Incansável e talentosa com a bola nos pés, a pequena Natália Pereira, de 9 anos, encanta pais, amigos e apaixonados pelo futebol. Novo “reforço” das categorias de base do Avaí, a menina quebrou um paradigma ao ser aprovadas nos testes do Leão da Ilha como primeira menina a frequentar as categorias de base de um clube profissional de futebol do Brasil.
A aprovação é fruto de muito treino e insistência dela e dos pais, que perceberam cedo a paixão pelo futebol. “A gente quer deixar ela ser feliz. Desde os quatro anos, o jeito dela bater na bola era diferente, mas sempre teve a inspiração do irmão mais velho, que é goleiro”, conta o jornalista Fabiano Linhares, o pai, em referência a Vinicius, 12 anos. Foi o irmão também que fez Natália vestir a camisa avaiana e não largar mais. “Depois de um clássico que o Figueirense ganhou, ele ficou sendo zoado pelos amigos. Então subi no apartamento, coloquei a camisa do Avaí e não tirei mais”, conta Natália, em apoio ao irmão.

Ainda antes de ser aprovada nos testes do Avaí, Natália começou a derrubar as barreiras do preconceito com grandes atuações para se tornar o destaque do time Sub-9 da ADIEE, que disputa a Liga de Futsal da Grande Florianópolis. “Ela sempre foi muito bem recebida entre os guris. O preconceito, às vezes, está fora das quadras”, explica Fabiano.
SeguirOs lances geniais para a idade, e os gols – foi artilheira – eram compartilhados nas redes sociais e Nati, como é chamada carinhosamente pelos pais e amigos, logo ganhou o apelido de “A Menina do Laço”, devido ao adereço utilizado para prender os cabelos longos. “Ela é extremamente vaidosa e feminina. O laço precisa estar direitinho”, conta Fabiano, que divide a tarefa de acompanhar a menina, com a mãe, a também jornalista Karina Pereira.
Tanto talento despertou atenção do Centro Olímpico, projeto voltado para o esporte de alto rendimento desenvolvido pela prefeitura de São Paulo. Durante três dias por mês, Nati viaja com a mãe para a capital paulista para participar dos treinos de futebol de campo apenas com meninas. Mas a paixão dela pelo futebol é inesgotável. Natália então passou a treinar na escolinha da Fair Play, onde é a única menina a dividir o gramado sintético com meninos de idades entre 10 a 12 anos. E a pérola não passou despercebida. “A partir do primeiro momento já entendemos que ela é diferente. Os níveis de técnica e força dela se equivalem com os melhores jogadores da região”, atesta o coordenador técnico Ricardo Ramos, o Portuga.

O sonho de se tornar jogadora de futebol profissional foi impulsionado quando Marta soube da história da menina. A alagoana, seis vezes melhor do mundo, também enfrentou o preconceito ao se destacar nas peladas com meninos antes de ganhar o mundo. “Eu cheguei a chorar quando ouvi a palavras dela”, relembra Nati, que não esperava o depoimento da craque do Orlando Pryde.
Golaço natural de marketing do Leão
Ao ser aprovada nos testes do Avaí, Natália Pereira pode ser a “sementinha” para o futuro desenvolvimento de equipes femininas de categorias de base, algo ainda bastante distante da realidade do futebol feminino. A opinião é do gerente de marketing do Avaí, Thiago Pravatto, após a repercussão positiva obtida pelo clube diante da aceitação da menina nas categorias de base do Leão.
“Repercutiu bem, mas muito mais pela competência dela e da forma inusitada que é, de uma menina jogar entre os meninos, do que do Avaí. A gente não tem expectativa de explorar a situação”, ressalta Pravatto, dentro dos limites éticos do futebol e do envolvimento de uma criança. Portais nacionais e até internacionais (na França) postaram a notícia sobre a aprovação de Natália, mas o suficiente para colocar o nome do clube catarinense em destaque. “O Avaí sempre teve boa aceitação na França, desde os tempos do Guga, e no ano passado, quando nosso uniforme número homenageou a seleção francesa que se tornou campeã”, conta.

A repercussão também foi grande para a pequena jogadora. A conta no Instagram de Natália saltou de pouco mais de mil seguidores para mais de quatro mil após o anúncio de que iria jogar no Avaí. “Cada dia para ela está sendo um desafio. Está sendo muito rápido para ela”, afirma Fabiano, que também se surpreende com a naturalidade da filha ao posar para fotos com jogadoras de futsal e torcedores, após participar de um jogo com as Leoas da Serra, em Lages.
Ainda antes de concretizar o desejo de ser jogadora profissional, Nati já tem um sonho a conquistar, mas agora deve depender mais dos pais. É o presente de aniversário de 10 anos. Coincidentemente, a data, 9 de junho, é a mesma do jogo de abertura da Copa do Mundo de Futebol Feminino, na França. “Eu tenho o sonho de conhecer Paris”, revela Nati, que gostaria de assistir ao jogo. Mas até lá, se depender do Avaí e da vontade dela, muita bola ainda vai rolar.