Nesta quarta-feira (8) é comemorado o Dia Internacional da Mulher e para ilustrar essa data, o Arena ND+ conversou com mulheres que trabalham dentro dos clubes de Florianópolis para falar sobre os desafios da profissão e estar incluida em um ambiente, ainda, muitas vezes machista.
O torcedor avaiano que já andou pelos corredores do estádio da Ressacada nesse último ano, certamente já deve ter dado de cara com uma figura simpática, ali disposta a atender os apaixonados pelo clube.
Kaká tem papel importante dentro do Avaí – Foto: Ian Sell/NDKátia Maria de Paula, 64 anos, a famosa “Kaká”, trabalha como coordenadora de relacionamento com o torcedor no Avaí desde o início de 2022, quando Júlio Heerdt assumiu a presidência do clube.
Mais do que o amor pelo clube, Kaká traz a força da presença da mulher em um cargo importante dentro de um clube de futebol. Um esporte que, por muitos anos, viveu um ambiente um tanto quanto machista.
“Meu pai foi goleiro do Avaí no final da década de 1950. Esse amor pelo clube e pelo futebol foi trazido de família. E foi também na figura da minha mãe que sempre me incentivou a isso. Sempre gostei de esportes e tive a sorte de ter uma mãe sensível em relação aos meus gostos”, conta.
A relação se estreitou ainda mais com o Avaí a partir do início dos anos 2000, quando Kaká foi convidada para fazer parte do conselho deliberativo do clube.
“Algumas vezes, especialmente nas primeiras reuniões, sentia que eu era a única a ser interrompida. Isso mudou com o tempo, quando passei a me impor. Me sinto totalmente bem aqui dentro do Avaí, sinto que minha opinião é respeitada e ouvida”, relata.
“A mulher não deve se diminuir, não pensar que não deve falar isso porque vai ouvir um não. A mulher deve defender o que ela pensa”, completa.
Na opinião de Kaká, as conquistas das mulheres, não só no ambiente do futebol, é fruto de uma luta histórica.
“Essas jovens mulheres tem um caminho aberto. Um grande caminho aberto por mulheres que vieram antes delas. Fica o meu agradecimento a nossas ancestrais que sofreram preconceito, apanharam, foram impedidas de realizar sonhos. Elas que lutaram para que hoje tenhamos nossos direitos”, afirma.
Cargo dentro do clube
Kaká seguiu como conselheira até o fim de 2021, quando recebeu convite do atual presidente do Avaí para trabalhar no clube. Ela conta que sempre deixou claro que aceitaria o convite desde que ele fosse para lidar do relacionamento do clube com a torcida.
“Disse que precisava ter sempre as portas abertas da sala do presidente e que eu seria uma representante dos torcedores, não da gestão”, explica.
A profissional é responsável por atender as diversas demandas de sócios e torcedores durante a semana. Também é possível fazer este contato pelas redes sociais.
“O torcedor avaiano me respeita muito, conversa comigo em alto nível, nunca recebi nenhuma ofensa e olha que a rede social é complicada”, comenta.
Kaká conta que tem um bom relacionamento com os torcedores do Avaí – Foto: Ian Sell/ND“O torcedor não é apaixonado pelo Avaí, ele ama o Avaí. Porque a paixão quando começa a te incomodar, acaba. Às vezes ele abre mão de muitas coisas só para ir no jogo, por isso entendo e me sinto como uma representante deles”, completa.
Mais sócias mulheres para o Avaí
Segundo Kaká, hoje o Avaí possui pouco menos de 11 mil sócios. Destes, 1.876 são mulheres. Um dos objetivos da profissional é do clube é crescer esse número e entender o que está afastando as mulheres do estádio atualmente
“O Avaí tem 1.876 sócias. O clube tem que entender porque tão poucas em um universo de quase 11 mil. Tem várias mulheres apaixonadas por futebol, o Avaí tem uma torcida organizada só formada por mulheres, elas tem o meu maior respeito”, explica.
Para o próximo sábado (11), o clube fará uma ação para comemoração do Dia da Mulher. Torcedoras avaianas entrarão de graça na partida. Além disso, o clube vai sortear 30 lugares para sócias com acompanhantes no Rooftop, mais um camarote de cinco lugares.
Para entrar gratuitamente, será necessário fazer um check-in, em material disponibilizado pelo clube na web.
PROMOÇÃO DIA DAS MULHERES⁰as AVAIANAS não pagarão ingressos neste jogo, mas devem OBRIGATORIAMENTE, fazer INSCRIÇÃO para ter direito a gratuidade. O link para inscrições será disponibilizado nesta quarta-feira (08) através do site oficial e das redes Sociais do Avaí. pic.twitter.com/IdtuWJ0L8k
— KakáRothbarthDePaula?? (@kkDNAzul_AvaiFC) March 7, 2023
“Ela vai se cadastrar e dizer o setor que ela quer assistir. Vai gerar um QR Code e ela vai entrar. A ideia do clube é saber quem é essa torcedora, o que ela gosta e porque ela não é sócia”, finaliza Kaká.
Representatividade feminina também no Figueirense
Pelo lado do Figueirense, a reportagem do Arena ND+ conversou com a Nutricionista Débora Brito, que está no clube desde 2016. Ela é uma das várias mulheres que atuam no clube do Estreito.
“A mulher hoje assume várias competências no Figueirense, desde administrativo até o âmbito do futebol”, destacou.
Débora também explica um pouco de como funciona as suas atividades no clube e de como seu trabalho impacta diretamente no resultado dentro de campo.
Débora é nutricionista do Figueirense – Foto: Figueirense/Divulgação/ND“A minha rotina no dia-a-dia é acompanhar os treinos e jogos dos atletas profissionais, e entender sobre demandas fisiológicas do dia a dia (treinos/jogos), sendo necessário se comunicar com os demais departamentos (fisiologia/educador físico/médico e fisioterapeuta) para que juntos a gente possa entender as necessidades individuais dos atletas ativos e lesionados, e de forma multidisciplinar fazermos os levantamentos de dados e posteriormente intervir com maior assertividade”, explica Débora.
Infelizmente ainda é difícil encontrar comissões técnicas que têm mulheres envolvidas no dia a dia. O Figueirense, por sua vez, tenta fugir dessa “tendência” e dá espaço para que uma mulher possa comandar um setor no clube tão importante e com maestria.
Ao ser questionada se já sofreu algum tipo de preconceito, ela diz que não e, atribui isso às suas experiências e competências, aliadas a boa conduta do clube.
“Não, graças a Deus sou bem aceita e respeitada. Me sinto muito bem exatamente por ser aceita pelas minhas competências e experiências e pelo meu comportamento dentro do clube. É isso que faz eu compor a comissão técnica”, declarou.
Débora ainda ressalta que chegou ao clube como estagiária, em 2016, e a sua boa conduta no âmbito profissional, contribuiu para que ela pudesse hoje estar exercendo o papel de nutricionista esportiva do Figueirense.
Quebra de preconceito
Questionada sobre como outras mulheres podem quebrar os preconceitos e ganhar destaque dentro de um clube de futebol, ela reforça que a boa postura é primordial, além de “exigir respeito e ter competência para exercer a função que deseja”.
Ela ainda acrescenta: “Entendo que somos mulheres e estamos neste meio porque gostamos e queremos estar, por isso se faz necessário saber se comportar diante deste público, hoje, por mais que ainda exista machismo, estamos ocupando espaço com competência e coerência”, destacou.
Débora ao lado de Serginho, ex-jogador do clube – Foto: Figueirense/Divulgação/NDEla finaliza deixando uma mensagem para outras mulheres que desejam seguir o mesmo caminho.
“Mulheres, que saibamos ocupar este espaço, exigindo competência e boa postura, portanto, exigimos respeito, e que este respeito seja recíproco. Saibamos que, estamos representamos não somente nossa categoria profissional e sim nossa categoria feminina. Se precisamos deste espaço para atuar, que a gente saiba aproveitar a oportunidade, e assim se comportar. No mais, siga seu ofício, com êxito, tranquilidade e muito amor”, finalizou.