Catar, o país que sedia a Copa do Mundo 2022, tem duras penas contra homossexuais. No país, a comunidade LGBTQIA+ pode ser condenada a punições que variam de oito anos de prisão à pena de morte por “crime” de homossexualidade.
Não é permitida a relação sexual entre homens, mas a lei não menciona a relação entre mulheres nem expressões públicas de afeto, como beijos, carícias ou mãos dadas. No entanto, o risco pode ser grande, dada as penas aplicadas. A Justiça local pode entender que houve relação e condenar os envolvidos.
País da Copa é o país que criminaliza homossexualidade – Foto: DFB-Team/Reprodução/Twitter/NDEntre proibições e protestos de jogadores de futebol, os holofotes sobre as leis contra homossexuais no Catar têm tomado conta da discussão mundial.
SeguirNesta quarta-feira (23) jogadores da Alemanha protestaram por meio de uma foto antes do duelo contra o Japão. Os jogadores posaram todos com a mão na boca. Manuel Neuer, capitão do time, também entrou com a braçadeira escondida.
A foto é uma resposta às medidas da Fifa, que recentemente proibiu times de se manifestarem durante partidas. Isso porque, algumas seleções europeias queriam demonstrar apoio às causas LGBTQIAP+ com braçadeiras escritas “One Love”. Apesar dessas restrições, alguns atletas não ligaram e entraram em campo com suas chuteiras nas cores do arco-íris, símbolo da comunidade.
“Nós que fazemos parte do grupo LGBTQIA+ e simpatizantes estamos em eterna luta por nossos direitos, por isso, todo protesto pacífico que puder dar voz à nossa causa, sempre será bem-vindo”, fala Luisa Amaral Cerejo, de 28 anos.
Cerejo é lésbica e relata que a proposta de levar a braçadeira com as cores do arco-íris seria um marco tanto para o futebol quanto para a sociedade mundial.
E as torcidas?
No Brasil, a torcida do São Paulo Futebol Clube foi, por muito tempo, chamada de “bambis”, em uma referência ao animal veado, associado de forma homofóbica a homens gays. Por si só, este episódio já demonstra preconceito em torcidas.
Outro caso emblemático e recente foram os comentários racistas que um empresário fez contra o atacante brasileiro Vinicius Junior. Na ocasião, o presidente da Associação de Empresários de Jogadores da Espanha, Pedro Bravo, chamou o atacante de “macaco” durante um comentário em programa de televisão sobre suas comemorações de gols no Campeonato Espanhol.
Sobre estas duas formas de preconceito, Carmen Rial, antropóloga, professora e pesquisadora da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) acredita que é preciso punição.
“O futebol reúne muitas pessoas em um evento que elas creem que tudo é permitido. É preciso sim que crimes de racismo e homofobia sejam punidos nos estádios”, conta.
A profissional também ressalta que em alguns países africanos, a homossexualidade é criminalizada como uma herança colonial. Antes, muitas práticas sexuais eram apenas sexuais, sem ser colocados nela juízos de valor.
“Nos países colonizados pela Inglaterra, onde anteriormente era criminalizado, a herança ficou. Na Inglaterra essa lei caiu, no entanto em muitos países colonizados por eles, não. Como é o caso da Índia, que apenas recentemente deixou de criminalizar a homossexualidade”, relembra.
Países colonizados começaram a criminalizar a homossexualidade, antes normalizada – Foto: Marcos Albuquerque/PMF/NDChamar atenção
De acordo com Juliano Oliveira Pizarro, professor de educação física e doutor pelo Programa de Pós Graduação em Ciências Humanas da UFSC, megaeventos esportivos têm a capacidade de atrair atenção para o país sede.
O doutor relembra que situações como a condenação de homossexuais no Catar suscitaram “pedidos de boicote ao mundial”.
Futebol e resistência
Segundo o profissional, o futebol é um “fenômeno social”, usado tanto como ferramenta para fazer propagandas de ditaduras quanto uma forma de resistência a sistemas impostos.
“Desde o início da sua prática, mulheres também jogavam futebol, tendo ocorrido períodos em que o futebol feminino foi proibido e agora, em grande parte do mundo, está voltando com força a partir de muita luta”, exemplifica.
Segundo o profissional, negros também não podiam jogar futebol no início, apesar do grande racismo no futebol brasileiro no início do século 20. No entanto, relembra:
“O primeiro grande ídolo da modalidade no país foi justamente um negro. Filho de um alemão com uma brasileira, Arthur Friedenreich foi autor do gol que daria o primeiro título à Seleção Brasileira, o Sul-Americano de 1919”, conta.
Retornando para a temática de direitos LGBTQIA+ o educador físico lembra que os coletivos surgem “a partir de uma lógica das arquibancadas serem ambientes hostis, principalmente para mulheres, homossexuais e negros, o que se observa até em músicas de torcidas organizadas”.
Como solução, Pizarro defende o enfrentamento a partir de políticas públicas de combate à violência em paralelo a práticas como de Coletivos, que surgem exatamente com o intuito de conscientizar a forma de torcer, trazendo uma questão de pertencimento, pois o futebol é (ou deveria ser) de todos.
Para a antropóloga Carmen Rial, alguns episódios brasileiros relembram a importância do futebol como meio de resistência.
“Durante a ditadura militar, a experiência da democracia corintiana, movimento liderado por jogadores como Sócrates e Casagrande, criaram no clube a ideia de que ele deveria ser gerido democraticamente. Ou seja, todos tinham direito a voz, desde jogadores até os funcionários do clube. A torcida e os jogadores se envolveram em defesa da democracia e fazem isso até hoje”, conta.
Onde nada chega, o futebol chega
“Onde a prefeitura não chega, onde a universidade não chega, onde os partidos não chegam, o futebol chega”, relembra o educador físico. Para ele, a abrangência do futebol o explica como um dos maiores fenômenos sociais do último século, pois é muito mais que um esporte.
Contudo, o atleta Wallace Reis falou uma frase interessante: “O futebol não está preparado para certos questionamentos”. Segundo o professor, evoluindo o futebol, a sociedade acaba evoluindo junto.
Futebol chega onde nada mais chega, acredita o educador físico Juliano Oliveira Pizarro – Foto: Unsplash/Divulgação/NDQuem sente de perto
Luisa Amaral Cerejo, de 28 anos, sente de perto os reflexos de discriminações como a do Catar. A designer gráfico conta que sua paixão por futebol começou ainda cedo, aos cinco anos, quando seu pai a levou para um estádio de futebol.
Cerejo admite, o futebol masculino ainda não está preparado para tratar com normalidade pessoas LGBTQIA+.
“Isso inclui jogadores que deixam de se assumir, até torcedores que deixam de frequentar os estádios por conta de hostilização por parte de membros da mesma torcida. Tudo isso tentando blindar o seu time de uma hostilização que uma equipe adversária poderá fazer, chamando de gay e outros nomes do tipo, como se isso fosse xingamento”, conta.
O professor e jornalista Daniel Luiz Miranda, de 27 anos, concorda que o futebol ainda é um ambiente hostil para a comunidade. E levanta outra questão, a reação do público.
“Muitas pessoas dizem que a comunidade LGBTQIA+ odeia futebol, no entanto, isso é uma reação. Nós não odiamos, mas o ambiente ainda é hostil”, conta.
O jornalista diz que gosta de futebol “desde que se entende por gente” e que suas primeiras memórias são atreladas ao esporte.
Quando questionada sobre como se sentia pelo maior torneio de futebol mundial ser em um país que ataca a existência de pessoas como ela, a designer ponderou.
Em primeiro lugar lembrou a importância da diversidade de culturas, da competição ser realizada em um país africano e a primeira no Oriente Médio. Ela destaca ainda que mulheres, que eram proibidas de assistir jogos de futebol no país, pisaram em estádios pela primeira vez em suas vidas.
“Por outro lado, escolher um país com leis tão retrógradas traz sim a impressão de que a FIFA não foi rígida o suficiente para exigir que os direitos humanos fossem pré-requisito para a escolha da sede”, relata.
Já para Miranda, é importante lembrar que a questão é no mínimo “não importante” para a FIFA, afinal, as últimas duas copas do mundo foram em países que criminalizam a homossexualidade: a Rússia e o Catar.
Contradição
“Há uma contradição. Qual a liberdade que temos no Brasil para ser LGBTQIA+?”, questiona o jornalista.
Segundo ele, o Brasil é o país que mais mata homossexuais no mundo. Mesmo que não criminalizada, a comunidade vive em um ambiente de hostilidade o que explica os reflexos no futebol, como os citados por Luisa Cerejo, em relação aos “gritos” das torcidas organizadas.
O Brasil é o país com maior número de assassinatos dessa população. De acordo com o GGB (Grupo Gay da Bahia), com dados de 2021, ocorre uma morte a cada 29 horas, porém o número real deve ser ainda maior.
O levantamento foi feito em parceria com a Aliança Nacional LGBTI+. Foram 276 homicídios (92% do total) e 24 suicídios (8%) no ano passado.
Segundo o GGB, os homossexuais masculinos são, há quatro décadas, os mais atingidos pela violência, totalizando metade das vítimas, com 153 casos (51%).
Depois, são os travestis e transexuais com 110 casos (36,7%), lésbicas com 12 ocorrências (4%), bissexuais e homens trans com 4 casos (1,3%). Há ainda uma ocorrência de pessoa não binária (que não se identifica com o gênero masculino ou feminino) e um heterossexual, confundido com um gay.