O zagueiro Rafael Lima, aos 37 anos, é uma das grandes lideranças do Hercílio Luz na campanha junto ao Grupo 8 da Série D do Campeonato Brasileiro.
Capitão e com mais de 50 jogos com a camisa hercilista, o manezinho concedeu uma entrevista exclusiva ao Arena ND+, na sala de imprensa do lendário estádio Aníbal Torres Costa.
Rafael Lima durante jogo do Hercílio Luz; zagueiro revelado no Figueirense e com grande passagem pela Chapecoense – Foto: William Lampert/Hercílio Luz FC/NDCom o sotaque manezinho bem latente a cada arrastada de sílaba, o defensor falou sobre diversas coisas. Dentre os temas abordados o zagueiro menciona a estrutura e a “lealdade” em que o Hercílio Luz conduz, em todas as suas esferas, sua estrutura administrativa.
SeguirSe de um lado o clube ainda está aquém no que diz respeito a estrutura física, a organização administrativa se mostra compensador na campanha do clube que é líder isolado do seu grupo na Série D.
Rafael Lima falou ainda em aposentadoria, sua relação com o Figueirense e até acerca dos desdobramentos da Operação Penalidade Máxima, que desvendou um perverso esquema de combinação de resultados na elite do futebol brasileiro.
Confira, na íntegra, a entrevista concedida pelo xerife do Hercílio Luz, que apesar de não “cravar”, projeta sua aposentadoria dos gramados no clube do Sul de Santa Catarina, no qual está em sua terceira passagem.
Arena ND+: Rafael, fala da primeira passagem no Hercílio Luz e o que mudou nesse raio de dez anos:
Rafael Lima: Quando eu passei aqui em 2011, com todo o respeito, era um clube semi-amador. Não tínhamos nem onde treinar, obviamente passava por dificuldades financeiras bem grandes. Já dessa vez o clube se mostrou completamente outro, uma empresa gerindo, pessoas sérias, tudo que era acordado era cumprido. Tudo que o Hercílio Luz vem colhendo é muito fácil de explicar, realmente o clube tá colhendo tudo que tem plantado.
Como um dos protagonistas desse grupo, como é do lado de “dentro”, explicar esse ‘fenômeno’ do Hercílio Luz?
Rafael Lima: A gente não fica olhando o macro. A gente olha o micro. A gente olha o próximo jogo, e o próximo jogo e assim a gente tem caminhado. É um conjunto de fatores de chegar a esse momento de ficar tanto tempo sem perder, é o torcedor comprar a ideia do clube, é uma comissão técnica de qualidade. Uma diretoria que cumpre tudo o que promete. Tem a montagem do elenco que é qualificado, que tem jogadores, como é o meu caso, que estão caminhando para o fim da carreira, mas também os que estão iniciando a carreira, que querem crescer em nível nacional. Todos esses fatores ajudam a explicar tudo o que o Hercílio Luz vem fazendo.
Já passou isso [invencibilidade de quase 600 dias em casa] na tua carreira?
Rafael Lima: De tanto tempo sem perder, assim, não.
Qual o diferencial do Hercílio Luz em uma competição tão nivelada quanto a Série D?
Rafael Lima: É o respeito. O que a gente prega é a lealdade. Na minha posição temos quatro ou cinco zagueiros com as mesmas condições de jogar. Ninguém pode dizer que é um melhor que o outro. São características diferentes e dentro dessas características a comissão técnica faz suas escolhas. Tenho certeza que esse longo tempo sem derrotas dentro de casa, principalmente, atribuo a lealdade do elenco e obviamente a comissão técnica que tem seus atletas na mão.
Tem algum desejo ou alguma opinião até onde o Hercílio Luz pode chegar na Série D?
Rafael Lima: Eu projeto que a gente possa continuar sólido. Como eu falei, não podemos pensar no macro, temos que pensar no micro, fase a fase. A gente sabe que precisa conquistar alguns pontos para ficar entre o primeiro e o segundo colocado para garantir ficar com os jogos de volta, em casa. Depois disso a gente sabe que o Hercílio tem um projeto ambicioso, mas um projeto para quem conhece o clube, é um projeto palpável. Obviamente que os resultados de campo vão dizer onde a gente pode chegar. A gente pretende chegar o mais longe possível. Infelizmente, no futebol brasileiro, clubes como o Hercílio Luz, que cumpre o que promete, tem ficado cada vez mais escassos. Quando o projeto é sério a gente tem que torcer e fazer de tudo para que dê certo.
Tem projeto de voltar para o Figueirense [clube que o revelou]?
Rafael Lima: Eu tive uma possibilidade de voltar ao Figueirense no auge da pandemia [do coronavírus], em 2020, acabou não acontecendo. Eu sempre tive a gratidão pelo clube, fui formado, passei por ali, passei 10 anos entre base e profissional. Eu cultivava na minha cabeça em retornar ou a Chapecoense, clube que mais joguei na minha carreira, ou no Figueirense. Hoje isso não acontece mais pois eu tenho uma gratidão muito grande pelo Hercílio. Mas hoje, o que passa de efetivo, a gente nunca sabe o dia de amanhã, é que eu possa terminar minha carreira aqui no Hercílio Luz.
Falou em “fim da carreira”. Até quando projeta jogar?
Rafael Lima: Sinceramente, se eu não tivesse vindo para o Hercílio Luz, fatalmente eu teria parado. Não por querer, mas por falta de oportunidade. Até quando eu era jovem me falavam sobre isso. As oportunidades vão ficando escassas. Aqui no Hercílio Luz tiveram pessoas que acreditaram em mim e, obviamente, dentro disso aí eu tento fazer o melhor. Eu penso também que a partir do momento que eu não conseguir acompanhar o ritmo dos treinamentos e dos jogos do Hercílio Luz, chegou a hora de parar.
Você é manezinho da Ilha. Como cultivar essa naturalidade mesmo trabalhando em Tubarão?
Rafael Lima: Eu procuro ir para casa sempre que eu posso, eu moro lá, não podemos ficar longe dos frutos, um camarão, um peixinho, agora a época da tainha. Obviamente, Tubarão, tá bem próximo, sempre que posso estou em casa, até porque se eu ficar muito tempo longe a patroa me bate [risos].
Tem alguma coisa que você cultiva, que traz de lá?
Rafael Lima: Não tenho detalhe, não. É só a saudade mesmo. Eu estou no futebol, contando com base, há 25 anos que eu não moro com meus pais. Eu voltei para Florianópolis quando meu pai estava com uma doença grave, infelizmente acabou falecendo. Quem trabalha longe de casa, independente se é no futebol ou não sabe que a saudade é uma coisa que a gente carrega para onde vai. Eu até faço um esforço de estar indo para Florianópolis e vindo para Tubarão, diariamente, mas na minha cabeça é um prazer e não esforço pois eu posso estar perto das pessoas que eu amo na vida.
Com uma carreira de 25 anos, como que você viu e vê os atletas envolvidos em esquemas de apostas, estando do lado de dentro?
Rafael Lima: Se comprovado, tem que ser banido. Não tem como passar a mão na cabeça. Essa minoria, que tiveram seus nomes vinculados, sendo provado, eles têm que ser banidos. Não suspensos. Banidos. Eles estão tirando o sonho de milhões de crianças. Eu cresci numa favela, em Florianópolis, cultivei desde os meus 5 anos o sonho de ser uma atleta profissional. Pelo meu sonho e para ajudar meus familiares. Se eles tiveram esse sonho, como eu sei que tiveram, se eles se corromperam, eles têm que pagar. Eles estão tirando o sonho de muita gente. E no Brasil, eles colocam todos no mesmo bolo. Se tiverem comprovados, eles têm que ser banidos e não podem voltar a exercer essa profissão linda que mexe com o sentimento de muitas pessoas.
Como que um vestiário recebe uma coisa dessas?
Causa asco. A gente fica enjoado. São milhões de crianças que querem e quiseram ser atletas profissionais e não conseguiram. Aí vem um escândalo desses aí e joga tudo por água baixo. Aquela paixão, aquele sonho, de levar o filho para uma arquibancada está sendo comprometido porque aquele cidadão se corrompeu e chegou a vender um jogo. Dentro de um vestiário sério, esse tipo de coisa, quando vem à tona, isso tem que ser julgado e, se culpados, pagarem com banimento e prisão.