforços para a Série B

Júlio Heerdt: Para o Campeonato Brasileiro a gente precisa se reforçar, já está na programação do nosso orçamento reforços para a Série B. O Avaí é um dos times grandes da Série B, tem brigado sempre nas cabeças e vamos continuar brigando. Deve vir cinco, seis, talvez sete jogadores para aumentar o nível do elenco.

Se conseguirmos, dentro do elenco atual, mantê-los saudáveis e disponíveis ao treinador, também ajuda.

Avaliação do trabalho do Alex

Júlio Heerdt: Eu procuro pensar que os resultados em campo são importantes, mas não são a única coisa para se pensar em manutenção ou retirada do treinador. A avaliação do dia a dia dele [Alex] é positiva.

Não passa na minha cabeça demitir um treinador que recém contratei, e depois trago de novo com um grau de incerteza. O clube tem um projeto.

Técnico Alex durante jogo do Campeonato Catarinense – Foto: Fabiano Rateke/Avaí/Divulgação/NDTécnico Alex durante jogo do Campeonato Catarinense – Foto: Fabiano Rateke/Avaí/Divulgação/ND

Eu só vou resolver a questão financeira do clube com performance em campo. E eu só vou ter performance em campo se eu tiver um elenco coeso e um treinador bom. Preciso entender até onde o treinador é problema e até aonde é solução. Isso é uma análise que será feita em conjunto.

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