“Se isso não é pênalti a minha avó é uma bicicleta”, gritava o narrador e comentarista Miguel Livramento quando criticava a omissão do árbitro em lance a favor do Avaí, seu time do coração. Esta, na verdade, era apenas uma das muitas frases conhecidas e irreverentes do radialista, que morreu na noite de quarta-feira (2), em Florianópolis.
Miguel Livramento no estádio da Ressacada – Foto: DIVULGAÇÃO/NDCom mais de 50 anos de profissão, ele se projetou pelas tiradas espirituosas, por dizer o que pensava e porque adotava um estilo próprio, único, ao acompanhar os jogos dos times de Florianópolis.
Miguel era conhecido no Estado inteiro e passou por quase todas as emissoras de rádio da Grande Florianópolis. Nunca trabalhou fora da região, viajou pouco, não fazia o tipo intelectual e era o típico manezinho – tão fissurado por futebol quanto pelos curiós que criava em casa.
Seguir“Esse Avaí faz coisa”, dizia, emendando com a expressão “Conta aqui para o bonequinho”, quando duvidava de afirmação ou comentário que ia contra suas convicções.
Na televisão, onde trabalhou por longo tempo, Miguel Livramento abriu portas para muitos profissionais e teve com outros verdadeiras escaramuças no ar, ao vivo.
Um desafeto declarado era Alfredo Alberto, comentarista com quem dividiu a bancada na antiga RBS TV. Ali, defendendo as cores e causas do Leão da Ilha, tinha debates acalorados com o oponente, que era um sagaz e provocador adepto das hostes alvinegras. Diz-se que os dois eram inimigos também nos corredores da emissora e nas ruas da cidade.
Com Roberto Alves, desde os tempos da TV Cultura, Livramento também protagonizou embates que repercutiam muito, embora os dois se respeitassem e fossem amigos íntimos.
No dia do velório, Alves contou que se falavam pelo menos duas vezes por semana, embora Miguel, nos últimos meses, experimentasse pela primeira vez o que é estar fora do mercado. Ele começou cedo na Rádio Jornal A Verdade e teve um programa na antiga rádio Guararema (hoje Massa) que tocava as músicas pedidas pelos ouvintes, antes de se dedicar à crônica esportiva.
Uma passagem marcante foi no emblemático episódio quando um soldado (Sílvio Vieira, já morto) invadiu os estúdios da RCE TV, em 1986, e ameaçou se matar ali mesmo em protesto contra o baixo salário que recebia do Estado. Ele devia na venda e na escola e fora humilhado na corporação, porque tinha como avalista de um empréstimo outro policial que se obrigara a quitar a dívida. Em desespero, entrou na sala onde estavam Roberto Alves, Miguel Livramento e Hélio Costa.
Os profissionais conseguiram contornar a situação e o soldado abriu o jogo, falou sobre sua situação e acabou tomando café com os apresentadores.
Claudionir Miranda (comentarista), Marcelo Cabral (reporter) e Miguel Livramento (apresentador) nos bastidores do programa Meio Campo da TVBV Band em 2001 – Foto: DIVULGAÇÃO/NDO repórter vaidoso que nunca quis ser biografado
Além de familiares e amigos, o velório de Miguel Livramento teve a presença de dezenas de jornalistas, radialistas veteranos, autoridades, admiradores e amantes do esporte em Santa Catarina.
O ex-treinador Luiz Gonzaga Milioli e Sérgio Fernandes, diretor do Criciúma, vieram para prestar homenagem ao comentarista. Campeão pelo Avaí em 1997, Milioli lembra que Miguel não o recebeu bem quando chegou ao clube e que os dois tiveram desavenças, mas com o título seu trabalho como técnico foi reconhecido e elogiado pelo radialista.
Um consenso entre os que o conheceram dá conta de que ele era extremamente vaidoso, usava marcas de grife, mandava fazer roupas sob medida com alfaiates renomados da região e usava sapatos pretos durante o dia e brancos, à noite. As unhas estavam sempre impecáveis e os cabelos muito bem cuidados. Mas sempre rejeitou a ideia de deixar uma biografia, como destacou o jornalista Vandrei Bion.
Miguel Livramento morreu aos 81 anos – Foto: DIVULGAÇÃO/ALESC/NDCom seu carisma e irreverência, costumava criticar Avaí e Figueirense com a mesma contundência – desde que os times jogassem pouco, fossem mal escalados ou não demonstrassem em campo a raça exigida pelos torcedores. Há quem diga que ele tinha mais audiência entre os alvinegros quando o Avaí perdia, porque o prazer dos rivais era ouvir o comentarista desancando o próprio time.Dizem que uma vez surrou um zagueiro do Figueirense na Churrascaria Riosulense. Em 2012, foi atacado na garagem de sua casa por dois homens que queriam tomar-lhe o carro. Enfrentou os dois, tomou duas facadas, mas botou dois a correr.
O “influenciador” que entrevistou Pelé
Nascido em Biguaçu, Miguel Livramento veio para Florianópolis aos 16 anos para ser office boy e nunca mais saiu da Ilha, onde teve o privilégio de entrevistar Pelé quando o Santos jogou no antigo estádio Adolfo Konder, em 1972.
Trabalhou no comércio e depois de ter a oportunidade de entrar no rádio passou por todas as emissoras da cidade, à época – A Verdade, Guarujá (“a rádio do meu coração”, afirmava), Diário da Manhã, Guararema, Anita Garibaldi, além da RBS TV e da RCE/TV Cultura.
Pelé sendo entrevistado por Miguel Livramento – Foto: REPRODUÇÃO/NDNa última entrevista que deu, para o canal Comendo a Bola, gravado dia 19 de julho, narrou todos os passos de sua trajetória e citou episódios marcantes, como uma discussão com o técnico Cuca quando este treinou o Avaí, em 1999, e as diferenças que tinha com Lauro Búrigo, treinador e depois comentarista esportivo.
Falou de bastidores do futebol catarinense, de arbitragens tendenciosas, das dificuldades de narrar e comentar jogos em alguns estádios de Santa Catarina, de colegas e de jogadores marcantes que atuaram em Avaí e Figueirense. Ele chegou a ser processado duas vezes pelo árbitro Dalmo Bozzano por críticas que fez a ele no ar.
Sua estreia no esporte foi como repórter num jogo entre Internacional de Lages e Avaí, em 1971, quando o time serrano era treinado pelo ex-craque Áureo Malinverni. Numa partida entre Figueirense e Flamengo, no extinto estádio Adolfo Konder, gravou as entrevistas num aparelho que mais parecia um rádio a pilha e levou para o narrador colar no microfone e reproduzir a fala dos atletas.
Miguel contou que se tornou avaiano porque, sendo flamenguista, não aguentava mais as gozações dos torcedores do Botafogo, time praticamente imbatível nos anos 1960. Um dia o Figueirense foi jogar em Biguaçu, e a camisa lembrava a do time carioca. Pronto, já era do contra. Rodrigo Titericz, presidente do canal Comendo a Bola, considera Miguel o maior influenciador do futebol catarinense – desde quando influenciar tinha significado bem diferente do atual.
Na edição do programa, publicado depois da morte do comentarista, a produção escreveu: “Miguel expressou como ninguém a alma e a grandiosidade do manezinho”.