“A história do JEC se confunde com a história da minha família”. As centenas de camisas espalhadas e as lembranças que se multiplicam, atravessam décadas e estão cravadas na memória já indicam que a paixão é antiga, persistente e que, como diz o hino, “no coração do povo já fervia”.
JEC marca gerações ao longo dos seus 47 anos. – Foto: Carlos Junior/Arquivo/NDFoi nos idos de 76 que um grupo de amigos, divididos até então pela rivalidade entre América e Caxias, se uniu e fez nascer a paixão que arrebataria uma cidade inteira.
O dia 29 de janeiro marca o início de uma história campeã, de glórias, conquistas, lágrimas, explosão, mas também de decepções, tristezas e incertezas.
SeguirO JEC nasceu campeão, nasceu, de fato, com a taça na mão. O primeiro título foi comemorado meses após sua fundação e, hoje, 47 anos depois, a galeria de troféus é grande, as imagens das grandes conquistas estão impressas na memória da torcida e da cidade e é o preto, branco e vermelho que atravessa gerações.
Filho de Gilson Gonçalves, um dos sócios fundadores do JEC, Márcio Doin Gonçalves, conhecido como Marcinho, está prestes a completar 40 anos, sete a menos do que o Tricolor que move sua vida desde o nascimento. Ele e o irmão, Gilmar Gonçalves, de 42 anos, vivem a história do clube e hoje fazem questão de repassar aos filhos a mesma paixão que veio de berço.
Paixão que vem de berço: Gilmar e Márcio são filhos de um dos sócios fundadores do JEC, alimentam e plantam paixão pelo time – Foto: Drika Evarini/ND“Nós crescemos dentro do América, um dos pais do JEC. Nascemos no berço do JEC, então a paixão já veio impregnada, veio de berço, literalmente”, fala Márcio.
Um clube que nasceu campeão e viveu momentos de glória, único octacampeão estadual, o JEC conquistou o primeiro título ainda em 1976 e, de lá para cá, acumulou campeonatos estaduais (12), competições estaduais, sul-brasileiros e estampa no peito suas duas maiores conquistas, os títulos brasileiros da Série C, em 2011 e da Série B, em 2014.
Um passado de tradição, peso na camisa tricolor, conquistas e glórias. Em 47 anos, os momentos de comemoração se misturaram aos de decepção. Quedas, anos sem calendário nacional, problemas financeiros e administrativos e, atualmente, a pior fase das quase cinco décadas: zona de rebaixamento do Catarinense, sem série, com dívidas milionárias e em recuperação judicial.
Foram exatamente alguns problemas financeiros e o desejo de um clube forte dentro do Estado que fez nascer o Joinville Esporte Clube. Presidente do Conselho Deliberativo do Caxias e diretor à época, Raulino Rosskamp é um dos fundadores do JEC, fez parte de reuniões, decisões e viu a primeira vez que o time pisou no gramado do Ernestão com o brasão no peito, mesmo brasão que mudaria ao longo dos anos e acrescentaria duas estrelas nacionais. Para ele, os momentos delicados que fazem parte da história do clube o fizeram forte e, novamente, a fase difícil é uma fase, garante.
“Nós nunca perdemos e não podemos perder a esperança. Na vida, há momentos menos convenientes, mas quando o JEC subir novamente, e ele vai, será alegria, felicidade. Isso vai acontecer. Nós temos que amar em qualquer circunstância”, fala.
“Pelo JEC só existe amor, não há outro interesse. Nós amamos o JEC e essas duas estrelas nacionais são importantes. O JEC vai chegar lá de novo”, diz.
A história do JEC se confunde com a história de famílias inteiras, responsáveis pelo nascimento do clube. E a responsabilidade de manter viva a paixão pelo time passa de pai para filho. Se Marcinho e Gilmar receberam do pai, hoje são eles que transmitem o amor para a próxima geração.
“Já nascemos fazendo parte do JEC mesmo sem saber ou querer, é o que eu digo para o meu filho, você vai sim fazer parte do Joinville. Isso faz parte e vai continuar fazendo parte da nossa história, vamos passando isso para os nossos filhos. Eu sou um apaixonado eterno pelo Joinville Esporte Clube, um torcedor fanático, maluco, apaixonado, vidrado e vou continuar sendo”, fala Marcinho.
“Faz parte da vida, é tanta paixão, tanto amor que a garganta trava às vezes. É história de família. Está no sangue, está no DNA, é amar mais que tudo”, complementa Gilmar.
“O JEC é símbolo de força”
Se os sócios fundadores e os torcedores regaram uma paixão forjada em conquistas no passado, a torcida atual persiste por amor. O pequeno Murilo César Schmitz Júnior, assim como o JEC, nasceu campeão. Com 11 anos, Júnior nasceu em 2011, ano do primeiro título nacional do Tricolor, a Série C e, com ele, nasceu também o amor pelo time.
Pai e filho dividem paixão pelo JEC – Foto: Drika Evarini/NDApesar de jovem, as palavras saem carregadas de consciência e amor. O garoto entende a situação do clube, conhece a história pesada, mas sabe que é preciso muito esforço e paixão para que o time retorne ao que era quando ele nasceu. Mas, se depender dele, o JEC deixará para trás o atual momento.
“O JEC faz parte da minha vida, desde pequeno, quando nasci, já saí da maternidade com uma roupa do JEC. O JEC é um símbolo de força, eu nunca vi um torcedor largar ou desistir porque o time está mal, eu sempre vejo torcedor falando que algum dia o JEC vai ganhar e eu acredito nisso também. Como você trata o time é como você trata seus amigos, sua família, porque se você larga o time quer dizer que você larga outras coisas também”, diz.
O amor também veio de família e atravessou as gerações. Murilo Schmitz, pai de Júnior, foi ensinado a amar o clube e cresceu assistindo aos títulos estaduais que chegavam em sequência em Joinville. Para ele, o amor pelo JEC é uma marca familiar e traz lembranças importantes.
“Meu pai me levava, nós íamos de ônibus para o Ernestão e eu lembro de tudo, da bebida, da comida que tinha. Meu pai não era muito de demonstrar carinho, mas os maiores abraços que dei nele foi por causa do JEC. As grandes lembranças que eu tenho com o meu pai, é com o JEC. Gostar do JEC faz parte dos valores da minha família. No título de 2014, o Júnior tinha 3 anos e eu chorei muito, lembrei do meu pai e de como ele queria ver aquilo”, recorda.
Hoje, o ritual se repete. É na arquibancada da Arena Joinville que Júnior passa os melhores momentos com o pai, momentos que ele narra com emoção.
“É um momento muito legal, é o momento que a gente divide tudo, que paramos de pensar em tudo, trabalho, escola e estamos só eu e ele. Se tem torcedor xingando, não importa, somos eu e ele, se tem jogador discutindo, não importa, somos eu e ele. É o momento para nós dois, o nosso momento com o JEC e eu aprecio muito”, fala.
A fase atual preocupa, mas a história contada, relembrada e vivida por fundadores, torcedores, pela nova geração pode ser revivida.
“Nós temos que divulgar essa história e fazer com que isso não acabe, que o JEC vá para longe desse momento ruim que está e a gente continue lutando para que os dias de glória retornem ao JEC. Nós precisamos continuar lutando pelo JEC, que a gente coloque o amor à frente de tudo. Jogadores, diretoria, treinadores passam, o JEC permanece”, finaliza Marcinho.
A história é pesada, títulos, conquistas, comemorações que pararam Joinville e que encheram a maior cidade do Estado de orgulho e gratidão. O presente parece distante, mas ao olhar para trás, a torcida tem certeza que aquilo que realmente forma e é a essência de um clube que nasceu campeão está longe da angústia recente. Longe, mas ao alcance do clube que tem uma história gloriosa e que nasceu não para os dias de decepção, mas com vocação para campeão.