Pior capítulo da história: um ano depois do W.O. Figueirense busca reestruturação

20/08/2020 às 06h00

Há um ano o Figueirense virou notícia no mundo ao se negar a entrar em campo, em duelo válido pela 17ª rodada da Série B 2019; episódio foi uma mancha, mas também um marco na história do clube

Foto de Diogo de Souza

Diogo de Souza Florianópolis

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Eram 22h01 do dia 20 de agosto de 2019, uma terça-feira, quando o árbitro carioca Pathrice Wallace Corrêa Maia ergueu seu braço direito e assinalou o fim de uma partida que não aconteceu. O duelo era válido pela 17ª rodada do Campeonato Brasileiro da Série B e, apesar de ser apenas uma tabela da segunda divisão nacional, as imagens reverberaram em todo o planeta.

Protocolo pela metade: o dia que o adversário não entrou em campo, nesse caso, o Figueirense – Foto: Divulgação/NDProtocolo pela metade: o dia que o adversário não entrou em campo, nesse caso, o Figueirense – Foto: Divulgação/ND

O Cuiabá-MT venceu o Figueirense pelo placar de 3 a 0 e impôs ao clube catarinense a maior das derrotas da sua história quase centenária. Não pelo resultado, uma vez que esse valor divide opiniões sobre ser uma goleada, mas pela maneira como foi.

O problema passou na forma em que esse revés foi consolidado já que, em protesto pelos atrasos salariais e estruturais da então direção, os jogadores optaram por não adentrar o gramado da imponente Arena Pantanal, na capital mato-grossense.

Como rege o manual da modalidade, ou na frieza do Regulamento Geral das Competições em seu capítulo 5, artigo 56, “nenhuma partida poderá ser disputada com menos de sete atletas ou com a ausência de um dos clubes participantes”.

Em seu inciso 1º, a orientação para agir nesse caso é simples: “o árbitro aguardará o prazo de 30 minutos depois da hora marcada da partida onde o clube presente será declarado vencedor pelo placar de 3 a 0, ou seja, W.O”.

W.O que, do inglês, é Walkover, ou dentro de uma tradução rasa significa “vitória fácil”.

O cenário registrado no gramado da Arena Pantanal, na verdade, despia-se de qualquer tradução ou necessidade de entendimento da regra. O semblante constrangido dos jogadores da equipe declarada vencedora resumia bem o que acabara de ocorrer.

Devidamente fardados e mal distribuídos no gramado, os atletas do Cuiabá, de braços cruzados e mãos para trás, foram declarados vencedores pela equipe de arbitragem.

Mais que isso: tiveram que realizar uma sessão de treinamento ali mesmo, com roupa e com cenário de partida oficial, sob os olhos incrédulos de quase cinco mil presentes nas arquibancadas.

Um ano depois o sentimento é prioritariamente de vergonha para a instituição Figueirense Futebol Clube. Os torcedores alvinegros, que viram o nome do clube parar na boca de Pep Guardiola – talvez o principal sinônimo de excelência do futebol no século – também admitem aquela noite como a mancha mais encardida de toda a história.

É mais ou menos nessa linha que o colunista do Grupo ND Fábio Machado, vê o fato.

“O episódio marcou internamente a implosão da empresa parceira que geria o clube, e com as feridas expostas, abreviou a partir deste momento a sua expulsão, culminando com a retomada do clube por verdadeiros alvinegros”, analisou.

Embora todo o pesar acerca daquele 20 de agosto de 2019, ali foi o começo do fim. O pontapé de uma revolução dentro do clube para que uma gestão tóxica fosse imediatamente varrida dos corredores do estádio Orlando Scarpelli. Um marco do clube. Uma impulsão para dias melhores de uma massa ferida e envergonhada, mas esperançosa e igualmente fanática por dias melhores.

“Salvem o Figueirense”

Sob a batuta do florianopolitano Hemerson Maria, o Figueirense teve uma boa arrancada na Série B de 2019. Pouco mais de dois meses antes do W.O., no dia 11 de junho daquele ano o Furacão bateu o Botafogo-SP por 2 a 1, no estádio Orlando Scarpelli.

Com a vitória o time ascendeu à 8ª posição com três vitórias, quatro empates e uma derrota. Foi dessa maneira que o clube se “despediu” da competição que, aquela altura, seria interrompida em função da Copa América, sediada no Brasil.

Mas foi nesse intervalo que o sinal de alerta – ao menos para o lado de fora do estádio Orlando Scarpelli – foi aceso.

No dia 3 de julho, véspera da decisão da Recopa Catarinense entre Figueirense x Brusque, os jogadores optaram por não concentrar em protesto ao então atraso salarial.

Na ocasião, segundo o clube, em nota produzida pela reportagem do nd+ havia uma dívida de 28 dias de atraso de 65% dos vencimentos previstos em carteira (CLT).

Os atletas se apresentaram no dia do jogo, venceram o Brusque por 1 a 0, e comemoraram o título da Recopa Catarinense.

Figueirense vence o Brusque por 1 a 0 e conquista a Recopa – Foto: Matheus Dias/FFCFigueirense vence o Brusque por 1 a 0 e conquista a Recopa – Foto: Matheus Dias/FFC

A postura se manteve no retorno da Série B, no dia 13 de julho, dia em que o Figueirense foi a Minas Gerais e goleou o América-MG por 4 a 0 dentro do estádio Independência.

O cenário não teve alteração. Ou teve, no caso. Três jogos depois – dois empates e uma derrota – o técnico Hemerson Maria, cansado de promessas não cumpridas, pediu as contas e foi embora. Em sua saída, bastante emocionado, Maria, alertou:

“Salvem o Figueirense”.

Greve e W.O.

Hemerson Maria foi embora. Alguns jogadores, igualmente cansados do cenário, também conseguiram se desvincular do clube. O goleiro Denis, com passagem marcante e uma das referências do elenco, a época, teve a saída mais emblemática de todas.

Vinícius Eutrópio chegou em meio a um tornado, assim como Antônio Lopes, mas foi só questão de tempo para que a situação, ao não ser resolvida, culminasse com o abandono da partida, em Cuiabá.

O grupo de jogadores, sem respostas da então administração do clube, entendeu por fazer greve e, assim, não realizar treinamentos até que a situação fosse, ao menos, amenizada.

O movimento reivindicava não só a situação do time profissional, mas uma tônica em todo o clube uma vez que funcionários e atletas da base estavam sem receber.

Dentro de campo, como não poderia ser diferente, o clube sucumbiu. Depois da goleada sobre o Coelho, em Minas Gerais, o time emendou a sequência iniciada com Maria e continuada por Vinícius Eutrópio onde empatou duas e perdeu mais duas, somando uma série de sete jogos sem vitória.

Contando todas as “séries” sem vencer, incluindo o W.O. em Cuiabá, o Figueirense empilhou 18 jogos sem saber o que era uma vitória.

O fatídico 20 de agosto

Há quem defenda que o W.O, na verdade, deveria ter acontecido na rodada anterior, derrota para a Ponte Preta, dentro do estádio Orlando Scarpelli. Com uma situação insustentável no bairro do Estreito, os jogadores já vinham manifestando o desejo de não entrar em campo para, assim, chamar a atenção da então administração.

O técnico da ocasião, Vinícius Eutrópio, ainda conseguiu contornar a situação já que havia recebido uma suposta promessa por parte da empresa Elephant, então administradora do clube.

Os atletas, ainda que tivessem ameaçado fazer o contrário, viajaram a Cuiabá na expectativa de que as dívidas, não só com o grupo, mas com todos os funcionários do clube, fossem quitadas.

Essa expectativa se estendeu ao longo de todo dia 20. A decisão de não entrar em campo foi tomada dentro do hotel em que a delegação estava concentrada. A intenção, dessa forma, era nem ir até a Arena Pantanal.

O técnico Vinícius Eutrópio, mais uma vez, intercedeu junto aos atletas e ainda conseguiu convencer a todos de que fossem até o estádio na expectativa de que, naquele meio-tempo, os compromissos seriam honrados pela então administração.

Prova disso é que a delegação chegou a Arena Pantanal às 20h57, pouco mais de meia-hora antes do horário marcado para a bola rolar.

“Ali em pensei comigo, vai ter o jogo. Quando eu soube que o Figueirense finalmente chegou no estádio, eu imaginei que a bola ia rolar, mas quando eu vi o semblante dos jogadores do Figueirense, eu perdi toda a certeza”, descreveu a repórter Bruna Ficagna, 21 anos, que trabalhou na partida pela TV Centro América.

“Todos desceram quietos, sem falar nada, fui amplamente ignorada [risos] por todos, mas aí que eu consegui perguntar para um deles, que eu não lembro o nome, se teria jogo. Ele me olhou e disse: eu não sei”, relembrou a jornalista.

O elenco do Figueirense, que na ocasião era capitaneado pelo então diretor de futebol Antônio Lopes, foi até o vestiário da Arena Pantanal. Após mais impasse e diante de mais uma promessa não cumprida, os atletas saíram do vestiário, mas com rumo ao ônibus.

O sentimento da repórter fora desenhado. O W.O. estava consolidado.

Clube da elite

Para o fanático torcedor do Cuiabá, Carlos Silva, 55, gerente mecânico, aquilo jamais iria acontecer. Fundador da torcida Fúria Cuiabá, desde 2003, o adepto é presença confirmada nos jogos do Dourado e revelou que jamais viu nada parecido em um ambiente que declarou como “chato”.

Carlos disse que a pouca presença do público, naquela noite, era fruto do impasse envolvendo o Furacão.

“A gente sabia que tinha essa situação com o Figueirense, mas nunca imaginei que não iriam entrar em campo. O Figueirense é um clube de elite, a gente nunca imaginou que ia acontecer isso com eles”, contou Carlos.

O legado de Vinícius Eutrópio

“Eu só me f*, f* minha carreira, me aborreci e só gastei gasolina. Não recebi nada também”. Foi a confissão feita pelo técnico Vinícius Eutrópio, 54 anos, na condição de técnico do clube no episódio mais triste da história do clube.

Vinícius Eutrópio, ao gentilmente atender a reportagem do nd+, trouxe alguns detalhes da confusão que, horas antes do W.O. na Arena Pantanal. Dono de um acesso à Série A em 2013 e um título estadual em 2014 a frente do Furacão, Eutrópio colocou tudo isso em cheque somente com o desejo de ajudar o clube.

Ele lembrou que desde que chegou ao Orlando Scarpelli nessa última passagem, funcionava como uma espécie de elo entre as partes, o grupo de jogadores e a direção, ainda que, indiretamente, estivesse “por acaso” no fogo-cruzado.

“Estávamos no saguão do hotel na tarde do jogo, quando reunimos os atletas. Antes de começar a falar, fui perguntado: ‘o senhor vai dar a preleção, professor?’, eu disse que sim, e todos se retiraram da peça”, relembrou.

Eutrópio revelou que, juntamente com a comissão técnica e o então diretor de futebol, Antônio Lopes, conseguiu convencer os atletas a se deslocarem até o estádio, embora eles estivessem inclinados a nem ir até lá. Eutrópio contou – e um atleta que pediu para não se identificar confirmou – que o grupo só foi até a Arena Pantanal por ele, técnico do Figueirense.

“Ninguém tava nem aí, não tinha como falar em tática, técnica, posicionamento. Eu cheguei os caras estavam em greve, eu não tinha o que fazer a não ser respeitar o posicionamento. Havia uma causa muito maior por trás daquele movimento”, acrescentou.

O pior veio depois. Dependendo do viés, o melhor, já que, após o W.O. consolidado e o retorno sob aplauso de uma parcela de torcedores já na recepção do antigo terminal do Aeroporto Internacional de Florianópolis, o cenário era de absoluto litígio entre jogadores e direção.

Chegada do Figueirense em Florianópolis pós WO em Cuiabá – Foto: Anderson Coelho/NDChegada do Figueirense em Florianópolis pós WO em Cuiabá – Foto: Anderson Coelho/ND

Rescisões foram assinadas pela então gestora, assim como contratações foram encaminhadas, para que um segundo W.O. –  e nesse caso passível de exclusão do campeonato – fosse evitado.

Foi nesse momento que Eutrópio, dono de um acesso e um título estadual a frente do Figueirense, ainda em 2014, tomou a frente e convenceu os atletas a retornarem aos treinamentos e confirmarem a presença na partida seguinte, diante do CRB, que terminou empatada em 2 a 2.

“Foi muito legal pois os jogadores realizaram um treinamento aberto para a torcida que compareceu e fez uma linda festa para os jogadores”, relembrou.

Duas semanas depois Eutrópio foi desligado do Figueirense. Foram apenas oito jogos com o abrigo alvinegro, sem vitórias e com a lanterna da Série B em mãos. Mas com a certeza da “implosão” do episódio que culminou com a saída da Elephant do estádio Orlando Scarpelli.

Um dia triste e um dia feliz ao mesmo tempo

Essa foi a maneira que o torcedor alvinegro Uriel Elou, 23 anos, professor de educação física, usou para descrever aquele episódio. Uriel entende como um episódio triste na história do Figueirense, mas feliz ao mesmo tempo por ver, naquele movimento, um fator crucial para duas coisas:

Primeiro, a saída da Elephant do comando do clube e segundo, a manutenção da equipe na Série B.

“Se não tem aquele W.O. hoje a gente estaria na Terceira Divisão. O que aqueles caras fizeram com o clube foi muito triste, por isso temos que ter paciência para poder voltar a nos reestruturar”, lembrou o fanático torcedor.

A massa alvinegra está ferida, mas já mostrou que o clube estará sempre a salvo se depender dela.

Não quis se manifestar

O Figueirense foi procurado pela reportagem do nd+ mas optou por “não se posicionar” sobre o episódio.