Após 12 anos, JEC elege presidente com voto do torcedor

Bate chapa acontece nesta quarta-feira (9) com Charles Fischer e Darthanhan Oliveira disputando a presidência do clube

Foto de Drika Evarini

Drika Evarini Joinville

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Há mais de uma década o torcedor joinvilense não tem a oportunidade de decidir quem comandará o JEC. A eleição com bate chapa acontece nesta quarta-feira (9), após 12 anos de “passagem de bastão”. A última vez que o torcedor tricolor deu seu voto foi em 2008, quando Márcio Vogelsanger assumiu a presidência ao vencer Vilmar Steil no pleito eleitoral.

Eleição JEC Arena JoinvilleEleição no JEC com bate chapa e voto do torcedor acontece após 12 anos – Foto: Carlos Junior/Arquivo/ND

De lá para cá, Nereu Martinelli, Jony Stassun e Vilfred Shapitz assumiram a responsabilidade de gerir o clube. As gestões, no entanto, são muito criticadas pela torcida que enxergam as diretorias como “amadoras”.

Apesar de ter conseguido dois títulos brasileiros e o sonhado acesso à Série A, problemas de gestão afundaram o Joinville Esporte Clube em dívidas e péssimos resultados em campo que tiraram o time do céu dos títulos das séries C (2011) e B (2014) ao fundo do poço da Série D em 2020, novamente.

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A eleição estava inicialmente marcada para o dia 4 de dezembro, mas precisou ser readequada e será realizada em formato drive thru por conta das restrições impostas no combate à pandemia da Covid-19. De um lado, o atual diretor de comunicação do clube, Charles Fischer, candidato pela chapa JEC Sustentável. De outro, o presidente do Conselho, Darthanhan Oliveira, candidato pela chapa JEC50.

Torcedor e jornalista, Maicon Silva, de 34 anos espera que o vencedor tenha como foco o planejamento do clube. “Nos últimos anos essa falta de planejamento fez com que a situação se tornasse insustentável. Um clube como o JEC não pode ficar refém de abnegados apenas. Tem que ter pessoas que entendam o que estão fazendo”, fala.

O analista de sistemas Guilherme Luiz Weiler ressalta a importância do processo democrático no clube, com mais de uma chapa interessada em assumir o comando do clube após mais de uma década. Guilherme ressaltou, ainda, os antagonismos apresentados pelas duas chapas que tem, como cabeça, dois nomes bem conhecidos da torcida.

“Eles deixaram evidente para os sócios que há projetos diferentes de gestão, planejamento, mentalidade e de futuro do clube. Considerando que há pelo menos cinco anos os resultados dentro e fora de campo são, no mínimo, decepcionantes, será interessante assistir e participar dessa próxima gestão independentemente da chapa que vencer, uma vez que a própria disposição de outra chapa de assumir o clube já mostra um desejo de mudança dentro e fora das quatro linhas. Espero que vença a melhor chapa, a mais preparada e a que conseguir efetuar melhor seus projetos para fazer com que o Joinville volte a ser aquele mesmo Tricolor que parava a cidade inteira, com muita emoção e títulos na galeria”, salienta.

Eliminação pelo segundo ano consecutivo na série D é reflexo de problemas extra campo, apontam torcedores – Foto: Vitor Forcellini/JECEliminação pelo segundo ano consecutivo na série D é reflexo de problemas extra campo, apontam torcedores – Foto: Vitor Forcellini/JEC

O analista de negócios Rodrigo Arriola Rochadel, de 32 anos, tem um desejo para o vencedor: que comande o clube de maneira profissional. “As dificuldades do JEC nos últimos anos são em grande parte fruto de decisões amadoras baseadas apenas na boa intenção de pessoas abnegadas pelo clube, mesmo quando estávamos em melhores condições. O clube tem que ser pensado e estruturado com responsabilidade e importância desde a base até o futebol profissional. Que a próxima direção possa fazer isso”, avalia.

Os sócios adimplentes e maiores de 18 anos podem votar das 9h às 20h, na Arena Joinville, apresentando documento oficial com foto. Em sistema de drive thru, os torcedores que não possuírem carros próprios terão automóveis disponibilizados pelo clube, que serão devidamente higienizados após a utilização, seguindo os protocolos sanitários. Atualmente, o Joinville Esporte Clube tem, aproximadamente 2,8 mil sócios.

JEC Sustentável x JEC50

O ND+ conversou com os dois candidatos à presidência do Joinville Esporte Clube e tratou de temas como: dívida, marca do clube, resgate de interesse pelo clube, eleição, diretoria, departamento de futebol e base. Confira o que pensam, quais os planos e as estratégias de Charles Fischer e Darthanhan Oliveira para o futuro do JEC.

Dívida: o clube tenta pagar as dívidas que se acumularam ano após ano e se aproximaram da marca dos R$ 50 milhões

Charles: “Trabalhamos forte para diminuir essa questão fora de campo, já estamos parcelando e negociando. Há um valor para essas questões do passado, o passado infelizmente bate no nosso presente. Paralelamente a isso, precisamos continuar com o objetivo de criar novas receitas. Criamos um projeto para o ano que vem, para a busca de novos patrocinadores. Precisamos pensar no JEC, se eu não estiver aqui, o JEC tem patrocinadores, precisamos pensar no clube como um todo. Precisamos trazer o sócio também, precisamos, no mínimo, saltar de dois para seis”

Darthanhan: “Esse endividamento vem de um bom tempo e eu ligo isso ao modelo de gestão. O endividamento não acabou. Há um ciclo endêmico que faz com que a dívida não acabe. O grande problema é: precisamos urgentemente de receita. Quem assumir terá, pelo menos 40% comprometido para isso, então, precisamos criar receitas. Há duas vertentes para isso: a base, vendendo jogadores e no marketing. Há mais de um ano o JEC não tem um profissional e marketing. O nosso projeto acredita em um plano de gestão unificado em três pilares, onde o futebol será fomentado com um pilar de governança financeira e o marketing business. Precisamos gerar negócios no clube.”

Marca: com os problemas fora e dentro de campo, um dos desafios é fortalecer a marca Joinville Esporte Clube, arranhada por resultados desastrosos de gestão e de futebol

Charles: “Quando chegamos, a marca até assustava, jogador não queria vir, treinador não queria vir, tentava marcar reunião com patrocinadores e não queriam nem receber, as coisas estão mudando, mas precisamos trabalhar nessa questão da marca. Ano passado começamos um trabalho com o JEC nas escolas, lar de idosos e outras ações sociais. A marca não pode estar associada só ao futebol, ela precisa fazer bem para a comunidade. Vamos trabalhar muito fortes nessa questão social, estar inserido na sociedade.”

Darthanhan: “O JEC precisa, urgentemente, mudar o modelo arcaico, o tal do ciclo endêmico, onde diretores abnegados dirigem o clube. É louvável até um certo ponto. A credibilidade está muito ligada a isso, quem vai colocar dinheiro, não acredita mais nesse modelo. Você precisa mostrar um modelo profissional. A torcida precisa disso muito claro, ou continuamos com o modelo que temos há anos ou vai para um plano de gestão profissional, de pessoas que serão cobradas e trabalharão full time no clube. Isso tudo afasta a credibilidade. Nós vamos organizar e tirar uma fatia do orçamento para estruturar departamentos que precisam fomentar receita e recuperar a credibilidade do clube.”

Interesse pelo clube: o JEC perdeu mais de 9 mil sócios em poucos anos, além de apoiadores e patrocinadores

Charles: “Você tem vários caminhos, é preciso fortalecer e organizar a parte financeira. O patrocinador precisa entender que o dinheiro dele não está sendo jogado no lixo. Estamos implantando o ProJuris, um software de controle de contratos, um dos melhores do Brasil, também estamos preparando outra parceria para tudo ser digitalizado. Temos que passar essa transparência, esse é um dos pontos. Os resultados dentro de campo influenciam, montar um elenco demora um pouco e isso vai reacender o interesse e a confiança do torcedor, dizer que o clube está honrando seus compromissos. São coisas dentro e fora de campo.”

Charles FischerCharles Fischer é diretor de comunicação do clube e candidato à presidência pela chapa JEC Sustentável – Foto: Vitor Forcellini/JEC

Darthanhan: “Primeira coisa é mostrando nosso plano de gestão, quem viu, entendeu que há um projeto. Para executar isso, é preciso de pessoas qualificadas e dinheiro. Mostrando um projeto desse, você começa a ter chance de buscar receitas. Sobre fomentar a paixão em consumir o JEC, nós temos que despertar esse interesse, temos que ser atrativos para o nosso público consumidor, que não está só em Joinville. As ideias só vão surgir quando houver um departamento responsável. Não vou ficar sugerindo ações agora, precisamos entender o que nosso público quer, para oferecer.”

Eleição: após 12 anos há de fato, uma disputa pela presidência do clube. O último bate chapa aconteceu em 2008

Charles: “É muito importante, as críticas construtivas são positivas, faz você crescer, evoluir. O que não se pode é levar inverdades ao sócio para tentar desconstruir algo. Procuro mostrar o que vamos fazer, sem grandes loucuras, com os pés no chão. Acho importante esse debate, ter outra chapa com suas ideias, seus projetos, mas quem vai decidir é o sócio e isso é fantástico para o clube, que só cresce com isso.”

Darthanhan: “Lutei muito para ter eleição. Acho uma oportunidade única porque o JEC volta a ser discutido depois de 12 anos, faz com que os dois lados tenham que sair da zona de conforto, tenham que pensar o clube. Se não houver isso, não se pensa. O bate chapa é essencial e espero que isso seja algo frequente no clube.”

Diretoria: além da presidência, será formada a nova diretoria do clube para os próximos dois anos

Charles: “Teremos um representante da União Tricolor na diretoria de Patrimônio, precisamos disso, alguém que esteja ali dentro, extremamente competente, é empresário jovem que vai agregar muito. Trouxemos o Léo Roesler para o futebol, vem com novas ideias. Essa diretoria foi montada com pessoas que tem conhecimento, vontade e principalmente, disponibilidade de ajudar o Joinville neste momento. Precisamos disso, pessoas comprometidas, sem interesse. O interesse maior é que o Joinville esteja em um patamar maior, esse é o nosso objetivo.”

Darthanhan OliveiraDarthanhan Oliveira é presidente do Conselho e candidato à presidência pela chapa JEC 50 – Foto: Divulgação/ND

Darthanhan: “Antes de mais nada, eu formatei um grupo de trabalho. Dali identificamos os diretores, já temos mapeado um CEO full time, com experiência esportiva, não está anunciado ainda porque tem vínculo com uma associação. O meu critério foi ter um grupo que me ajudasse a criar o projeto, ele nasceu e identificamos os diretores, há outros que vão compor o nosso trabalho.”

Departamento de Futebol: rotatividade de contratações, jogadores “questionados” pela torcida e falta de planejamento é um dos temas mais atacados pela torcida

Charles: “Tenho participado desse processo, depois do Campeonato Catarinense reformulamos algumas questões relacionadas à forma de contratar e isso tem sido mais assertivo. Com dinheiro já é difícil, sem dinheiro é mais complicado ainda, mas o Joinville está criando uma espinha. Os principais jogadores estão renovados, diminuindo a questão de contratação e vindo com elenco identificado. Esse é o caminho. Temos que mudar a cultura dos três pontos, muitos projetos ruíram no JEC por essa questão, essa cultura de somente ver o resultado dos três pontos precisa ser mudada, precisamos ver o trabalho a longo prazo e aí sim teremos os resultados.”

Darthanhan: “É um departamento que foi afetado pelo modelo de gestão arcaico. Passamos um ano com diretor abnegado tocando o futebol. A nossa proposta é totalmente diferente dessa, isso tem que ficar claro para a torcida. A nossa formatação é diferente. Precisamos de um gerente de futebol que vai auxiliar o CEO e o presidente do clube a pensar, a fomentar a estrutura de futebol alinhada com a base, ser próximo ao supervisor de futebol e a base, ter um clube conectado, com DNA de futebol. No nosso modelo tem que ter um profissional gerenciando o futebol e integrando a base e o elenco profissional.”

Base: vários jogadores saíram da base do JEC para grandes clubes do país. Além disso, no atual elenco, alguns dos principais atletas são “crias da casa”

Charles: “Hoje temos praticamente 1/3 dos jogadores inseridos no futebol profissional oriundos da base. Esse trabalho será aprimorado com o projeto do ‘jogo do JEC’. Os meninos estarão preparados para o jogo do JEC. Desde as categorias de baixo, eles serão preparados para chegar sabendo da forma de jogo. Precisamos criar essa identificação da base até o profissional. Vamos melhorar cada vez mais.”

Darthanhan: “Não tem como um clube do nosso porte, não investir na base, a salvação do nosso time é a base. Se trabalhar a base bem, com algumas vendas bem programadas a médio prazo, você paga uma dívida que parece estratosférica. Eu entendo que a base precisa ser integrada ao profissional. Precisamos preparar essa garotada para quando subir para o profissional, estar preparada. Existem várias maneiras de fomentar a base e gerar receita, fazer intercâmbio, colocar esses garotos para jogar. A integração é o primeiro ponto, não temos a estrutura ideal, mas ela é suficiente, o mais importante da base é o capital humano, pessoas que saibam trabalhar esses meninos. Fora isso, as categorias de baixo, fazer parcerias com escolinhas da cidade, que todo mundo seja JEC. A base precisa ter protagonismo porque ela também traz receita.”

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