‘O seu belo passado’ aos ‘dias de glória’: o passado e futuro dos 100 anos do Avaí

01/09/2023 às 05h40

O Arena ND+ preparou essa reportagem especial relembrando o passado e projetando o futuro do agora centenário Avaí Futebol Clube

Foto de Ian Sell

Ian Sell Florianópolis

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Passado, presente e futuro. A história centenária de glórias do Avaí foi construída “peça a peça” com o esforço e dedicação de heróis conhecidos e outros, um tanto quanto, “anônimos”.

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    Estádio da Ressacada, palco de tantas glórias do Avaí - Leandro Boeira/Avaí F.C/ND
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    Estádio da Ressacada, palco de tantas glórias do Avaí - Leandro Boeira/Avaí F.C/ND
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O “Time da Raça” completa 100 anos nesta sexta-feira (1º) com uma apaixonada e fiel torcida que está ao lado do clube mesmo nos momentos mais difíceis.

Inspirada em dois trechos marcantes do hino do clube, a reportagem do Arena ND+ preparou uma homenagem especial aos torcedores do Leão da Ilha em uma série de entrevistas com estes personagens que marcam as três “gerações” do clube.

“Não dá para esquecer o seu belo passado”

Se o Avaí é o que é hoje muito se deve ao seu passado de glórias, construído por ídolos e jogadores marcantes. Saul Oliveira, Dão, Jacaré, Zenon, Adilson Heleno… Faltaria espaço no material para citar a lista de craques que fizeram história no clube.

No entanto, é fora das quatro linhas que um personagem muito especial dedica a vida ao Leão da Ilha há quase 40 anos.

Delmar da Rosa Pereira. Esse nome te parece familiar? Massagista do clube, o querido Pereirinha, hoje aos 72 anos, trabalha no Avaí há exatos 38 anos.

Gaúcho de Erechim, o profissional já se tornou um verdadeiro manezinho, recebendo, inclusive, o título de cidadão honorário na Câmara Municipal de Florianópolis.

Em entrevista ao Grupo ND, Pereirinha relembrou os dois momentos mais marcantes vestindo a camisa Azurra e um deles, é claro, não poderia deixar de ser o título da Série C do Campeonato Brasileiro de 1998.

Pereirinha relembra com carinho as histórias dos 38 anos no AvaíPereirinha relembra com carinho as histórias dos 38 anos no clube – Foto: Ian Sell/ND

“Não que os outros não sejam, mas o título de 1988 quando o Avaí foi campeão estadual dentro da Ressacada, nosso primeiro aqui, e depois o Campeonato Brasileiro de 1998, que fomos campeões. Essa estrelinha aqui [aponta para a estrela na camisa acima do escudo do clube] foi uma meta que foi atingida com dignidade e trabalho”, relembra o profissional.

“O Avaí tem uma importância enorme na minha vida profissional principalmente. Foi onde consegui os títulos, onde fui convocado para a seleção brasileira de 1986. Tenho um carinho por esse time maravilhoso e pela torcida, que apoia, dá forças em todas as situações”, declara Pereirinha.

Diante de tanto tempo dentro do mesmo clube, os “causos” e “resenhas” não podiam faltar. Na entrevista, Pereirinha relembrou a história de um treinador, o qual ele não quis revelar o nome, que tinha uma “superstição” um tanto quanto peculiar.

“Nós tivemos um treinador que quando nós saímos daqui para irmos concentrar, ele nunca deixava o ônibus sair de ré. Nós tínhamos que entrar no ônibus, que fazia a volta no pátio, para sair de frente, de ré não saia. E olha que dava certo em?”, brinca o massagista.

“O Avaí mudou a minha vida”

É impossível falar de Avaí sem citar o maior ídolo da história do clube. São 400 jogos, quase 100 gols e uma relação de amor com o clube. Marcos Vicente dos Santos, o Marquinhos, foi mais um dos entrevistados pela reportagem do Arena ND+.

“O Avaí mudou a minha vida, não só minha vida profissional, mas como minha vida familiar, meu padrão de vida. Me abriu as portas para eu realizar meu sonho. Tudo o que tenho hoje na vida agradeço muito ao clube e tudo aquilo que me proporcionou. Eu pude fazer um pouquinho de coisas boas pelo clube, tenho um graõzinho nessa história maravilhosa de 100 anos. O Avaí sempre foi a minha vida e sempre será”, declarou Marquinhos.

O ex-meia e hoje auxiliar técnico balançou as redes dos adversários do Leão em quase 100 oportunidades. No entanto, a memória mais afetiva de Marquinhos vem de abril de 1999, quando o ainda menino de 17 anos estreou pelo profissional do clube.

Marquinhos é erguido pela torcida que invadiu o gramado da Ressacada no acesso à Série A em 2018 – Foto: Arquivo/Marco Santiago/NDMarquinhos é erguido pela torcida que invadiu o gramado da Ressacada no acesso à Série A em 2018 – Foto: Arquivo/Marco Santiago/ND

“O primeiro jogo pelo Avaí foi o mais marcante, sem dúvida. Estava realizando um sonho de criança, da minha família”, relembra.

Mudança de patamar do clube

Na opinião do ídolo Azurra, a campanha na Série B de 2008, que culminou no acesso à Série A do Campeonato Brasileiro após 30 anos, foi um divisor de águas na questão de mudança de patamar do clube, que voltou a figurar na elite de forma rotineira nos anos seguintes.

“Esse acesso mudou o Avaí de patamar com muita determinação do próprio Zunino [ex-presidente do clube], que era um cara que vinha sofrendo muito tempo, até porque o rival estava em um momento muito bom na época. Acho que o Avaí mudou o patamar e deixou um ensinamento para cada vez podermos evoluir o clube e deixá-lo cada vez mais num patamar acima”, opina o ex-jogador.

Entre idas e vindas no clube de coração, Marquinhos foi campeão estadual, conquistou acessos para a primeira divisão e nunca deixou de externar no gramado o seu lado torcedor. Em várias partidas saiu de campo abalado pelas derrotas, assim como foi para o vestiário extasiado pelas vitória.

“Minha carreira não seria a mesma se eu não tivesse passado pelo Avaí”

Em um passado mais recente está Betão. O zagueiro com maior número de jogos na história do clube (271) pendurou as chuteiras após o Campeonato Catarinense de 2022 e hoje trabalha nas categorias de base do clube.

A relação, que se iniciou em 2016 na campanha do acesso à Série A e vice-campeonato da Série B do Brasileirão, se tornou muito mais forte do que o próprio, hoje dirigente, imaginava.

Betão foi homenageado em despedida como jogador – Foto: Gustavo Medeiros/@gustavooficialllll/NDBetão foi homenageado em despedida como jogador – Foto: Gustavo Medeiros/@gustavooficialllll/ND

“Nem nos melhores sonhos eu poderia imaginar que minha passagem pelo Avaí seria da maneira que foi. Não poderia pensar que a minha relação com a torcida e a cidade seriam desta maneira”, afirma o jogador em entrevista ao Arena ND+.

“Hoje, passado tudo isso, eu tenho a convicção de que minha carreira não seria a mesma se eu não tivesse passado pelo Avaí. Acho que essa ligação foi muito grande”, completa.

Conexão com Florianópolis

Natural de São Paulo (SP), a identificação de Betão não só com o Avaí, mas também com a cidade de Florianópolis foi algo muito natural. Com muito carisma, o ex-jogador brinca nas redes sociais “imitando” o sotaque manezinho.

“Eu tenho a convicção de que todo lugar que eu for não são as pessoas que tem que se adaptar a mim, mas sim eu me adaptar ao contexto local. Eu me identifiquei muito com a maneira de ser do manezinho. É uma cultura ímpar, particular. As pessoas sabem viver a vida de uma maneira ‘simples’, com alegria e isso reflete muito em mim”, explica o dirigente.

Betão ainda relata que permaneceria em Florianópolis mesmo que não houvesse um acerto para permanecer no clube após a aposentadoria, tamanha a identificação.

Betão parabeniza o Avaí pelo centenário – Vídeo: Ian Sell/ND

“Minha permanência na cidade era independente do futebol. Se eu continuasse no Avaí ou não, já estava decidido que permaneceria aqui. Quando o presidente Júlio [Heerdt] assumiu, eu acredito que eu fui o primeiro atleta que ele telefonou, a partir disso já conseguimos traçar algumas coisas. Apresentei dois projetos a ele, um voltado nas categorias de base e outro em um outro departamento do clube”, relembra.

“De encontro marcado com seus dias de glória”

Se o passado do Avaí reserva títulos, ídolos e glórias, o presente e o futuro também se mostram promissores. Com atletas formados na base figurando e tendo papel importante na equipe principal, o clube colhe os frutos também financeiramente.

Em 2022, o zagueiro Arthur Chaves, formado no clube, foi vendido ao Académico de Viseu, de Portugal. Neste ano, o também zagueiro Felipe Silva “repetiu a dose” e rumou recentemente ao Gil Vicente, de Portugal, após se destacar pelo time principal do Leão.

Formado na base do clube, Felipinho é uma das grandes promessas do Avaí – Foto: Ian Sell/NDFormado na base do clube, Felipinho é uma das grandes promessas do Avaí – Foto: Ian Sell/ND

Quem também vem ganhando destaque no ano de 2023 é o atacante Felipinho. Natural de Volta Redonda, no Rio de Janeiro, ele deixou o Estado de origem há mais de dois anos, quando desembarcou em Florianópolis para fazer um teste no Leão da Ilha e acabou aprovado por Gabriel Bussinger, então responsável pela base.

O futebol começou cedo na vida da promessa avaiana. Aos 5 anos de idade começou a “jogar bola”, como o mesmo diz, no futsal do Sesi em Volta Redonda.

Com o destaque natural, na adolescência acertou com o futsal do Vasco, onde ia duas vezes por semana para a capital do Rio de Janeiro. Após oito meses no clube, acertou com o Flamengo, onde praticou futsal e campo até os 14 anos, quando permaneceu apenas nos gramados.

A rotina dura fez o jogador mudar com a família para a Capital. “Estudava de manhã, almoçava dentro do carro indo para a Capital, ia treinar campo no Flamengo, no Ninho do Urubu às 15h, acabava às 17h, eu ia para a Gávea para treinar futsal, acabava 23h, chegava em casa 1h da manhã. Almoçava, jantava e estudava dentro do carro”, relembra o jogador.

No entanto, as coisas não saíram como o jogador planejava. Infeliz no clube carioca, após uma conversa com o empresário surgiu a oportunidade de um teste no Avaí.

“Vim para cá sozinho, fiquei hospedado próximo a Ressacada. Quando fiz 18 anos consegui alugar um apartamento aqui no bairro. O problema é que logo veio a pandemia e tive que voltar para o Rio de Janeiro”, relembra o jogador.

Felipinho retornou a Florianópolis em 2021 onde atuou pela equipe sub-20 do Leão. Já no fim de 2022 veio a primeira oportunidade no time profissional, quando participou de alguns jogos na reta final da Série A do Campeonato Brasileiro.

Felipinho durante o jogo contra o Ituano pela Série B – Foto: André Palma Ribeiro/Avaí F.C/NDFelipinho durante o jogo contra o Ituano pela Série B – Foto: André Palma Ribeiro/Avaí F.C/ND

Em 2023, ele alterna entre titularidade e reserva dentro elenco profissional. São três gols marcados no ano, dois deles na Série B do Campeonato Brasileiro.

“É muito gratificante o reconhecimento do torcedor, no dia do jogo contra o Sampaio Corrêa eu saí no segundo tempo com todo mundo gritando meu nome, fico arrepiado”, lembra o atleta.

“Você sobe da base, consegue realizar o teu sonho de jogar no profissional, o torcedor te reconhece na rua. Eu me apaixonei pelo clube, a gente que vem de fora, cidade maior, não tínhamos tanto essa noção do quão fantástica é a torcida do Avaí”, completa.

O futuro do Avaí

A seleção brasileira é o sonho de qualquer jogador. E o jovem Pablo, de apenas 15 anos, pode dizer que já realizou esse sonho. O talentoso meio-campista, apesar da pouca idade, joga em uma categoria acima, na sub-17 do Avaí.

Ele foi recentemente convocado para a seleção brasileira sub-15, no que chamou de “a realização de um sonho”.

Aos 13 anos, Pablo Felipe Vieira da Silva deixou a família no bairro Cristo Rei, em Chapecó, e veio para Florianópolis tentar a sorte no futebol, onde é hoje uma das principais promessas para o futuro do clube.

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    Pablo é uma das principais promessas da base do Avaí - Ian Sell/ND
    Pablo é uma das principais promessas da base do Avaí - Ian Sell/ND
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    Pablo é uma das principais promessas da base do Avaí - Ian Sell/ND
    Pablo é uma das principais promessas da base do Avaí - Ian Sell/ND

“Joguei futsal dos 6 aos 13 anos, além de treinar em uma escolinha de futebol de campo, quando em junho de 2021 vim a Florianópolis para fazer esse teste no Avaí, acabei passando”, relembra o jogador.

Com a família no Oeste de Santa Catarina, Pablo morou sozinho no alojamento do clube e o início foi bastante difícil.

“No começo foi difícil pela questão da saudade. Mas eu sempre tive o apoio da minha família. Eles dizem para eu não desistir do meu sonho e também não tenho a intenção de desistir. Quero poder ser motivo de orgulho para eles e meus amigos”, afirma.

Pablo ainda elogiou a estrutura do clube e toda a preparação desde o lado mental até a parte física. E citou que tem como “exemplos” o meia Andrey e o atacante Felipinho da equipe profissional.

“O clube tem psicólogos que ajudam nessa parte, temos várias palestras que falam sobre disciplina, como levar o dia a dia e toda essa questão extracampo”, cita Pablo.

“Eles [Andrey e Felipinho] são referência para mim. São meninos que fizeram toda a base até conseguir alcançar o profissional que é o sonho de todo jogador”, finaliza.

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