Aos 34 anos, o ex-zagueiro Hélio Zampier, o Neto, anunciou sua aposentadoria do futebol nesta terça-feira (17). Ele foi um dos cinco sobreviventes do acidente com o voo da Chapecoense.
Neto estava afastado dos gramados desde novembro 2016, quando ocorreu a tragédia na Colômbia e 71 pessoas morreram. O ex-atleta chegou na Chape em 2015 e tentava há três anos se recuperar para voltar a jogar pelo clube.
Atleta estava desde 2015 na Chapecoense – Foto: Sirli Freitas/Chapecoense“Hoje venho, oficialmente, declarar a minha aposentadoria. O encerramento da minha carreira devido às lesões. Não foi algo planejado por mim encerrar, mas os médicos optaram pra que eu parasse de jogar. Sinceramente é uma vida nova. Tudo diferente”, disse Neto.
SeguirEm março deste ano ele voltou a treinar com bola após dois anos em recuperação. Na ocasião ele foi recebido pelos colegas num corredor polonês com ‘camisetadas’ dos companheiros. Apesar de pendurar as chuteiras de forma precoce, o ex-atleta diz que está feliz pela carreira que construiu.
“Não fui um zagueiro de Seleção Brasileira, um dos melhores do mundo, mas creio que para a Chapecoense fui um dos melhores que já vestiu a camiseta. Agora se encerra e Deus vai preparar um novo caminho para mim”, disse o ex-atleta.
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Projetos e sonhos
Neto diz que tem o desejo que permanecer morando em Chapecó. Ele tem contrato com a Chape até 2021 e o clube estuda a possibilidade de manter o ex-atleta, mas desta vez como membro da diretoria.
“Em relação a sonhos, penso que realizei tudo o que tinha para realizar. Só não realizei o sonho do meu pai, que é flamenguista e tinha um sonho de me ver jogando com a camisa do Flamengo. Acho que até passei os limites dos meus sonhos”, comentou Neto.
O ex-zagueiro foi o último sobrevivente a ser resgatado e ficou duas semanas internado na Colômbia. De volta ao Brasil, ele passou por um longo tratamento até receber alta.
Após o acidente, o zagueiro chegou a participar apenas de um jogo beneficente em prol dos familiares das vítimas do acidente, mas não atuou mais como profissional.
Recopa Sul-Americana 2017 – Foto: Sirli Freitas/ChapecoenseQual é a lesão?
O médico da Chapecoense, Marcos Sonagli, explicou que Neto esteve muito perto de voltar aos gramados, pois, já treinava em alto rendimento e se preparava para ir ao banco.
Com o acidente em 2016, o ex-atleta sofreu uma fratura na coluna lombar, que poderia ser corrigida com uma cirurgia, mas devido à gravidade dos ferimentos à época, os médicos optaram por aguardar. Ele ficou acamado e a lesão cicatrizou.
“O Neto teve uma lesão óssea na estrutura da coluna. Ela ficou parcialmente danificada por causa do acidente e a mobilidade ficou instável”, revelou Sonagli.
Médicos e Neto oficializaram a informação nesta terça-feira – Foto: NDTV/Divulgação/NDPor conta dos treinamentos Neto ganhou muita musculatura, que auxiliou na estabilidade estrutural da coluna e tornou o movimento harmônico. No entanto, a exigência física aumentou.
“Quando ele estava sentado ou caminhando, fazendo atividades do dia-a-dia, a necessidade do corpo era menor. Quando ele foi para o campo fazer treinamento de alta intensidade, a necessidade ultrapassou a capacidade dele, aí começou um desequilíbrio”, disse Sonagli.
Com isso ele começou a sentir muitas dores no corpo e precisou tomar medicamentos. Ele também teve inúmeras lesões no joelho e fez seis cirurgias.
“Neto esteve muito perto de voltar. Em comum acordo, achamos por bem que era a hora dele parar e dedicar a vida dele a outras coisas”, disse o médico da Chapecoense, Carlos Mendonça.
Trajetória
Neto foi um dos seis sobreviventes do Voo LaMia 2933, mas ficou conhecido, de fato, pelas grandes atuações dentro de campo.
Depois de passagens pelo futebol de base do Paraná e do Vasco, Neto iniciou a sua trajetória como atleta profissional em 2006, no Francisco Beltrão. Na sequência, teve passagens pelo Cianorte, pelo Guarani e pelo Metropolitano. Em 2013, recebeu a oportunidade de defender a camisa do Santos, onde atuou em 40 jogos e, por fim, em 2015 a sua história se cruzou com a da Chapecoense.
Neto se emocionou na coletiva nesta terça-feira – Foto: Márcio Cunha/Chapecoense/NDPelo clube alviverde, Neto entrou em campo em 52 oportunidades e balançou as redes em quatro delas. Numa das mais emblemáticas, o defensor de quase dois metros de altura acertou uma linda bicicleta. Depois de uma cobrança de falta de Camilo, o camisa quatro mandou com categoria para o fundo das redes. Os outros foram marcados contra o Palmeiras – na goleada de 5 a 1 aplicada pela Chapecoense – contra o Santos – seu antigo clube – e contra o Brusque, no Campeonato Catarinense de 2016.
Sua grande vocação, no entanto, era na defesa. Como xerife da zaga verde e branca, Neto conquistou o Campeonato Catarinense de 2016 e levou a equipe à grande final da Taça Sul-Americana do mesmo ano.
Os anos seguintes foram de luta e trabalho intenso, mas, principalmente, de superação. A garra – intrínseca ao zagueiro – passou a ser fiel escudeira, também, fora de campo. Foram quase três anos de uma batalha homérica contra as suas próprias fraquezas.
Neto chegou na Chape em 2015 – Foto: Márcio Cunha/Chapecoense/ND