O JEC precisa continuar, por Lincolns, Arlindos e pela torcida que permanece inabalável

Eliminado e sem série, o JEC volta ao fundo do poço, mas precisa recolher os cacos por aqueles que o sustentam

Receba as principais notícias no WhatsApp

O pesadelo do torcedor do JEC se materializou de maneira cruel e irônica na Arena Joinville no nublado 2 de outubro. Duas semanas depois de explodir de alegria em uma disputa de pênaltis, foram justamente os pênaltis que jogaram o Tricolor em um poço que parece ter sido cavado um pouco mais, tornando o fundo cada vez mais fundo.

Mais uma vez, JEC se afunda e fica sem série após eliminação na Série D – Foto: Vitor Forcellini/JEC/Divulgação//NDMais uma vez, JEC se afunda e fica sem série após eliminação na Série D – Foto: Vitor Forcellini/JEC/Divulgação//ND

A eliminação após a vitória dentro dos 90 minutos rasgaram o coração já cheio de remendos do torcedor que, 12 anos depois, volta a ficar sem série, sem perspectiva, sem um lugar para chamar de seu no cenário nacional e longe, muito longe, do que sua história, tradição, peso e torcida merecem.

Quando o último pênalti foi batido, quando os gritos de alegria irromperam na Arena com o sotaque mineiro, eu desabei. E comigo, tenho certeza, cada torcedor tricolor que, de fato, ama o time e faz do JEC parte fundamental de sua história. Comigo, pessoas que construíram o time e trabalham diariamente para mantê-lo, desabaram em lágrimas.

Faça como milhões de leitores informados: siga o ND Mais no Google. Seguir

As lágrimas são companheiras de quem ama o JEC. Elas rolaram lá em 2008, quando o time estava sem série. Rolaram em 2010, quando o time estava na D e foi eliminado pelo América-AM, voltaram dias depois quando, nos tribunais, o Tricolor ascendeu à terceira divisão.

Elas rolaram incessantes em 2011, com a campanha épica e o título da Série C, voltaram com força, muita força, em 2014, quando o sonho se materializou no acesso à Série A e, ainda, com mais um título nacional. E elas voltaram doloridas em 2015, com o rebaixamento, em 2016, com a volta à Série C, em 2018, com o retorno ao inferno da Série D.

No dia 2 de outubro de 2021, elas caíram, copiosamente, mais doloridas, mais amargas. Pode parecer que é “só futebol”, que “você não ganha nada com isso”, mas não é. Não é só futebol. Não é só um campeonato. Não é só um time.

Por trás da camisa preta, branca e vermelha, há pessoas que dedicaram a vida ao clube, pessoas que, todos os dias, acordam cedo, muito cedo, tratam o gramado do CT do Morro do Meio, organizam cada detalhe para o treinamento, separam comida, água, suplemento, meiões, chuteiras, uniformes. Por trás do Joinville Esporte Clube há quem faça dele a sua vida.

Enquanto jogadores vêm e vão, seu Arlindo lá espantando quero-queros, monitorando cada ponto dos campos de treinamento. Seu Ilário e Serjão continuam lá, buscando bola literalmente no mato a cada chute mal dado.

Enquanto comissões chegam e saem, Lincoln continua ali, trabalhando impecavelmente para que a camisa tricolor esteja perfeita, para que os uniformes estejam limpos, passados, esticados para que cada jogar honre essa camisa. Ou assim todos deveriam.

Enquanto diretorias passam, essas pessoas continuam. O JEC é formado de pessoas que amam o clube fundado em 1976, que nasceu campeão e foi maltratado nas últimas décadas. Essas pessoas são a base de um time maior do que o tamanho que atribuem a ele, maior do que o lugar que o colocaram, maior do que o poço em que os erros o jogaram.

A eliminação coloca o JEC, novamente, em uma fase delicada para o time, para os jogadores, comissão e diretoria que fracassaram, para a instituição que é maior do que tudo, para a torcida apaixonada e machucada mais uma vez, para a cidade, para pessoas.

Para essas pessoas que vivem o JEC, pelo JEC, por causa do JEC e para o JEC. Não é “só mais uma eliminação”. Não é “só mais uma decepção”, “só mais um campeonato”. São sonhos destruídos de toda uma cidade que respira o amor pelo JEC, não por jogadores, comissões ou diretorias, respira o amor pelo time.

Não digo que jogadores, comissões e diretorias não sentiram cada derrota e eliminação, quem entra em campo e trabalha pelo time sente, sim. Mas fora de campo, quem construiu esse time com as próprias mãos e coração sente na alma a eliminação, a situação.

O JEC é maior e há muitos que o amam aqui, dispostos a trabalhar por ele, mais uma vez. Lincolns, Arlindos e tantos outros continuarão aqui, independentemente da situação, da série, de quem vem e vai. São eles, é a torcida que continua, apesar de machucada e magoada, que amam, que sustentam o time.

E é por essas pessoas que o JEC precisa e vai continuar.