O momento do Avaí é de crescimento dentro de campo, com três vitórias consecutivas, quatro jogos sem perder e na primeira parte da tabela. Fora das quatro linhas a situação é de atraso no pagamento dos salários, lei do silêncio imposta pelos jogadores e negativa de entrar em regime de concentração na véspera dos jogos.
Jogadores não vão dar entrevistas antes do jogo de segunda-feira como forma de protesto – Foto: Leandro Boeira/AFC/NDO relacionamento entre quem entra em campo e quem administra as finanças está estremecido, mesmo com diálogos abertos e diretos conforme explicam os diretores executivos do Avaí, Lucas Pedrozo e Eduardo Freeland, em entrevista ao Grupo ND.
Hoje o Leão da Ilha tem em aberto dois meses de salários e direitos de imagem para os atletas. Os funcionários dos clubes estão com os vencimentos em dia, exceto o alto escalão (diretoria), que tem o mesmo tempo de atraso dos atletas.
SeguirComo o problema surgiu e como será resolvido
Pedrozo explica que o clube previa a entrada de caixa com parte do contrato da Liga Forte, contudo, os valores atrasaram.
O contrato com a Liga representa R$ 92 milhões em novas receitas ao clube. Desse valor, entraria parte em 2023 e o outro restante no ano de 2024.
“Ao final de outubro e início de novembro [2023], o Avaí tinha a expectativa de receber R$ 46 milhões. Foi com base neste dinheiro que organizamos todo o final de ano e projetamos o ano seguinte”, explica Pedrozo.
“Acontece que ao longo desse processo, o investidor, que é quem realizou a compra desses direitos, fez uma retenção de 50% desta primeira parcela por conta de uma questão contratual entre CBF e Brax, a atual detentora dos direitos de transmissão da Série B. Isso fez com que o clube ao invés de receber R$ 46 milhões, recebesse R$ 23 milhões”, completa.
Lucas Pedrozo, diretor executivo do Avaí – Foto: Germano Rorato/NDDesse valor, R$ 5 milhões foram investidos em infraestrutura, com troca de gramado do estádio da Ressacada e campo sintético no centro de treinamento, por exemplo. Outra parte foi usada no pagamento das obrigações de final de ano, como 13º salário e férias.
“Já sabendo dessa retenção, tínhamos uma data alvo, com base nas negociações que tínhamos, de que esse imbróglio entre CBF e Brax se resolveria até fevereiro de 2024. Tínhamos caixa suficiente até lá”, pontua o diretor.
Uma vez resolvido, o clube receberia os outros 50% (R$ 23 milhões), que dariam um conforto até o final do ano. No fim de 2024, o Leão da Ilha tem outra parcela, também de R$ 23 milhões, a receber.
Não recebendo o valor, em função do imbróglio, o clube passou a enfrentar problemas no fluxo de caixa, o que causou os atrasos, segundo o diretor.
“A questão do contrato do dinheiro da Liga não está totalmente resolvida, Dessa retenção, conseguimos que o investidor libere metade desse valor, que vem agora parcelado. Veio uma parcela agora esse mês, que já permitiu que se regularizasse parte dos atrasados, e, uma vez resolvido de vez esse problema com CBF e Brax, a gente recebe o dinheiro por completo e o caixa volta ao normal”, afirma Pedrozo.
“Para que isso não impacte ainda mais o nosso dia a dia, estamos indo ao mercado financeiro para conseguir fazer uma antecipação desse recebível”, prossegue.
“Acredito que vamos conseguir regularizar quase metade disso [com a entrada dos valores], mas já com perspectiva de novas operações como essa para liquidar isso de uma vez por todas”, finaliza.
Pedrozo ainda enfatizou que o Avaí está gastando dentro do planejado. O clube projetava gastar com elenco em torno de R$ 40 milhões. “Temos a considerar a retenção dessa metade da primeira parcela e segunda da liga, só desse valor temos 44 milhões para o ano de 2024”, explica.
Sem um prazo específico
Diretor executivo de futebol do Avaí, Freeland é dos homens de frente para “segurar o vestiário” neste momento de dificuldade financeira.
O dirigente pontua que a partir do momento em que ficou claro que a diretoria não honraria com os vencimentos dos atletas, foi explicado a eles a situação e, desde então, estão havendo “conversas semanais”.
Segundo o clube, a tendência é que a situação se resolva nas próximas semanas. Contudo, não foi dado uma data específica aos atletas, o que, na opinião do dirigente, poderia causar um desconforto ainda maior diante de um não cumprimento deste prazo.
“Há 10 dias, quando a gente identificou que esse problema ia ficar um pouco mais acentuado, tivemos uma reunião e abriu a planilha detalhadamente para eles entenderem a receita e os valores a receber e prazo de pagamento”, explica Freeland.
Eduardo Freeland, dirigente do Avaí – Foto: Germano Rorato/ND“Através de uma reivindicação que a gente entende e respeita muito, eles entenderam que algumas atitudes deveriam ser tomadas para pressionar a diretoria. A gente reconhece que está errado, que tem que equalizar, mas eles também entenderam que é um processo que o clube tem pouca responsabilidade, mas a gente tem que pagar o trabalhador”, prossegue.
“Nós temos sido muito cautelosos de passar uma data de resolução porque não depende da gente as transferências bancárias, as receitas que a gente tem a receber, fica na situação de passar uma data, levar dois, três dias e ficar uma situação muito maior”, completa.
Campo responde bem
O trabalho dentro de campo tem sido feito e com resultados positivos na Série B do Campeonato Brasileiro.
Apesar do extracampo conflituoso, as vitórias sob o comando de Dal Pozzo apareceram: 1 a 0 no Coritiba, 2 a 1 no CRB e 2 a 1 no Sport. Há comemoração pelos triunfos, mas ao mesmo tempo um sentimento estranho.
Dal Pozzo tem 100% de aproveitamento no comando do Avaí – Foto: Fabiano Rateke/Avaí F.C/ND“A preocupação com o impacto competitivo não tem acontecido exatamente pelo profissionalismo dos atletas. Acho que pela forma transparente que o clube tem passado para os atletas passa uma tranquilidade, mas é óbvio que o momento é sensível”, pondera Freeland.
O Leão da Ilha volta a campo na segunda-feira (27), quando recebe o Goiás, às 21h30, no estádio da Ressacada.