Racismo na Arena: lateral do Marcílio Dias acusa torcedor do JEC em jogo da Copa SC

Lateral Victor Guilherme denunciou caso de injúria racial na Arena Joinville, árbitro relatou em súmula, mas deu cartão amarelo para o jogador

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Estádios de futebol são espaços democráticos, de comemoração, mas em Joinville, na estreia da Copa Santa Catarina no sábado (27), apesar da festa das duas torcidas, o que ficou marcado foi mais um caso de racismo vindo das arquibancadas.

Lateral Victor Guilherme denunciou caso de injúria racial na Arena Joinville – Foto: Marcílio Dias/Divulgação/NDLateral Victor Guilherme denunciou caso de injúria racial na Arena Joinville – Foto: Marcílio Dias/Divulgação/ND

O lateral Victor Guilherme foi vítima de injúria racial durante o jogo, denunciou o caso ao árbitro da partida, que relatou o crime em súmula, mas deu cartão amarelo ao jogador por “retardar excessivamente a execução de um arremesso lateral ou tiro livre”.

Em seu Instagram, o atleta relatou o racismo sofrido em momentos em que foi até a lateral do campo para a cobrança.

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“Queria relatar algo muito chato que aconteceu no decorrer da partida de um “torcedor” do Joinville por ter me ofendido com palavras “Racista” durante a partida, e fui ao árbitro relatei o que ele tinha falado “ô seu nego fdp” e ele saiu correndo. Falei com o árbitro que ele solicitasse a polícia pra esse torcedor e o mesmo torcedor voltou minutos depois para o mesmo lugar e continuou me xingando. Quando fui falar com ele novamente ele ainda me puniu com um cartão amarelo. Fica aqui minha indignação com esse torcedor!”, escreveu.

O Marcílio Dias emitiu uma nota oficial na manhã deste domingo (28). “O Clube Náutico Marcílio Dias encontra-se estarrecido e indignado com mais um ato de racismo durante a prática de futebol profissional, desta vez com um atleta do próprio Clube, o lateral Victor Guilherme”, inicia o comunicado.

O clube de Itajaí ressalta, ainda, que cobrará a FCF (Federação Catarinense de Futebol) medidas mais duras no combate ao racismo e apontou a atitude desproporcional da arbitragem ao advertir o atleta, vítima de racismo, que denunciou o crime, com o cartão amarelo.

“É estarrecedor que estes fatos continuem acontecendo no futebol, e na sociedade como um todo, e que punições severas aos racistas deixem de acontecer. Racismo é crime inafiançável previsto na Constituição e em leis como a 7.716/89. Cabe a nós reprimir, denunciar e fazer com que o racismo seja eliminado de uma vez por todas do convívio social. O Marcílio Dias se solidariza com o atleta Victor Guilherme. O Clube, que leva o nome de um herói nacional negro – neto de escravos – não irá se calar e irá cobrar da Federação Catarinense de Futebol e demais órgãos competentes maior rigor e punições severas a estes fatos completamente lamentáveis e indignantes”, finaliza.

Na súmula, o árbitro Igor da Silva Albuquerque registrou a denúncia alegando não ter ouvido nada no momento. “Informo que no momento, a equipe de arbitragem não ouviu e deu continuidade a partida normalmente”.

Árbitro relatou caso em súmula – Foto: Reprodução/FCFÁrbitro relatou caso em súmula – Foto: Reprodução/FCF

Além disso, ele relatou uma tentativa de agressão após o término da partida. “O torcedor do Marcílio Dias não identificado, arrancou uma barra de ferro da grade de divisão de torcidas, e estava ameaçando torcedores do Joinville”, escreveu.

O JEC se manifestou no final da manhã deste domingo, repudiando o crime e ressaltando a história de inclusão do clube.

Não há justificativa no ato do torcedor. Um jogo de futebol, rivalidade, nada pode servir de “desculpa” para a prática de um crime que não deveria sequer existir, em qualquer época, em qualquer espaço, sob qualquer alegação.

Os casos de racismo no futebol se acumulam, se multiplicam, sem que ações efetivas de combate sejam colocadas em prática. Não pode existir espaço em um esporte socialmente tão importante, culturalmente tão relevante e historicamente tão impactante na inclusão racial.

Além disso, é inadmissível que uma arbitragem esteja tão despreparada para lidar com uma denúncia de racismo. O lateral Victor Guilherme denunciou um crime, ele foi vítima enquanto exercia seu trabalho e foi ele o advertido. Para além da desqualificação da arbitragem catarinense nas atuações de jogo, ela não pode ser tão passiva em um caso de racismo e punir o jogador que não “retardou o jogo”, procurou seu direito de exercer sua profissão sem ter que ser submetido a uma agressão como essa.

A FCF precisa se manifestar e, mais do que isso, precisa agir e punir. Torcedor que comete crime e árbitro que não sabe conduzir uma denúncia.

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